segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A Bússola e as Pipas


Por volta dos 5 anos, porque estava doente, o garoto Einstein, para se distrair, ganhou uma bússola de bolso do seu pai. Ficou extasiado com o fantástico poder do ponteiro magnético, não importava em que posição estivesse o brinquedo, a agulha sempre apontava para o norte. As portas da percepção, as asas da imaginação do futuro gênio se escancararam, compreendeu que para além do visível e do palpável existiam inúmeras outras forças ocultas que comandavam o universo.

Imagino que os garotos e garotas até os anos 70, quando começavam a empinar pipas, passavam por um maravilhamento semelhante. Novidades como o poder do vento, a mágica função do rabo do papagaio no equilíbrio do vôo, a força e tensão da linha no limite da precário da resistência, perto rompimento. Tudo era susto, desvelamento e deslumbramento.

Devem ter surgido daí nossas grandes questões infanto-transcendentais. Porque alguns dias venta e outros não? Porque a direção muda de repente? Porque não temos asas? Compartilhávamos perplexos do estalo de Einstein, o entendimento de que o mundo é mais, é muito mais, repleto de mistérios profundos, alguns deles, ainda, irrevelados.

Havia também a beleza das pandorgas voando nos céus, as formas variadas, quadrado, losango, hexágono, estrela, maranhão, peixinho e outras inesperadas. sugeridas pela imaginação. A infinita combinação de cores na confecção das pipas. A 'ginga' na dança dos vôos, efeito dos ‘soquinhos’ na aprendidos na arte do empinamento. Experimentávamos a estética táctil, pesando a linha na ponta dos dedos.

Raros ousavam praticar o arcano ofício de transformar sonhos em realidade, somente os mais audazes enveredavam pelos prazeres da construção dos espíritos volantes. Primeiro era preciso encontrar um bambu bem seco, com gomos longos, livre de nós e buracos de roeduras. Depois esculpir as varetas amorosamente. Leves, arredondadas e bem lixadas, fortes o bastante para garantir os voos dos futuros dragões e fadas aladas.

Então vinha a parte mais difícil 
 somente para os iniciados, fazer milagres com linhas e bambus – construir as armações. Requeria a sabedoria de um engenheiro espacial e a destreza de um malabarista de circo, o milagre da transubstanciação de bambu mais papel colado em coisa voadora.

Alguns de nós, os guerreiros, os aventureiros,  prendiam lâminas de barbear nas pontas das pipas, e – antes do vandalismo comprado do Cerol – colavam, às vezes com o práprio  sangue, pó de vidro nas linhas. Preparando-se para os infinitos dias de guerra.

O mundo tinha vãos, vieses e contornos misteriosas para estes adultos precoces.



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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Soneto Estrambótico para Edward Hopper


SONETO ESTRAMBÓTICO PARA EDWARD HOPPER

Edward Hopper batizou este quadro de Nighthawks – aves, falcões, gaviões da noite – explicou que pretendia retratar predadores esperando pela presa. Deve ter havido alguma distorção ou desvio de comunicação, porque o que vemos é outra coisa. Quatro manequins silenciosos dentro de uma vitrine feericamente iluminada. Um garçom não muito sociável, um casal alheado, juntado pelo acaso, e um homem olhando para dentro de si mesmo. O quarteto inerte de solitários silentes, mergulhados em perplexidades e ruminando dúvidas representa o homem moderno, tema comum e reincidente em Hopper.

Porém, esta tela particularmente, virou ícone da incomunicabilidade do século XX, foi e é revisitada por todas as mito-franquias americanas. Talvez este soneto estrambótico, em prosa, ajude a entender melhor o assunto.

