segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A Bússola e as Pipas


Por volta dos cinco anos, porque estava doente, o garoto Einstein, para se distrair, ganhou uma bússola de bolso do seu pai. Ficou extasiado com o poder fantástico do ponteiro magnético, não importava em que posição estivesse o brinquedo, a agulha sempre apontava para o norte. As portas da percepção, as asas da imaginação do futuro gênio se escancararam, compreendeu que para além do visível e do palpável existiam inúmeras outras forças ocultas que comandavam o universo. 

Imagino que os garotos e garotas de até 70 anos quando começavam a empinar pipas, passavam por um maravilhamento semelhante. Novidades como o poder do vento, a mágica função do rabo do papagaio para o equilíbrio do vôo, a força e tensão da linha no limite precário da resistência, perto rompimento. Tudo era susto, desvelamento e deslumbramento.

Devem ter surgido daí nossas grandes questões infanto-transcendentais. Porque alguns dias venta e outros não? Porque a direção muda de repente? Porque não temos asas? Compartilhávamos perplexos do estalo de Einstein, o entendimento de que o mundo é mais, é muito mais, repleto de mistérios profundos, muitos deles, ainda não revelados.

Havia também a beleza das pandorgas voando nos céus, as formas variadas, quadrado, losango, hexágono, estrela, maranhão, peixinho e outras inesperadas, sugeridas pela imaginação. A infinita combinação de cores na confecção das pipas. A 'ginga' na dança dos vôos, o efeito dos ‘soquinhos’ na arte do empinamento. Experimentávamos a estética táctil, pesando a linha na ponta dos dedos.

Raros ousavam praticar o arcano ofício de transformar sonhos em realidade. Somente os mais audazes enveredavam pelos prazeres da construção dos espíritos volantes. Primeiro era preciso encontrar um bambu bem seco, com gomos longos, livre de nós e buracos de roeduras. Depois esculpir as varetas amorosamente. Leves, arredondadas e bem lixadas, fortes o bastante para garantir os voos dos futuros dragões e fadas aladas.

Então vinha a parte mais difícil 
 somente para os iniciados, fazer milagres com linhas e bambus – construir as armações. Requeria a sabedoria de um engenheiro espacial e a destreza de um prestidigitador, o milagre da transubstanciação de bambu mais papel colado em maravilhas voadoras.

Alguns de nós, os guerreiros, os aventureiros,  prendiam lâminas de barbear nas pontas das pipas, e – antes do vandalismo comprado do Cerol – colavam, às vezes com o próprio  sangue, pó de vidro nas linhas. Preparando-se para os ensolarados dias de guerra.

O mundo tinha vãos, vieses e contornos misteriosas para estes aprendizes de adultos.



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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Soneto Estrambótico para Edward Hopper


SONETO ESTRAMBÓTICO PARA EDWARD HOPPER

Edward Hopper batizou este quadro de Nighthawks – aves, falcões, gaviões da noite – explicou que pretendia retratar predadores esperando pela presa. Deve ter havido alguma distorção ou desvio de comunicação, porque o que vemos é outra coisa. Quatro manequins silenciosos dentro de uma vitrine feericamente iluminada. Um garçom não muito sociável, um casal alheado, juntado pelo acaso, e um homem olhando para dentro de si mesmo. O quarteto inerte de solitários silentes, mergulhados em perplexidades e ruminando dúvidas representa o homem moderno, tema comum e reincidente em Hopper.

Porém, esta tela particularmente, virou ícone da incomunicabilidade do século XX, foi e é revisitada por todas as mito-franquias americanas. Talvez este soneto estrambótico, em prosa, ajude a entender melhor o assunto.

um 
Com a expansão da urbanização, provocada pela eclosão da Revolução Industrial, as pessoas perderam suas referências milenares: a agricultura familiar, o trabalho em corporações profissionais e a convivência em comunidades estáveis. Tudo isso foi trocado pela intimidade forçada nos transportes coletivos, ruas apinhadas, apartamentos minúsculos ou cortiços, desagregação dos grupos familiares e tarefas segmentadas e alienantes. Aconteceu uma dolorida depuração do coletivo para produzir o individuo. No fim o ser humano isolado não tinha quaisquer parâmetros e paradigmas válidos e testados para se guiar. 
dois
 No principio do século passado, de repente, o homem se viu solto e livre, porém sem objetivos transcendentais, exceto ganhar dinheiro e consumir. Com as duas grandes guerras, o rearranjo das nações e a imigração em massa, esse sentimento de desconforto, deslocamento e contingência se agravou. Não adiantava tentar conversar com os outros, todos estavam igualmente perdidos, sofriam do mesmo mal indizível e sem cura. Cada indivíduo experimentava na alma a angústia de Kierkegaard – que é a aflição que a liberdade provoca; a náusea de Sartre – que é a cobrança íntima para encontrar um sentido para a vida; o absurdo de Camus – onde o único problema relevante é o suicídio. As pessoas mais sensíveis passavam a vida caladas e ensimesmadas, olhando para o vazio, sem saber o que dizer e como viver. Ninguém gostava de conversar sobre essas feridas incuráveis. Quase 80% dos livros e filmes ‘cabeça’ dos anos 60/70 falam sobre isso. 
três 
O rock‘n’roll, os hippies e as drogas romperam este impasse de desassossego pessoal. Talvez 1968 seja o marco de mudança de mentalidade. Mais ou menos, enquanto viajava para a Lua, o homem começou a aceitar e se acostumar com sua liberdade individual; procurou reinventar a integração com outros seres livres e diferentes. Aconteceram experimentos como os grandes festivais (Monterrey, Woodstock), as comunidades de convivência hippie (uma volta ao passado?) e as estrondosas turnês das bandas de rock. A Música, a Arte era o novo código, tudo se transformou em mega-evento para atrair e congregar as pessoas. Virar fã passou a ser uma forma de construir uma identidade pessoal, um modo de pertencer a um grupo, um jeito de interagir com outras pessoas.
quatro
Então inventaram o micro computador, que inaugurou um novo ciclo de isolamento, agora defronte as telas. Curiosamente, o principal evangelizador do ‘graal’ eletrônico foi um adepto da filosofia hippie: Steve Jobs. Os indivíduos não tinham mais problemas de comunicação, falavam até demais, porem interagiam com avatares e amigos virtuais. Com o avanço da telefonia móvel tornou-se possível uma ousadia impensável: a solidão individual compartilhada, porque plugada. Podia-se estar 24 horas conectado, falando com alguém, se comunicando com o mundo, contudo sem conviver com ninguém. É preciso, urgentemente, lançar o Nighthawks II, versão com novo sistema de comunicação. Nele as pessoas estariam com um celular teclando doidamente, quem sabe com seus vizinhos de bar.
 Verso estrambote 
“O Twitter não é mais do que a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até ao grunhido.”
José Saramago

sexta-feira, 15 de junho de 2018

MURALHAS DE S. PAULO


Porque S. Paulo foi fundada exatamente no topo da colina do Pátio do Colégio?