um 
Com a expansão da urbanização, provocada pela eclosão da Revolução Industrial, as pessoas perderam suas referências milenares: a agricultura familiar, o trabalho em corporações profissionais e a convivência em comunidades estáveis. Tudo isso foi trocado pela intimidade forçada nos transportes coletivos, ruas apinhadas, apartamentos minúsculos ou cortiços, desagregação dos grupos familiares e tarefas segmentadas e alienantes. Aconteceu uma dolorida depuração do coletivo para produzir o individuo. No fim o ser humano isolado não tinha quaisquer parâmetros e paradigmas válidos e testados para se guiar. 
dois
 No principio do século passado, de repente, o homem se viu solto e livre, porém sem objetivos transcendentais, exceto ganhar dinheiro e consumir. Com as duas grandes guerras, o rearranjo das nações e a imigração em massa, esse sentimento de desconforto, deslocamento e contingência se agravou. Não adiantava tentar conversar com os outros, todos estavam igualmente perdidos, sofriam do mesmo mal indizível e sem cura. Cada indivíduo experimentava na alma a angústia de Kierkegaard – que é a aflição que a liberdade provoca; a náusea de Sartre – que é a cobrança íntima para encontrar um sentido para a vida; o absurdo de Camus – onde o único problema relevante é o suicídio. As pessoas mais sensíveis passavam a vida caladas e ensimesmadas, olhando para o vazio, sem saber o que dizer e como viver. Ninguém gostava de conversar sobre essas feridas incuráveis. Quase 80% dos livros e filmes ‘cabeça’ dos anos 60/70 falam sobre isso. 
três 
O rock‘n’roll, os hippies e as drogas romperam este impasse de desassossego pessoal. Talvez 1968 seja o marco de mudança de mentalidade. Mais ou menos, enquanto viajava para a Lua, o homem começou a aceitar e se acostumar com sua liberdade individual; procurou reinventar a integração com outros seres livres e diferentes. Aconteceram experimentos como os grandes festivais (Monterrey, Woodstock), as comunidades de convivência hippie (uma volta ao passado?) e as estrondosas turnês das bandas de rock. A Música, a Arte era o novo código, tudo se transformou em mega-evento para atrair e congregar as pessoas. Virar fã passou a ser uma forma de construir uma identidade pessoal, um modo de pertencer a um grupo, um jeito de interagir com outras pessoas.
quatro
Então inventaram o micro computador, que inaugurou um novo ciclo de isolamento, agora defronte as telas. Curiosamente, o principal evangelizador do ‘graal’ eletrônico foi um adepto da filosofia hippie: Steve Jobs. Os indivíduos não tinham mais problemas de comunicação, falavam até demais, porem interagiam com avatares e amigos virtuais. Com o avanço da telefonia móvel tornou-se possível uma ousadia impensável: a solidão individual compartilhada, porque plugada. Podia-se estar 24 horas conectado, falando com alguém, se comunicando com o mundo, contudo sem conviver com ninguém. É preciso, urgentemente, lançar o Nighthawks II, versão com novo sistema de comunicação. Nele as pessoas estariam com um celular teclando doidamente, quem sabe com seus vizinhos de bar.
 Verso estrambote 
“O Twitter não é mais do que a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até ao grunhido.”
José Saramago

sexta-feira, 15 de junho de 2018

MURALHAS DE S. PAULO


Porque S. Paulo foi fundada exatamente na colina do Pátio do Colégio?


Harnâni Donato, Jorge Caldeira, Roberto Pompeu de Toledo e outros autores sugerem algumas razões combinadas:

(a) O Pátio e os Piques (Ladeira da Memória) eram pontos obrigatórios de paragem da milenar Trilha do Peabiru, que dava acesso às minas de prata andinas, grande desejo de Portugal.
(b) A Colina do Pátio era o melhor ponto de espera, observação e controle, antes de descer e depois de subir o Caminho do Mar.
c) Oferecia uma conformação topológica privilegiada, com facilidade de defesa e farto acesso a água, parecia uma península.
Foi uma boa decisão, até hoje ainda é o principal nó da ligação entre o litoral e o vasto interior da América do Sul. A escolha acertada está confirmada pelos frequentes ataques dos índios durante o período colonial. Tantas que exigiu a construção de defesas e muralhas para proteger a esquisita vila do alto da serra.

O livro
‘Pateo do Collegio – Coração de São Paulo’, de Hernâni Donato é ilustrado por uma coleção de croquis que mostram a peculiar topologia da cidade. E como foi, progressivamente, a ocupação do território a partir do triangulo dos conventos e mosteiros. São mapas muito interessantes que nunca encontrei no Google e o que livro avisa que não  podem ser ser digitalizados.

Um deles, do ano deles, de 1556, mostra uma longa muralha ou linha de defesa (talvez apenas uma cerca indígena) desde o Tamanduateí até o Anhangabaú ('rio onde o diabo lava a cara' em algumas traduções). É proibido publica-lo, mas não fazer uma transposição dele para os mapas do Google.

Duas questões curiosas: a extensão das defesas, 1200 metros (medição do Google, considerando as retificações do Tamanduateí) e a rapidez da construção, 1556, dois anos após a fundação.


A peculiar topologia de S. Paulo, segundo gravura do Debret.





sexta-feira, 8 de junho de 2018

CORROSÃO (Ricardo Labuto Gondim)


Acabei de ler ‘CORROSÃO’ do meu amigo Ricardo Labuto Gondim, de quem sou fã. É uma delícia e um murro na mente. Passei dois dias pensando numa metáfora para falar da estratégia narrativa do livro, encontrei: ‘veladura’. 

Técnica de pintura a óleo, aprimorada por Leonardo da Vince, em que a imagem é construída através da aplicação de camadas sucessivas de tinta. Porém uma não se sobrepõe à outra, todas permanecem sempre visíveis e têm algo a dizer. O resultado é o ‘sfumato’. Nunca jamais podemos afirmar que conhecemos um quadro desses, porque à cada olhar, com o tempo, a tela se modifica. Por isso somos apaixonadas pelas mulheres de Ticiano e a Monalisa nos fascina. Permanecem perenemente novas e surpreendentes.

O tema evidente de ‘
CORROSÃO’ é uma nave estelar viajando para os confins do sistema solar, que, nas proximidades de Júpiter, encontra uma singularidade, e dentro dela os destroços do Titanic. Sabia disto antes de ler, foi este anzol inusitado que me fisgou. Contudo, como Monalisa não é apenas o retrato de uma donna, o triller também não é só esta extravagância, vai muito mais além. E aí está o fascínio e o perigo do livro. Uma invulgar imagem fractal plotada por veladura, quase uma incongruência cognitiva. 

Enumerando camadas (as de consegui perceber, pode haver outras). As fascinantes naves mineradores da saga
Alien Capitão Ahab e a caça de Moby Dick’ transportada para o espaço inteplanetário. A tensão na ponte da nave remete às variadas séries do universo Star Trek. A compulsão para aceitar o desafio das trevas lembra Conrad e Apocalise Now. As citações de músicas clássicas (e o nome do Capitão) sugerem uma trilha sonora de placidez pulsante. Tudo isso dialogando com o tentacular mito do naufrágio do Titanic (uma nova Torre de Babel?) que, depois de tantas interpretações e retomadas, tende para a perpétua incerteza quântica  quanto mais estudado menos entendido.


Contudo, é importante frisar, o empilhamento de camadas não é gratuito, todas são imprescindíveis, melhoram, modificam, esclarecem e complicam o jogo proposto pelo Ricardo Gondim. Na verdade foi o viés indecidível e vário da história que me encantou. Um livro que nunca acaba, porque nunca se fecha, cada um pode escolher a solução que quiser (e mudar se preciso), só depende do holograma em que está vivendo.

Por exemplo, meu livro ainda esta aberto, duas coisa me inquietam: (a) será que Emma emana de Anna? consoantes replicadas são suspeitas; (b) porque Daniel Martinu quando lembra do Rio pensa em Jazz, não em Bossa Nova?


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Conversando com Holbein Menezes


Mestre Holbein Menezes  nosso decano de 95 anos  é um rio largo, caudaloso e sinuoso que atravessa a História da Audiofia. Às vezes plácido e complacente, às vezes atribulado em entreveros, corredeiras e cachoeiras. Já visitou todos os quadrantes e relevos do mapa da arte de ouvir música com aparelhos de qualidade. Na avaliação dos equipamentos e componentes suas águas são ácidas, porém refrescantes no acolhimento de novidades técnicas e recém chegados adictos deste hobby sutil e exigente. 

Em 25/maio/2018 estive em Fortaleza e gravei 30 minutos de conversa com o mais longevo  praticante brasileiro (e do mundo?) de 'Audiofilia: Ciência, Paixão e Mania' (nome do meu livro de contos sobre as idiossincrasias dos adeptos do hobby). É imprescindível registrar suas palavras, porque esteve omnipresente nos momentos mais críticos da nossa área de atenção. Entre outras coisas participou ativamente da criação e edição da revista ‘
Áudio e Vídeo Magazine’, durante muito tempo a principal publicação do segmento. Junto com Fernando Andrette ajudou a consolidar a prática e a vocabulário do hobby nas terras brasílicas. Até hoje escreve para a Revista ‘Áudio e Cinema em Casa’, a mais importante publicação da Audiofilia portuguesa.

Na mais recente entrevista (com a resiliência do Mestre nunca se pode dizer última) o decano informou que se iniciou na mania em 1948. A maioria de nós ainda não havia sequer nascido. Portanto são 70 anos, sete redondas décadas ouvindo música gravada e conversando com audiófilos de todos os campos, segmentos e lugares. Alguns dos interlocutores acabaram por se tornar famosas marcas mundiais: Marantz, Garrard etc.

Por tese a Audiofilia nasceu em 1894, quando a Berliner Gramophone (leia mais) e outras empresas começaram a vender discos com músicas gravadas separados dos gramofones, apostando no entretenimento. Então a exclusivista Companhia Edson entrou em declínio e a Audiofilia iniciou sua lenta caminhada. Porque, para o nosso hobby sutil, os equipamentos e as mídias são igualmente importantes. Mestre Holbein perdeu apenas a era dos dos gramofones, debutou em 1948, no pós guerra  numa época que todos buscavam qualidade, prazer e conforto – quando os equipamentos de reprodução acústicas foram abandonados e os discos pretos e as vitrolas elétricas decolaram. 

Para a edição e publicação do vídeo no Youtube achei mais conveniente dividir a conversa em três partes, centradas nos três principais tópicos abordados. Acredito que assim o acesso e entendimento será facilitado.