Harnâni Donato, Jorge Caldeira, Roberto Pompeu de Toledo e outros autores sugerem algumas razões combinadas:

(a) O Pátio e os Piques (Ladeira da Memória) eram pontos obrigatórios de paragem da milenar Trilha do Peabiru, que dava acesso às minas de prata andinas, grande desejo de Portugal.
(b) A Colina do Pátio era o melhor ponto de espera, observação e controle, antes de descer e depois de subir o Caminho do Mar.
c) Oferecia uma conformação topológica privilegiada, com facilidade de defesa e farto acesso a água, parecia uma península.
Foi uma boa decisão, até hoje ainda é o principal nó da ligação entre o litoral e o vasto interior da América do Sul. O acerto da escolha está confirmado pelos frequentes ataques dos índios durante o período colonial. Tantas que exigiu a construção de defesas e muralhas para proteger a esquisita vila 'alienígena' no alto da serra.

O livro
‘Pateo do Collegio – Coração de São Paulo’, de Hernâni Donato é ilustrado por uma coleção de croquis que mostram a peculiar topologia da cidade. Explica como foi, progressivamente, a ocupação do território a partir do triangulo formado pelos conventos e mosteiros seiscentistas. São mapas muito interessantes que nunca encontrei no Google, somente aparecem no livro citado, com o alerta de que NÃO podem ser digitalizados.

Um deles, do ano de 1556, mostra uma longa muralha ou linha de defesa (talvez apenas uma cerca indígena) desde o Tamanduateí até o Anhangabaú ('rio onde o diabo lava a cara' em algumas traduções tupi/português).


Pode ser proibido escanear os mapas, mas fazer uma transposição deles para os mapas do Google não quebra regras

Duas questões curiosas sobressaem: a extensão das defesas, 1200 metros (medição do Google, considerando as várias retificações sofridas pelo Tamanduateí) e a rapidez da construção 
– 1556  dois anos após a fundação,


A peculiar topologia de S. Paulo, segundo gravura do Debret.





sexta-feira, 8 de junho de 2018

CORROSÃO (Ricardo Labuto Gondim)


Acabei de ler ‘CORROSÃO’ do meu amigo Ricardo Labuto Gondim, de quem sou fã. É uma delícia e um murro na mente. Passei dois dias pensando numa metáfora para falar da estratégia narrativa do livro, encontrei: ‘veladura’. 

Técnica de pintura a óleo, aprimorada por Leonardo da Vince, em que a imagem é construída através da aplicação de camadas sucessivas de tinta. Porém uma não se sobrepõe à outra, todas permanecem sempre visíveis e têm algo a dizer. O resultado é o ‘sfumato’. Nunca jamais podemos afirmar que conhecemos um quadro desses, porque à cada olhar, com o tempo, a tela se modifica. Por isso somos apaixonadas pelas mulheres de Ticiano e a Monalisa nos fascina. Permanecem perenemente novas e surpreendentes.

O tema evidente de ‘
CORROSÃO’ é uma nave estelar viajando para os confins do sistema solar, que, nas proximidades de Júpiter, encontra uma singularidade, e dentro dela os destroços do Titanic. Sabia disto antes de ler, foi este anzol inusitado que me fisgou. Contudo, como Monalisa não é apenas o retrato de uma donna, o triller também não é só esta extravagância, vai muito mais além. E aí está o fascínio e o perigo do livro. Uma invulgar imagem fractal plotada por veladura, quase uma incongruência cognitiva. 

Enumerando camadas (as de consegui perceber, pode haver outras). As fascinantes naves mineradores da saga
Alien Capitão Ahab e a caça de Moby Dick’ transportada para o espaço inteplanetário. A tensão na ponte da nave remete às variadas séries do universo Star Trek. A compulsão para aceitar o desafio das trevas lembra Conrad e Apocalise Now. As citações de músicas clássicas (e o nome do Capitão) sugerem uma trilha sonora de placidez pulsante. Tudo isso dialogando com o tentacular mito do naufrágio do Titanic (uma nova Torre de Babel?) que, depois de tantas interpretações e retomadas, tende para a perpétua incerteza quântica  quanto mais estudado menos entendido.


Contudo, é importante frisar, o empilhamento de camadas não é gratuito, todas são imprescindíveis, melhoram, modificam, esclarecem e complicam o jogo proposto pelo Ricardo Gondim. Na verdade foi o viés indecidível e vário da história que me encantou. Um livro que nunca acaba, porque nunca se fecha, cada um pode escolher a solução que quiser (e mudar se preciso), só depende do holograma em que está vivendo.

Por exemplo, meu livro ainda esta aberto, duas coisa me inquietam: (a) será que Emma emana de Anna? consoantes replicadas são suspeitas; (b) porque Daniel Martinu quando lembra do Rio pensa em Jazz, não em Bossa Nova?


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Conversando com Holbein Menezes


Mestre Holbein Menezes  nosso decano de 95 anos  é um rio largo, caudaloso e sinuoso que atravessa a História da Audiofia. Às vezes plácido e complacente, às vezes atribulado em entreveros, corredeiras e cachoeiras. Já visitou todos os quadrantes e relevos do mapa da arte de ouvir música com aparelhos de qualidade. Na avaliação dos equipamentos e componentes suas águas são ácidas, porém refrescantes no acolhimento de novidades técnicas e recém chegados adictos deste hobby sutil e exigente. 