ENTREVISTA COM HOLBEIN MENEZES - PRIMEIRA PARTE (1/3)

ENTREVISTA COM HOLBEIN MENEZES - SEGUNDA PARTE (2/3)

ENTREVISTA COM HOLBEIN MENEZES - TERCEIRA PARTE (3/3)



segunda-feira, 28 de maio de 2018

A IMPRUDENTE LEVEZA DOS ASTROS


Os sentidos, nossas portas de percepção do mundo, têm superpoderes que ignoramos ou esquecemos. Marcel Proust falou da relação simpática entre o sabor e a memória; qualquer Stradivarius demonstra as minúcias que o ouvido alcança; o faro dos animais aponta para as possibilidades do olfato, contudo a complexa visão é o grande e mais corriqueiro presente da evolução animal.

Pela primeira vez tive a oportunidade de enxergar o céu por um telescópio de grande porte, aconteceu na
Seara da Ciência, da UFC - Universidade Federal do Ceara, numa visita guiada e monitorada pelo Prof. Ednardo Rodrigues. O introito sobre os sentidos foi uma homenagem aos fabulosos telescópios, talvez o construto humano que mais contribuiu para dissipar os mitos e expandir o conhecimento. Um salto incomensurável da Magia para a Ciência. Lembram-se do alerta de Arthur C. Clark?

Contemplar os astros, especialmente os planetas e satélites, é uma experiência limite e transcendental. Observar Júpiter 
 uma bola imensa, 318 vezes maior que a Terra – com sobranceira leveza flutuando no espaço é um abalo epistêmico. Todo mundo sabe tudo sobre o gigante solar, já viu fotos, conhece os dados, entretanto captar os raios de luz que  segundos antes  ‘tocou’ o próprio planeta gasoso é uma experiência cognitiva reveladora, percebemos a voragem em que estamos metidos, dói saber-se o flexível caniço de Pascal oscilando entre incomensuráveis magnitudes, máximas e mínimas.

Vendo as estrelas, e conversando com elas, ficamos com a incômoda sensação de que todo conhecimento acumulado até os dias de hoje está ainda muito mais perto da Magia do que da Ciência. No visor do telescópio, mesmo os mais potentes, continuamos a ver um ponto luminoso 
– ou pontos, se forem sistemas múltiplos como Acrux, a Estrela de Magalhães, na ponta do braço longo do Cruzeiro do Sul.


E tão pouco o que o telescópio nos oferece sobre as estrelas que persiste a dúvida. Será que a Astronomia não entendeu direito  ou interpretou errado  a mensagem dos Deuses?

terça-feira, 15 de maio de 2018

CAROLINA SILENCIADA


Anahí Paz está doutoranda na Universidade de Bristol, o tema da tese envolve alguma coisa esquisita que ela chama de ‘Demonologia Bíblica’. A trajetória da moça bonita de cabelos cor de mel é enviesada, com 24 anos era Analista de Sistemas, abandonou tudo para estudar História. No último fim de ano, quando esteve no Brasil já era uma jovem senhora. Os velhos informáticos promoveram um jantar de reencontro. Desde muito tempo ela e eu tínhamos interesses lovecraftianos, brinquei que sua pesquisa ficaria mais bem encaixada na Universidade de Miskatonic.

– Acho que não rolaria, computadores não funcionam bem lá, os demônios de Lovecraft não são muito católicos e nem o pessoal de Arkham é receptivo às mulheres.”

Lembrei que, como eu, Anahí era leitora bissexta de Machado de Assis, resolvi expandir nossos pensamentos vadios.

“– São infinitas as maneiras de calar as mulheres, mesmo com carinho e amor. Veja Carolina Augusta Xavier de Novais, a mulher do Bruxo. Era lida e culta, eventualmente revisora e parceira. Consta que escreveu centenas de cartas, porém para um único destinatário: o marido. Antes de morrer nosso imortal ordenou e presidiu a queima de toda a correspondência entre os dois. Dele sobraram duas cartas simpáticas e gentis, dela nada, foi completamente emudecida.”

– Verdade? Era um tipo de maldade e prepotência que as pessoas cometiam e nem sequem percebiam. Interessante você falar disso, ignorava este silêncio imposto a ela. Uma amiga inglesa revisou um trabalho sobre Eça de Queiroz em Bristol. Pediu ajuda sobre o sentido de uma frase, mencionou que estava numa correspondência de Carolina Machado de Assis guardada na biblioteca da Universidade. Na hora quase não prestei atenção na remetente, mas se for verdade, então Carolina não foi completamente silenciada, sobrou uma carta dela.”   

Fiquei espantado, disse que gostaria de ler esta carta inaudita, mas sem esperança, eram conversas na mesa de um bar, prometidas e esquecidas. Seis meses depois, espantando,  recebi por e-mail um arquivo Word contendo a carta improvável.
“Faz tempo que estou com esta transcrição da carta de Carolina, antes de te enviar queria juntar mais informações sobre o documento, mas Ada, minha amiga revisora, mudou para os Estados Unidos e perdi qualquer contato com ela. Vai assim mesmo, Carolina, pelada de semântica.”