Em 25/maio/2018 estive em Fortaleza e gravei 30 minutos de conversa com o mais longevo  praticante brasileiro (e do mundo?) de 'Audiofilia: Ciência, Paixão e Mania' (nome do meu livro de contos sobre as idiossincrasias dos adeptos do hobby). É imprescindível registrar suas palavras, porque esteve omnipresente nos momentos mais críticos da nossa área de atenção. Entre outras coisas participou ativamente da criação e edição da revista ‘
Áudio e Vídeo Magazine’, durante muito tempo a principal publicação do segmento. Junto com Fernando Andrette ajudou a consolidar a prática e a vocabulário do hobby nas terras brasílicas. Até hoje escreve para a Revista ‘Áudio e Cinema em Casa’, a mais importante publicação da Audiofilia portuguesa.

Na mais recente entrevista (com a resiliência do Mestre nunca se pode dizer última) o decano informou que se iniciou na mania em 1948. A maioria de nós ainda não havia sequer nascido. Portanto são 70 anos, sete redondas décadas ouvindo música gravada e conversando com audiófilos de todos os campos, segmentos e lugares. Alguns dos interlocutores acabaram por se tornar famosas marcas mundiais: Marantz, Garrard etc.

Por tese a Audiofilia nasceu em 1894, quando a Berliner Gramophone (leia mais) e outras empresas começaram a vender discos com músicas gravadas separados dos gramofones, apostando no entretenimento. Então a exclusivista Companhia Edson entrou em declínio e a Audiofilia iniciou sua lenta caminhada. Porque, para o nosso hobby sutil, os equipamentos e as mídias são igualmente importantes. Mestre Holbein perdeu apenas a era dos dos gramofones, debutou em 1948, no pós guerra  numa época que todos buscavam qualidade, prazer e conforto – quando os equipamentos de reprodução acústicas foram abandonados e os discos pretos e as vitrolas elétricas decolaram. 

Para a edição e publicação do vídeo no Youtube achei mais conveniente dividir a conversa em três partes, centradas nos três principais tópicos abordados. Acredito que assim o acesso e entendimento será facilitado.

ENTREVISTA COM HOLBEIN MENEZES - PRIMEIRA PARTE (1/3)

ENTREVISTA COM HOLBEIN MENEZES - SEGUNDA PARTE (2/3)

ENTREVISTA COM HOLBEIN MENEZES - TERCEIRA PARTE (3/3)



segunda-feira, 28 de maio de 2018

A IMPRUDENTE LEVEZA DOS ASTROS


Os sentidos, nossas portas de percepção do mundo, têm superpoderes que ignoramos ou esquecemos. Marcel Proust falou da relação simpática entre o sabor e a memória; qualquer Stradivarius demonstra as minúcias que o ouvido alcança; o faro dos animais aponta para as possibilidades do olfato, contudo a complexa visão é o grande e mais corriqueiro presente da evolução animal.

Pela primeira vez tive a oportunidade de enxergar o céu por um telescópio de grande porte, aconteceu na
Seara da Ciência, da UFC - Universidade Federal do Ceara, numa visita guiada e monitorada pelo Prof. Ednardo Rodrigues. O introito sobre os sentidos foi uma homenagem aos fabulosos telescópios, talvez o construto humano que mais contribuiu para dissipar os mitos e expandir o conhecimento. Um salto incomensurável da Magia para a Ciência. Lembram-se do alerta de Arthur C. Clark?

Contemplar os astros, especialmente os planetas e satélites, é uma experiência limite e transcendental. Observar Júpiter 
 uma bola imensa, 318 vezes maior que a Terra – com sobranceira leveza flutuando no espaço é um abalo epistêmico. Todo mundo sabe tudo sobre o gigante solar, já viu fotos, conhece os dados, entretanto captar os raios de luz que  segundos antes  ‘tocou’ o próprio planeta gasoso é uma experiência cognitiva reveladora, percebemos a voragem em que estamos metidos, dói saber-se o flexível caniço de Pascal oscilando entre incomensuráveis magnitudes, máximas e mínimas.

Vendo as estrelas, e conversando com elas, ficamos com a incômoda sensação de que todo conhecimento acumulado até os dias de hoje está ainda muito mais perto da Magia do que da Ciência. No visor do telescópio, mesmo os mais potentes, continuamos a ver um ponto luminoso 
– ou pontos, se forem sistemas múltiplos como Acrux, a Estrela de Magalhães, na ponta do braço longo do Cruzeiro do Sul.


E tão pouco o que o telescópio nos oferece sobre as estrelas que persiste a dúvida. Será que a Astronomia não entendeu direito  ou interpretou errado  a mensagem dos Deuses?

terça-feira, 15 de maio de 2018

CAROLINA SILENCIADA


Anahí Paz está doutoranda na Universidade de Bristol, o tema da tese envolve alguma coisa esquisita que ela chama de ‘Demonologia Bíblica’. A trajetória da minha amiga é enviesada. Com 24 anos era uma bonita Analista de Sistemas de cabelos cor de mel é lábios túmidos, abandonou tudo para estudar História. No último fim de ano esteve no Brasil, já era uma jovem senhora. Os velhos informáticos promoveram um jantar de reencontro. Desde muito tempo, bem antes de ser pop – mas ela do que eu –  tínhamos interesses lovecraftianos. Lembrando deste velho laço brinquei com ela.

– Sua pesquisa ficaria mais bem encaixada na Universidade de Miskatonic."

– Acho que não rolaria, computadores não funcionam bem lá, os demônios de Lovecraft não são muito binários e nem o pessoal de Arkham é receptivo às mulheres.”

Havia outro viés que compartilhava com Anahí, ambos eramos leitores bissextos de Machado de Assis, resolvi expandir nossos pensamentos vadios.

“– São infinitas as maneiras de calar as mulheres, mesmo com carinho e amor. Veja Carolina Augusta Xavier de Novais, a mulher do Bruxo. Era lida e culta, eventualmente revisora e parceira. Consta que escreveu centenas de cartas, porém para um único destinatário: o marido. Antes de morrer nosso imortal ordenou e presidiu a queima de toda a correspondência entre os dois. Dele sobraram duas cartas simpáticas e gentis, dela nada, foi completamente emudecida.”