*****     *****     *****


Rio, 23 de setembro de 1879

José,

Escrevo-te para refutar-me. Prometi nunca mais procurar-te ou responder tuas missivas, porém o futuro é incerto e provocador, à medida que progride conduz-nos por veredas inusitadas. O destino levou-me ao casamento com Machado de Assis, por causa disso, outra vez, compartilhamos o mesmo embaraço: eu fazer um pedido, tu avaliare-lo e talvez nega-lo.

A polêmica sobre o “Primo Basílio” me não espantou, amadurecia como possibilidade. Apesar de andares vagando pelo mundo e Machado viver pacatamente na cidade do Rio de Janeiro, de muitas maneiras permaneciam adversários e revessos. Romantismo contra Realismo foi à forma eleita para se digladiarem.

Apreciei bastante o viés magnânimo de tua carta de junho passado comentando o artigo d“O Cruzeiro” sobre o “Primo Basílio”. A admiração aumentou com a generosidade de te colocares à disposição, depois de leres todos os folhetins publicados, para uma discussão acerca dos princípios da Escola Realista. O que não conseguiste conter foi a corrosiva ironia inseparável de tua pessoa.

Machado repassou repetidas vezes as ponderações que apresentaste, sabe-as de cor. Se não as respondeu publicamente foi por prudência, timidez e tédio à controvérsia. Deves calcular o quanto esta confrontação transoceânica de dois estimados escritores transformou-se em questão candente, pública e coletiva. Penas demais intervieram na contenda. Qualquer debate pelas revistas e jornais decairia depressa em alarido e balburdia, sem regra ou norma. A outra via – a correspondência pessoal e discreta – seria impraticável, meu marido não conseguiria manter a conversa dentro dos amenos limites da Literatura.

Perdoe-me o introito longo, vou enfim apresentar-te minha demanda. Soube pelo meu irmão Miguel e pelo povo da Condessa de São Mamede que estás redigindo uma longa e detalhada réplica aos artigos d”O Cruzeiro”; que intentas publica-la como prólogo à segunda edição d”O Crime do Padre Amaro”. Atrevo-me a recomendar-te paciência e cautela.

Desde 78, depois da publicação de “Iaiá Garcia”, Machado vem atravessando largo período de meditação, navegando nos mares de Flaubert. Lê, relê, grifa e toma notas – especialmente “Madame Bovary” – sem contudo jamais cita-lo em quaisquer dos seus escritos. O próximo romance será muito diferente do anterior, surpreendente, avançará para quase além do Realismo.

Neste novo cenário temo que teu prefácio projetado possa ficar deslocado e dissonante; ou incitar celeumas desastradas. É impossível antecipar como reagirá o humor de cada um de vocês. Prevejo confrontações incandescentes, incontroláveis e desnecessárias ou silêncios irados e multiplicadores de rancores. Em qualquer dos casos me sofrerei e a História de ambos ficará maculada.

Espero que te inclines para o mais conveniente para todos.


De tua amiga,

Carolina Augusta Xavier de Novais Machado de Assis


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Túnel 9 de Julho e Raios Cósmicos


Uma das mais espertas e prevenidas iniciativas dos paulistas, depois da derrota na Revolução de 32, foi a criação da USP em 34. Um salto quântico no ensino superior brasileiro. Especialmente a FFCL – Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras que permitiu o diálogo entre os saberes. Quando organizou os novos departamentos recolheu o que havia de mais promissor na Europa e América do Norte, em indivíduos, modelos e ideias. Para a Cátedra de Física importou de Turin o professor ítalo-russo Gleb Wataghin, indicado por Enrico Fermi (Nobel de 1938), que trouxe consigo Giuseppe Occhialini, ambos interessados em Raios Cósmicos.

Talvez por sorte, acaso ou capricho das equações do Caos estas escolhas fortuitas depressa colocaram o Departamento de Física da FFCL-USP no mapa da pesquisa mundial de Raios Cósmicos e cravaram o Túnel 9 de Julho na História da Física.


Entre os primeiros espantados estudantes, cooptados pela Física da USP, estavam Marcello Damy e Paulus Aulus Pompeia, oriundos da Engenharia, que coordenados por Wataghin e Occhialini começaram e pesquisar os ‘chuveiros extensos’. Fenômeno que acontece quando os Raios Cósmicos (partículas aceleradas provenientes do espaço exterior) se chocam com átomos da atmosfera. A colisão e a fissão dos átomos criam uma enormidade de sub-partículas. A questão dos pioneiros paulistas era medir até que profundidade elas chegavam. (N.1) 

Para isso se aproveitaram da conveniência do Túnel 9 de Julho estar sendo aberto naquele momento e o utilizaram para provar que os 
‘chuveiros extensos’ podiam alcançar grandes profundidades e conseguiam atravessar espessas camadas de rochas. A obra foi inaugurada em 39, em 1940 a Física da USP já era ativa participante das discussões mundiais neste campo de estudos, publicando artigos nas grandes revistas técnicas mundiais mencionando o experimento no Túnel paulistano. 

Wataghin, Occhialini, Marcello Damy e Paulus Aulus Pompeia atualmente são personalidades da História da Física Brasileira e os Raios Cósmicos – que têm imbricações até com a Teoria da Relatividade de Einstein – nos levaram a César Lattes, aos mésons pi e quase ao prêmio Nobel. Contudo, é preciso registrar e consignar que foram nos recém cavados túneis, debaixo da Avenida Paulista, que aconteceram os primeiros testes que conseguiram documentar os
‘chuveiros extensos profundos’.

Assim, é sempre bom relembrar que se homenzinhos verdes nos atacarem, armados de pistolas de Raios Cósmicos, não adianta fugir para os Tuneis da 9 de Julho. Certamente lá não é um lugar seguro.

 (N.1) 
Rogério Rosenfield
- O cerne da matéria: A aventura científica que levou à descoberta do bóson de Higgs
   Companhia das Letras

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Kubrick, Co-autor de Danúbio Azul


O filme
‘2001: A Space Odyssey’ completou 51 anos de lançamento, um dos destaques daquela obra divisória foi sua inquietante e inesperada trilha sonora. Talvez nem todos os fãs tenham se apercebido, porém, lá pelos 19:45 minutos, num lance de xadrez pensando por Hal 9000, Kubrick subsume a co-autoria da valsa ‘Danúbio Azul’, anteriormente de Johann Strauss II. Reinventa todos os vetores da música e a relança como um tema para os novos tempos espaciais e cósmicos.

A sequência da apropriação da estação espacial é longa e primorosamente coreografada, dura 5:37 minutos e acontece logo depois do mais famoso ‘match cut’ da História do Cinema. O osso que se transforma em nave. Assim, a mais ousada e abrangente transição temporal jamais concebida serve de insólito introito e veículo para a melodia recomposta por Kubrick. Desde então ressignificada e transfigurada é a preferida para ilustrar astros e artefatos em movimento pelo espaço.


Com Johann Strauss II ‘Danúbio’ Azul’ era uma valsa agitada e sincopada, romântica e majestosa, trepidante, rápida, em crescendo, de tirar o folego. Concebida para o rodopio de elegantes casais em grandes salões de pisos de madeira ou mármore com rosáceas desenhadas. Imperial e clássica. 

Com Kubrick se transforma numa melodia sideral, lenta, atemporal. O melhor e mais adequado acompanhamento para o eterno e infinito bailado dos astros, naves, galáxias, artefatos e até lixo celeste. O som perfeito para traduzir o silêncio e o mistério interestelar.

Depois de ‘2001’, ao ouvir o tema
‘Danúbio Azul’, qualquer pessoa do mundo – exceto os austríacos que o consideram hino afetivo de sua nação – pensa em Kubrick, viagens espaciais e no ritmo da rigorosa mecânica celeste.

Curiosamente, a estreia mundial do
‘Danúbio Azul’ de Johann Strauss II ocorreu 101 anos antes do lançamento do filme ‘2001’, no carnaval de 15 de fevereiro de 1867. Não me espantaria se Stanley Kubrick, que era meio compulsivo, soubesse disso e, em algum momento, tenha imaginado homenagem o centenário da primeira versão da valsa de que se tornaria parceiro.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Bolinhas de Gude e Sistema Solar


Antes de entrar na escola primária, aos sete anos, já jogava bolinha de gude. Naqueles tempos, de vizinhança amistosa e ruas de terra, era impossível evitar ou ignorar os ciclos das brincadeiras infantis: colecionar figurinhas e maços de cigarro, empinar pipas, rodar pião e jogar bolinha de gude. Foi através desta brincadeira, quando a professora começou a explicar o Sistema Solar, que ocorreu meu estalo cognitivo.

Dona Ana Maria (tive três ‘tias’ chamadas Ana Maria, foi uma delas) para ilustrar a matéria pendurou imagens dos 
nove planetas e da Lua pela sala. Nos tempos pre-internéticos – de mais leituras e menos figuras – a única referência possível para compreender aquela nova maravilha, esferas imensas girando solenes e eternamente pelo espaço, eram as bolinhas de gude. Daí se estabeleceu para sempre, na minha cabeça, a correlação entre os astros e as 'bulicas'. 