– Verdade? Era um tipo de maldade e prepotência que as pessoas cometiam e nem sequem percebiam. Interessante você falar disso, ignorava este silêncio imposto a ela. Uma amiga inglesa revisou um trabalho sobre Eça de Queiroz em Bristol. Pediu ajuda sobre o sentido de uma frase, mencionou que estava numa correspondência de Carolina Machado de Assis guardada na biblioteca da Universidade. Na hora quase não prestei atenção na remetente, mas se for verdade, então Carolina não foi completamente silenciada, sobrou uma carta dela.”   

Fiquei espantado, disse que gostaria de ler esta carta inaudita, mas sem esperança, eram conversas na mesa de um bar, prometidas e esquecidas. Seis meses depois, espantando,  recebi por e-mail um arquivo Word contendo a carta improvável.
“Faz tempo que estou com esta transcrição da carta de Carolina, antes de te enviar queria juntar mais informações sobre o documento, mas Ada, minha amiga revisora, mudou para os Estados Unidos e perdi qualquer contato com ela. Vai assim mesmo, Carolina, pelada de semântica.”

*****     *****     *****


Rio, 23 de setembro de 1879

José,

Escrevo-te para refutar-me. Prometi nunca mais procurar-te ou responder tuas missivas, porém o futuro é incerto e provocador, à medida que progride conduz-nos por veredas inusitadas. O destino levou-me ao casamento com Machado de Assis, por causa disso, outra vez, compartilhamos o mesmo embaraço: eu fazer um pedido, tu avaliare-lo e talvez nega-lo.

A polêmica sobre o “Primo Basílio” me não espantou, amadurecia como possibilidade. Apesar de andares vagando pelo mundo e Machado viver pacatamente na cidade do Rio de Janeiro, de muitas maneiras permaneciam adversários e revessos. Romantismo contra Realismo foi à forma eleita para se digladiarem.

Apreciei bastante o viés magnânimo de tua carta de junho passado comentando o artigo d“O Cruzeiro” sobre o “Primo Basílio”. A admiração aumentou com a generosidade de te colocares à disposição, depois de leres todos os folhetins publicados, para uma discussão acerca dos princípios da Escola Realista. O que não conseguiste conter foi a corrosiva ironia inseparável de tua pessoa.

Machado repassou repetidas vezes as ponderações que apresentaste, sabe-as de cor. Se não as respondeu publicamente foi por prudência, timidez e tédio à controvérsia. Deves calcular o quanto esta confrontação transoceânica de dois estimados escritores transformou-se em questão candente, pública e coletiva. Penas demais intervieram na contenda. Qualquer debate pelas revistas e jornais decairia depressa em alarido e balburdia, sem regra ou norma. A outra via – a correspondência pessoal e discreta – seria impraticável, meu marido não conseguiria manter a conversa dentro dos amenos limites da Literatura.

Perdoe-me o introito longo, vou enfim apresentar-te minha demanda. Soube pelo meu irmão Miguel e pelo povo da Condessa de São Mamede que estás redigindo uma longa e detalhada réplica aos artigos d”O Cruzeiro”; que intentas publica-la como prólogo à segunda edição d”O Crime do Padre Amaro”. Atrevo-me a recomendar-te paciência e cautela.

Desde 78, depois da publicação de “Iaiá Garcia”, Machado vem atravessando largo período de meditação, navegando nos mares de Flaubert. Lê, relê, grifa e toma notas – especialmente “Madame Bovary” – sem contudo jamais cita-lo em quaisquer dos seus escritos. O próximo romance será muito diferente do anterior, surpreendente, avançará para quase além do Realismo.

Neste novo cenário temo que teu prefácio projetado possa ficar deslocado e dissonante; ou incitar celeumas desastradas. É impossível antecipar como reagirá o humor de cada um de vocês. Prevejo confrontações incandescentes, incontroláveis e desnecessárias ou silêncios irados e multiplicadores de rancores. Em qualquer dos casos me sofrerei e a História de ambos ficará maculada.

Espero que te inclines para o mais conveniente para todos.


De tua amiga,

Carolina Augusta Xavier de Novais Machado de Assis


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Túnel 9 de Julho e Raios Cósmicos


Uma das mais espertas e prevenidas iniciativas dos paulistas, depois da derrota na Revolução de 32, foi a criação da USP em 1934, afinal perderam espaço nas grandes instituições nacionais.
Foi um salto quântico no ensino superior brasileiro. Especialmente a FFCL – Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras que permitiu o diálogo entre os saberes. Quando organizaram os novos departamentos recolheram o que havia de mais promissor na Europa e América do Norte, em indivíduos, modelos administrativos e ideias. Para a Cátedra de Física importaram de Turin o professor ítalo-russo Gleb Wataghin, indicado por Enrico Fermi (Nobel de 1938), que trouxe consigo Giuseppe Occhialini, ambos interessados em Raios Cósmicos.

Talvez por sorte, acaso ou capricho das equações do Caos estas escolhas fortuitas, porém certeiras, depressa colocaram o Departamento de Física da FFCL-USP no mapa da pesquisa mundial de Raios Cósmicos e inscreveram o Túnel 9 de Julho na História da Física.


Entre os primeiros e espantados estudantes cooptados pela Física da USP estavam Marcello Damy e Paulus Aulus Pompeia, oriundos da Engenharia, que coordenados por Wataghin e Occhialini começaram e pesquisar os ‘chuveiros extensos’. Fenômeno que acontece quando os Raios Cósmicos (partículas aceleradas provenientes do espaço exterior) se chocam com átomos da atmosfera. A colisão e a fissão dos átomos criam uma enormidade de sub-partículas. A questão dos pioneiros paulistas era medir até que profundidade elas chegavam. (N.1) 

Para isso se aproveitaram da conveniência e feliz coincidência  do Túnel 9 de Julho estar sendo cavado naquele momento, e o utilizaram para provar que os 
‘chuveiros extensos’ podiam alcançar grandes profundidades e conseguiam atravessar espessas camadas de rochas. A obra foi inaugurada em 39, em 1940 a Física da USP já era ativa participante das discussões mundiais neste campo de estudos, publicando artigos nas grandes revistas técnicas mundiais mencionando o experimento no túnel paulistano. 

Wataghin, Occhialini, Marcello Damy e Paulus Aulus Pompeia atualmente são personalidades da História da Física Brasileira e os Raios Cósmicos – que têm imbricações até com a Teoria da Relatividade de Einstein – nos levaram a César Lattes, aos mésons pi e quase ao prêmio Nobel. Contudo, é preciso registrar e consignar que foram nos recém cavados túneis, debaixo da Avenida Paulista, que aconteceram os primeiros testes que ajudaram a documentar os
‘chuveiros extensos profundos’.

Assim, é sempre bom relembrar que se homenzinhos verdes nos atacarem, armados de pistolas de Raios Cósmicos, não adianta fugir para os Tuneis da 9 de Julho. Certamente lá não é um lugar seguro.

 (N.1) 
Rogério Rosenfield
- O cerne da matéria: A aventura científica que levou à descoberta do bóson de Higgs
   Companhia das Letras

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Kubrick, Co-autor de Danúbio Azul


O filme
‘2001: A Space Odyssey’ completou 51 anos de lançamento, um dos destaques daquela obra divisória foi sua inquietante e inesperada trilha sonora. Talvez nem todos os fãs tenham se apercebido, porém, lá pelos 19:45 minutos, num lance de xadrez pensando por Hal 9000, Kubrick subsume a co-autoria da valsa ‘Danúbio Azul’, anteriormente de Johann Strauss II. Reinventa todos os vetores da música e a relança como um tema para os novos tempos espaciais e cósmicos.

A sequência da apropriação da estação espacial é longa e primorosamente coreografada, dura 5:37 minutos e acontece logo depois do mais famoso ‘match cut’ da História do Cinema. O osso que se transforma em nave. Assim, a mais ousada e abrangente transição temporal jamais concebida serve de insólito introito e veículo para a melodia recomposta por Kubrick. Desde então ressignificada e transfigurada é a preferida para ilustrar astros e artefatos em movimento pelo espaço.


Com Johann Strauss II ‘Danúbio’ Azul’ era uma valsa agitada e sincopada, romântica e majestosa, trepidante, rápida, em crescendo, de tirar o folego. Concebida para o rodopio de elegantes casais em grandes salões de pisos de madeira ou mármore com rosáceas desenhadas. Imperial e clássica. 

Com Kubrick se transforma numa melodia sideral, lenta, atemporal. O melhor e mais adequado acompanhamento para o eterno e infinito bailado dos astros, naves, galáxias, artefatos e até lixo celeste. O som perfeito para traduzir o silêncio e o mistério interestelar.

Depois de ‘2001’, ao ouvir o tema
‘Danúbio Azul’, qualquer pessoa do mundo – exceto os austríacos que o consideram hino afetivo de sua nação – pensa em Kubrick, viagens espaciais e no ritmo da rigorosa mecânica celeste.

Curiosamente, a estreia mundial do
‘Danúbio Azul’ de Johann Strauss II ocorreu 101 anos antes do lançamento do filme ‘2001’, no carnaval de 15 de fevereiro de 1867. Não me espantaria se Stanley Kubrick, que era meio compulsivo, soubesse disso e, em algum momento, tenha imaginado homenagem o centenário da primeira versão da valsa de que se tornaria parceiro.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Bolinhas de Gude e Sistema Solar


Antes de entrar na escola primária, aos sete anos, já jogava bolinha de gude. Naqueles tempos, de vizinhança amistosa e ruas de terra, era impossível evitar ou ignorar os ciclos das brincadeiras infantis: colecionar maços de cigarro e figurinhas, empinar pipas, rodar pião e jogar muito bolinha de gude. Foi através desta brincadeira, quando a professora começou a explicar o Sistema Solar, que ocorreu meu estalo cognitivo.

Dona Ana Maria (tive três ‘tias’ chamadas Ana Maria, foi uma delas) para ilustrar a matéria pendurou imagens dos 
nove planetas e da Lua pela sala. Nos tempos pre-internéticos – de mais leituras e menos figuras – a única referência possível para compreender aquela nova maravilha, esferas imensas girando solenes e eternamente pelo espaço, eram as bolinhas de gude. Daí se estabeleceu para sempre, na minha cabeça, a correlação entre os astros e as 'bulicas'. 

Desde então, do meu balde de bolinhas, de cada nova compra, de toda ‘biloca’ ganha nos jogos de rua, passei a separar aquelas que mais se pareciam com planetas. Tinha sub-coleções de uranos, netunos, jupiteres, martes... Todos os nove mais a Lua. Não deviam ser muito fiéis porque as comparações eram feitas de poucas imagens, muita memória e imensa imaginação. 


Quando descobria nas coleções dos outros garotos alguma ‘bolita’ planetária especial oferecia trocas insanas, três, cinco, sete, dez por aquele tesouro. Os amigos conheciam minha fraqueza e a exploravam impiedosamente. Por uma bolinha de gesso escuro, velha e esburacada que – aos meus olhos – parecia a Lua paguei 17 ‘berlindes’ comuns.

Como fã de gibis de aventuras espaciais – Flash Gordon, Buck Rogers – passava o ano inteiro curtindo o meu sistema solar pessoal e aguardando, ansioso, o começo do 'tempo'  das bolinhas de gude. Aquelas tardes infinitas guardadas nas nossas lembranças de infância em que os jogos só terminavam quando faltava luz do sol. Era o tempo propício para jogar, negociar e aumentar minha coleção extraplanetária.

No meu bairro as principais modalidades do jogo eram circulo, triângulo, estrela, boques e ‘palmo e seca’. Contudo, consultando o Google sobre ‘jogos de bolinhas de gude’ constata-se que a controvérsia é imensa, conturbada e indecidida. Entre as muitas alternativas mencionadas, apenas três alcançam algum consenso – circulo (dos gibis da Turma da Mônica), triângulo e estrela – apesar de sempre comportarem regras divergentes, nomes regionais e inumeráveis variantes. Talvez só seja possível estabelecer regras comuns dentro do mesmo bairro, vila ou rua.

Antes de encerrar estas reminiscências sobre as ‘balebas’ é importante registrar que existe um hiato nas minhas lembranças que muito me inquieta. Apesar das memórias serem, sempre, e cada vez mais, enganadoras e falazes, não me recordo de meninas participando dos nossos jogos de ‘búraca’. O problema é que as minhas amigas coetâneas garantem que eram exímias praticantes do jogo de bolinhas de gude. Todas reivindicam serem muito melhores do que os atrapalhados meninos. Das três uma: ou elas estão mentindo, ou estão me enganando, ou o problema e mais grave, vivo numa extravagante realidade paralela.