Desde então, do meu balde de bolinhas, de cada nova compra, de toda ‘biloca’ ganha nos jogos de rua, passei a separar aquelas que mais se pareciam com planetas. Tinha sub-coleções de uranos, netunos, jupiteres, martes... Todos os nove mais a Lua. Não deviam ser muito fiéis porque as comparações eram feitas de poucas imagens e muita memória. 


Quando descobria nas coleções dos outros garotos alguma ‘bolita’ planetária especial oferecia trocas insanas, três, cinco, sete, dez por aquele tesouro. Os amigos conheciam minha fraqueza e a exploravam impiedosamente. Por uma bolinha de gesso escuro, velha e esburacada que – aos meus olhos – parecia a Lua paguei 17 ‘berlindes’ comuns.

Como fã de gibis de aventuras espaciais – Flash Gordon, Buck Rogers – passava o ano inteiro curtindo o meu sistema solar pessoal e aguardando, ansioso, o começo do 'tempo'  das bolinhas de gude. Aquelas tardes infinitas guardadas nas nossas lembranças de infância em que os jogos só terminavam quando faltava luz do sol. Era o tempo propício para jogar, negociar e aumentar minha coleção extraplanetária.

No meu bairro as principais modalidades do jogo eram circulo, triângulo, estrela, boques e ‘palmo e seca’. Contudo, consultando o Google sobre ‘jogos de bolinhas de gude’ constata-se que a controvérsia é imensa, conturbada e indecidida. Entre as muitas alternativas mencionadas, apenas três alcançam algum consenso – circulo (dos gibis da Turma da Mônica), triângulo e estrela – apesar de sempre comportarem regras divergentes, nomes regionais e inumeráveis variantes. Talvez só seja possível estabelecer regras comuns dentro do mesmo bairro, vila ou rua.

Antes de encerrar estas reminiscências sobre as ‘balebas’ é importante registrar que existe um hiato nas minhas lembranças que muito me inquieta. Apesar das memórias serem, sempre, e cada vez mais, enganadoras e falazes, não me recordo de meninas participando dos nossos jogos de ‘búraca’. O problema é que as minhas amigas coetâneas garantem que eram exímias praticantes do jogo de bolinhas de gude. Todas reivindicam serem muito melhores do que os atrapalhados meninos. Das três uma: ou elas estão mentindo, ou estão me enganando, ou o problema e mais grave, vivo numa extravagante realidade paralela.


Sinônimos de 'bolinha de gude', segundo a Wikipédia:
berlinde, burca, burquinha, baleba, bila, biloca, bilosca, biroca, birosca,
bolita, boleba, bugalho, bulica, burica, cabeçulinha (pronunciada ‘cabiçulinha’),
carolo, clica, fubeca, guelas, peca (pronunciada ‘pêca’), peteca, pilica, pinica,
quilica, tilica e ximbra.



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sábado, 14 de abril de 2018

CONVERSAS TRANSVERSAS


[...]
São Paulo – 07 / Julho / 2019
||  Parceria Parônima com Paulo Bomfim  ||
Sou leitor de Paulo Bonfim e, às vezes, nas minhas caminhadas sigo seus passos nas crônicas desta 'Insólita Metrópole'. Converso com ele sobre as metamorfoses desta nossa paulicéia trepidante, louca e desvairada.
Suas poesias eram perfeitas, longamente pensadas, tinham o preciso peso e medida dos paulistas de antes dos anos cinquenta.

Como cronista tinge tudo de saudade, nos relembra de como era a cidade antes do gigantismo desenfreado.

Coimbra – 27 / set / 2015

Em Coimbra visitei a Quinta das Lágrimas, queria conversar com a Rainha em ossos coroada. Não encontrei a ‘linda Inês, posta em sossego’ de Camões, e, menos ainda, a inquieta ‘linda Inês, nunca em sossego’ de Jorge de Lima.
Resolvi aguarda-la na Fonte das Lágrimas que deságua no Mondego e nasceu do choro da Rainha executada. De repente eclodiu deslumbrante uma terceira manifestação dela, junto com um verso. ‘Estavas, ígnea Inês, envolta em chamas’. Por isso me ocorreu esta pergunta.

“– Rainha cambiante que viveu uma paixão que atravessa a morte. O amor verdadeiro é chama ou brasa?”
Antes de responder me olhou magicada, e o fogo da lembrança dela permanece dentro de mim.
 As labaredas se apagam e as brasas viram cinza. O verdadeiro amor é o calor que emana do coração e aquece a alma, porque, depois, o espírito fica pra sempre incandescente.”
Não se surpreendeu a amplitude da resposta, as musas sempre sussurram o impensável.