Sinônimos de 'bolinha de gude', segundo a Wikipédia:
berlinde, burca, burquinha, baleba, bila, biloca, bilosca, biroca, birosca,
bolita, boleba, bugalho, bulica, burica, cabeçulinha (pronunciada ‘cabiçulinha’),
carolo, clica, fubeca, guelas, peca (pronunciada ‘pêca’), peteca, pilica, pinica,
quilica, tilica e ximbra.



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quinta-feira, 12 de abril de 2018

RELENDO A HISTÓRIA – IMAGENS


O filme ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’ de Eduardo Escorel se estende por 3 horas e 47 minutos. É longo, detalhado, abrangente, em geral precisa de duas sessões para ser apreciado confortavelmente. Contudo vale a pena, algumas das imagens exibidas fervem de novidade, apesar de todo mundo já ter lido sobre elas – como a inopinada queima pública e cívica das bandeiras dos estados brasileiros. O documentário cobre o trânsito completo de Getúlio pelo firmamento brasileiro.

Eduardo Escoriel já está inscrito entre nossos mestres do passado e paradigmas do futuro. Seu filme
‘Lição de Amor’, de 1975, sobre uma novela de Mario de Andrade, é uma obra prima plena de ritmo, interesse, concisão e sugestões. Seu portfólio de trabalhos, mostra que é omnipresente na cena do cinema brasileiro recente. Sobretudo e quietamente é um genial montador.

Por causa da dispersão e escassez de fontes a produção do documentário (
que durou 12 anos) sobre e meteoro Getúlio, muitos deles gastos na coleta de material em acervos brasileiros e estrangeiros (Estados Unidos e Alemanha principalmente), oficiais e particulares. Com tempo e esforço a pesquisa resultou numa conjunto espantoso de imagens, repleto de fotos e filmes inéditos, inesperados e inusitados. Tudo magistralmente editado. Como previsto a versão final veio para mudar, expandir e elucidar o fenômeno do Estado Novo. 

Essa vasta coleção de imagens se nos impõe reflexões. É impressionante e desconcertante, desmistificadora e relevadora. Todo mundo conhece a saga, trajetória e tragédia de Getúlio, mas, vê-las fotografadas e filmadas em arquivos pessoais e documentários oficiais “verdadeiros” amplifica nosso entendimento da História.


Roland Barthes ensina que toda foto (e fotograma) carrega consigo sua semiótica, contudo e acima disso, se constitui, sempre, num pedaço de história real capturada, o noema 'está-lá' ou 'isto aconteceu'.  Portanto, no material utilizado estão patenteadas e registradas duas coisas: (1) a noticia e as imagens do fato como acorreu e (2) a encenação ou adaptação deles pelos ‘produtores de conteúdo’ envolvidos na época.

É exatamente a evidencia deste descolamento revelador, capturado pelas fotos que nos permite constatar e analisar que ‘há distancia entre intenção e gesto’, e saber quando o samba tropical desafinava.


Estávamos desde muito acostumados com recorrentes e variadas teses, versões e revisões da História. Entretanto, com a eclosão das redes sócias, cada vez mais, vamos aprendendo a 'ler' melhor as fotografias. Rapidamente os 'textões' estão sendo substituídos por imagens variadas e emojis imediatos, devassando tudo. Hoje temos mais treinamento para apreciar e decodificar trabalhos como este que privilegiam registros de fotos e filmes.

Neste termos as ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’, estão sincronizadas com o futuro.  

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1


A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, segundo andar, esquina com a Praça da Sé, pensava que a cidade fosse um imenso carrossel, porque todas as coisas giravam defronte sua janela. Para participar dos grandes momentos da História Paulista bastava ir até a calçada. Tudo acontecia lá. Nos dias mais quietos, quando a festa amainava, podia andar de velocípede, levar a boneca para passear, brincar de roda ou pique-esconde, usando como base e esconderijos os magníficos postes paulistanos de iluminação (entre os mais belos do mundo).


‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ quem sabe possua pés sambistas, porque durante os anos 40/50 um dos solos sagrados do samba paulista era no seu quintal. Os engraxates da praça, nas horas vadias, improvisavam rodas de samba batucando nas caixas e latas de graxa. Germano Mathias era mestre, Toniquinho Batuqueiro e Carlão do Peruche conheciam as manhas. No fundo do coração da garotinha ainda deve vibrar acordes sinuosos desses improvisos sambistas que o tempo levou, mas a memória guardou.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ achava que o Edifício Rolim, exibindo-se garboso e altivo na transversal de suas janelas, era seu gigante guardião amigo. O perfil agudo dos terraços e torreta, adornados com requintes e graças catalãs, funcionava como um ponteiro de relógio de sol. Sua sombra precisa e majestosa demarcava todo o percurso do dia. Era um 'hit', conforme anúncio no Estadão, em julho de 1930, os ‘advogados, médicos, engenheiros, dentistas e corretores [...] descontentes ou mal situados’ estavam convidados a conhecer as magnificas instalações do novo empreendimento. Projeto do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol, o mesmo do Centro Cultural Banco do Brasil. Quem sabe um dia se torne um point visitável, como o Palácio Barolo de Buenos Aires.

A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ garante que o prediozinho onde morava também tem uma história bonita e digna. Sem ser famoso ou badalado se constitui num registro valioso da paisagem e modus vivendi da classe media paulista na virada do século XIX. Devia ser acarinhado, estudado e preservado.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ leu a bíblia do patrimônio histórico (Bens Culturais Arquitetônicos no Município e na Região Metropolitana de São Paulo) e me contou que se trata de um “edifício contemporâneo aos que Ramos de Azevedo construiu no Pátio do Colégio em 1887, quando aquele espaço urbano foi remodelado, distinguindo-se muito da antiga Praça da Sé, que lhe ficava contígua. Ostenta em sua cimalha a data de 1888 e, pelos pormenores da modenatura, especialmente no que diz respeito à ornamentação em relevo das janelas, conclui-se que o edifício seja igualmente obra do escritório daquele icônico arquiteto paulista. Estava ocupado, no início do século, pela loja de móveis 'Ao Grande Oriente', fundada em 1889; presume-se que o edifício tenha sido projetado especialmente para ela."


‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, como gosta de História, sabe que S. Paulo entre 1890 e 1960 cresceu quase 70 vezes. De sua janela assistiu os efervescentes festejos do Quarto Centenário, com direito à fantástica chuva de papel picado prateado. Foi o apogeu da corrida da cidade para se tornar a maior megalópole do hemisfério sul. Depois de 1954 – o ponto de flexão da cidade – quando comparamos fotos antigas percebemos que continuamos crescendo (ou inchando), contudo, mais por inércia e descontrole do que por impulso e planejamento. Nossas paisagens, o próprio complexo Praça da Sé / Pátio do Colégio, lembram cada vez mais cenários Blade Runner.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, talvez como Roy Batty – o replicante dúbio do filme, que salva o herói no final – poderia dizer: “Eu vi coisas em que as pessoas não acreditariam” (n1). Vi intrépidos equilibristas balançando sobre a Praça da Sé em cabos de aço traiçoeiros. O choro na Copa de 50 e a exultação na de 58. A inauguração da Catedral de cúpula e torres verde malva. Discursos e manifestações políticas, cívicas e religiosas de todos partidos, tradições e confissões. E muitas coisas mais que muito extravasam das palavras.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ certamente é um dos poucos paulistanos que dividiu com os Jesuítas o endereço nobre e histórico: 'logradouro Pátio do Colégio´, por isso publica – com pleno direito – o Blog PAULISTANA DE CARTEIRINHA  clique  onde relata lembranças, causos e histórias que viveu ou ouviu de sua família, moradora daquela casa extraordinária. Seu Blog sabe que as memórias são efêmeras, "momentos [que] serão perdidos no tempo, como lagrimas na chuva" (n1). Por isso é preciso divulga-las e registra-las. 



(n1) 
Trechos do discuso 'Lágrimas na Chuva' , fala final do Replicante Roy Batty no filme 'Blade Runner, O Caçador de Androides' , de 1982.



Gostaria muito de agradecer à SUELY PIEDADE SANTOS – ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ – pela inspiração e luxuosa ajuda que possibilitaram esta crônica.




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

'Le Horla' - O Monstro que Veio de S. Paulo


O Horla (Le Horla) é um conto de terror escrito em 1886 pelo francês Guy de Maupassant, considerado um dos maiores contistas da Literatura Ocidental. Também é apontado como uma das principais fontes do Horror Cósmico e do Movimento Weird, gênero que mistura Terror, Fantasia e Ficção Científica. Influenciou H.P.Lovecraft, Stephen King, o Universo Alien e varias legiões de monstros.

Uma curiosa e macabra honraria. O autor informa que ‘Le Horla’ – o terrível monstro do conto  teve origem na Província de S. Paulo por volta de 1850.

"E aqui está, meus senhores, para acabar, um pedaço de jornal que me chegou às mãos e que vem do Rio de Janeiro. Eu leio: “Uma espécie de epidemia de loucura parece grassar há algum tempo na província de S. Paulo. Os habitantes de várias aldeias fugiram, abandonando terras e casas e pretendendo-se perseguidos e comidos por vampiros invisíveis que se alimentam de sua respiração enquanto dormem e que, além disso, só beberiam água e às vezes leite!”

O Horla Guy de Maupassant (primeira versão – 26/12/1886)

O estrupício nebuloso, depois de grassar e submeter os paulistas, chegou à França através de uma galera brasileira que, festiva, navegava pelo Rio Sena.

"Ah! Ah! lembro-me, lembro-me da bela galera brasileira que passou debaixo das minhas janelas, subindo o Sena, no dia 8 do passado Maio! Achei-o tão bonito, tão branco, tão alegre! O ser vinha nele [sic passim], vindo de lá, onde a sua raça nascera! E viu-me! Viu a minha casa também branca; e saltou do navio para a margem. Oh! Meu Deus?"

O Horla – Guy de Maupassant (segunda versão – 1887)

Bom! Contando o epistolário jesuíta, não é a primeira vez que atribuem à Cidade de S. Paulo a origem de todos os males.

Intrigado com ‘Le Horla’, este nosso antepassado sampaulista, escrevi um conto imaginando as aventuras do monstro na garoa e neblina da cidade de S. Paulo, populada pelos estudantes de Direito e bem no meio do Movimento abolicionista.

Quem tiver interesse o conto está sendo publicado na revista 'Diário Macabro n. 4', veja site:
https://www.facebook.com/groups/2167394793577904/?fref=nf





sábado, 24 de fevereiro de 2018

Blade Runner 2049 - A Morte e a Morte de Joi


Blade Runner 2049 não recebeu indicação para o Oscar, mas foi o melhor filme do ano. Talvez competindo com Dunkirk, sobretudo por causa do sofisticado andamento jazzístico – de três tempos descompassados  premeditado por Nolan.

Nenhum outro lançamento foi tão visionário, contundente e atual. Nenhum competidor apresentou tantas indagações e questionamentos sobre nosso incerto futuro, compartilhado e dependente de gadgets. Com os aplicativos extrapolando dos aparelhos e invadindo as ruas e o cotidiano. Nenhum discutiu melhor as alternativas, limites e potencialidades da humanidade.

Visualmente ousado, inovou sobre a arquitetura cyberpunk, decadente, escura, pessimista e disruptiva do BR-19, inspirada nos Filmes Noir. Mostrou o futuro como uma rota de fuga enganosa, corroída e sobrecarregada de erros, lixos e excessos do passado.

Horrível. Arrastado. Genial. Repetitivo. Longo demais. Melhor que o anterior. Todas avaliações são possíveis. Contudo, como não se maravilhar e estarrecer com os subúrbios de Los Angeles, geométricos, fractais e vazios? Replicantes avariados e homens decaídos empilhados em favelas hi-techs? Não se espantar com Las Vegas pós-apocalíptica e deserta, com abelhas guardando escombros da memorabilia americana? Um mundo surtado, alucinado e disfuncional. Além da previsível surpresa de transformar a sensual Rachael na madona de uma nova raça?

Sempre é bom relembrar que BR-49 é uma continuação. Sequências enfrentam problemas, os mesmos das montagens de óperas. Precisam inovar e explorar as possibilidades do tema e do enredo, sem trair demais a música e o livreto. A analogia seria melhor se tivessem reutilizado a trilha original de Vangelis, numa releitura quem sabe.

BR-49 levou cinco estrelas, contou uma história parônima de BR-19. Um caso de amor avassalado por uma investigação com interesses divergentes, conflitos, violências e perigos – como é clichê nos Filmes Noir – reprisando uma paixão entre duas entidades ontologicamente diferentes. As tramas têm similaridades, contudo as tessituras são distintas. Villeneuve é mais espesso e intrincado do que Scott. Em 2019 o emprenho de Deckard é contido pela meta padrão dos detetives: cumprir a missão e ter sossego. Em 2049 o impulso de ‘K’ é a jornada do herói, desvendar sua origem e mudar o mundo.

Entretanto, como BR-2049 é uma sequência, porta o vírus do Filme Noir: gira em torno da femme fatale. Assim, Joi, a omnipresente e cambiante Joi, a aplicativo-heroína da saga, hiper emanada pelas ruas, outdoors luminosos, avatares gigantes e lares tristes, é a personagem mais inspirada do filme, vale a pena acompanha-la em close-up.

As aproximações com Her são inadequadas e desavisadas, o filme de Jonze trata do amor impossível com uma entidade inescrutável, não de uma parceira ou relação capaz de redimir (ou consumir) o homem.

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A comparação entre Rachael e Joi comporta muitas estranhezas. A replicante de ‘olhos verdes’ ( Clique ) era única, idealizada como humana perfeita, a dúvida que persistia era se tinha alma ou não. A holograma, ao contrário, não tem corpo, é um aplicativo ultra multiplicado, produzido em série e distribuído para a Terra e outros nove mundos – aparentemente – com o mesmo rosto, funções e características. As questões propostas para a femme fatale tremeluzente são, ao menos, duas. Seria possível amar uma especial entre tantas iguais? A Joi-holograma pode  se rebelar e evoluir? 

Na primeira aparição de Joi é como a ‘Siri’, intrometida, inoportuna, brincando de casinha, dando informações desnecessárias e fazendo sugestões atrapalhadas. Capaz de variar roupas e penteados sem alterar o rosto. Então ganha de presente do ‘K’ replicante o ‘emanador’. Upgrade contido num controle que permite a ela escapar do apartamento, se materializar e acompanhar o namorado em qualquer lugar. Então experimenta a chuva – a recorrente metáfora da saga Blade Runner – e as coisas começam a mudar.

Na participação seguinte, quando ‘K’ descobre os filhos de Rachael, parece que Joi já sabe muito sobre ele. Porque, através do ‘emanador’, pode ouvi-lo e observa-lo o tempo todo, mesmo pausada. Durante a cena de fusão se comporta como uma companheira cúmplice, interessada e ciumenta. ‘Não prefere a sua chefe?’ Comenta que é apenas um aplicativo, simples e binario, feita de ‘1 e 0’s, porém ‘K’, por causa das memorias envolvendo um cavalinho de madeira, pode ser especial, filho unigênito da replicante grávida, nascido de um ventre, um milagre.

Segundo as premissas da Inteligência Artificial, uma entidade é ‘senciente’ quando demonstra consciência, intenções e sentimentos. Todo o discurso de Joi reforçando as arriscadas esperanças do namorado sugere (talvez por se sentir amada) que ela tenha ‘senciência’. Resta a questão: natural e espontânea ou atribuída e programada?

Em outra sequência, no fim do segundo segmento do filme, Joi, lindíssima, com um vestido oriental (homenagem a Meggie Cheung do filme ‘Amor à Flor a Pele’ de Kar-way Wong) recebe Mariette, a prostituta replicante, contratada para ajudar, através do truque da ‘incorporação’, ela e ‘K’ experimentarem a sensação de sexo real.

As falas de Mariette são buracos de minhoca no roteiro, relevam coisas e ligações. Num trecho anterior, quando ouve a som do ‘emanador’ (Pedro e o Lobo de Prokofiev) comenta: ‘Você não gosta de mulheres reais’. Talvez ai – Joi pausada, porém alerta – tenha tido a ideia do ‘ménage à trois’. Depois do encontro com Joi/‘K’, ao partir, Mariette provoca Joi. ‘Eu já estive dentro de você. Não há tanto aí como você pensa’.

No bloco final, na busca por Deckard, Joi, para evitar que suas memorias prejudiquem o parceiro, pede ao namorado para apaga-la da rede/nuvem e baixa-la no ‘emanador’. Mesmo sabendo que, se o ‘controle’ for destruído, ela morrerá. ‘Sim. Como uma garota de verdade’. É um ‘spoiler’, porque Joi é morta pisoteada por Luv, a replicante vilã. Suas últimas palavras, correndo em direção a ‘K’, são intrigantes: ‘Eu te amo’. 

Abre parênteses. O melhor meio de esconder o fundo romântico – que muitos julgam inevitável em qualquer obra de arte – é com discursos racionais. Mesmo em laboratórios extraterrestres Wallace não descobriria porque Raquel engravidou e Joi ganhou consciência. Talvez só o amor explique. Fecha parênteses.

Como ela própria disse, Joi é um conjunto de comandos, uma longa sequência de zeros e uns. Passível de ser baixada da rede/nuvem para um equipamento. Feito uma foto comprometedora, que depois de transitar pela Web, é impossível ter certeza absoluta que já foi apagada. Sempre pode sobrar uma cópia dela em algum lugar inesperado.

Uma boa aposta seria Mariette, que na transa em três colocou um sinalizador no do bolso de ‘K’, o que permite resgatá-lo depois do encontro com Luv. Joi, ou uma versão antiga de Joi, pode subsistir dentro do cérebro replicante de Mariette, que já teve a ‘femne fatale’ dentro dela e sabe que a aplicativo ‘não é tanto quanto pensa que é’.

O filme – exceto pela cintilante reaparição de Rachael – poderia acabar aqui, poque a outra morte de Joi acontecerá na continuação, em dois mil e alguma coisa.


Outros textos sobre Blade Runner 

O Caçador de Androides, o Quarto Chinês e o Teste de Turing