Wittenberg - Lutherstadt – 17 / set / 2017

Em Setembro de 2017 visitei Wittenberg / Lutherstadt, a cidade estava festiva, comemorava 500 anos das 95 teses contra as Indulgências que Martin Luther havia pregado na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, o inicio da Reforma Protestante.
Andando pela cidade passei pela casa de Johann Faust – Astrólogo e Alquimista. Como os tempos modernos andam conturbados resolvi consulta-lo. Tímido não se deixou fotografar. Anunciei minha encomenda.
“– Doktor Faust quero comprar um pouco de `Pó de Paciência’.”
“– Não mercadejo, não possuo temperamento sórdido. Posso apenas instruí-lo no preparo.”
Mesmo temente de nova repreensão ousei perguntar.
“– De quais elementos vou precisar?”
“– Quaisquer. Pode usar o que quiser. O único componente imprescindível é o Tempo. Precisa moer por 700 dias, prazo para suas ansiedades virarem poeira.
Agradeci, Herr Doktor não me acompanhou até a porta.


Aix-en-Provence – 29 / set / 2016

Muita vez Cezanne – teimoso, porém ainda não famoso – saia para caminhar, voltava com uma nova pintura do Mont Sainte-Victoire, juntou 60 telas. Numa das manhãs resolvi acompanha-lo, era difícil, marchava apressado.
Durante o percurso em aclive, sem fôlego, perguntei:
“– Porque pinta tanto o Sainte-Victoire?”
“– Não pinto a monte, pinto o Tempo. Me fascina, desafia e amedronta como ele transforma tudo, nós e a montanha.”
Fiquei calado, a dúvida havia se expandido epistemologicamente.
“– Gosto de olhar as telas pintadas para lembrar como eu era ontem. Para combater o Tempo todo dia invento um jeito novo de pintar.”
Aderi à inquietação do pintor, menos talentoso, comecei a colecionar fotografias.


Paris – 10 / out / 2016

Nas Catacumbas sob Paris me detive para conversar com os companheiros de viagem, não conhecia nenhum deles, mas sabia que tínhamos o mesmo destino.
Fiz a pergunta óbvia – é inescapável, nas conversas com grupos fazemos sempre as perguntas óbvias.
“– Como é a coisa na hora do salto?”
Responderam num coro dessincronizado.
“– Não dá para explicar, para cada um é diferente.”
Persisti, com outra pergunta óbvia.
“– E como são as coisas do outro lado?”
Responderam de novo em uníssono, agora mais afinados (o treito é tudo).
“– Não sabemos, ainda estamos no meio do salto. E talvez nunca acabe.”
Calei a boca, o silêncio ulula menos do que o obvio.


Córdoba – 19 / set / 2018

Em Córdoba procurei Moisés Maimônides para conversar, ele nasceu lá. Admiro demais o filosofo/teólogo/medico que no escuro Século XII elaborou a mais sábia síncrese - análise - síntese das culturas judia, árabe e greco-romana. Talvez seu único deslize seja a prepotência de sua frase tumular:
 – “De Moisés a Moisés [nome de Maimônides], nunca houve ninguém como Moisés." 
Me aproximei e perguntei: 
“– Mestre Maimônides, depois de quase 8 séculos não acha excessivamente vaidosa sua comparação”?
– Não, de jeito nenhum. Eu fiz a prova sozinho, Deus soprou para o meu xará.”
Fiquei perplexo. Ele continuou.
“– Pela sua cara já está pronto para ler meu mais famoso livro: Guia dos Perplexos".
Fui procurar uma livraria.


Amsterdan – 22 / set / 2014

Fui visitar Chet Baker onde acabou sua caminhada. 13/maio/1988, Prints Hendrik Hotel, Centro de Amisterdan. Jogou-se (ou foi jogado?) do segundo andar.
Um trompetista maior e um cantor extrínseco à arte do canto, suaves sussurros. O provável modelo de João Gilberto.
Igual a todo mundo queria perguntar sobre o ato final, mas me contive. Troquei de pergunta.

“– Posso ficar ouvindo você e a praça cantado 'My Funny Valentine'?
“– Ok, então vamos cantar a versão do disco ‘Sings’ de 1954.” 
Foram apenas 140 segundos, 2,20 minutos e uma voz temperada com tudo o que de bom e ruim pode um homem expressar e experimentar. Um controlado ímpeto em busca da beleza sutil.
Parti alguns segundos antes do fim para que sua (dele) voz permanecesse na minha memória para sempre.


Bixiga – 17 / jun / 2018

Adoniram e eu gostamos da S. Paulo de cachecol, e do italiano mais milanês, por isso preferimos nos esbarrar por aí no inverno.
Não me agrada o Adoniran mito, logomarca, tatuagem, de chapeuzinho de aba curta e olhar paralisado. Prefiro trombar com ele por aí paulistando, namorando a cidade. A última vez foi no viaduto Major Quedinho.
“– Olá Adoniram passei uma tarde linda, num bar ouvindo você e vendo o por do sol em Florença”.
“– Sei disso. É preciso ir cada vez mais longe para me ouvir”.
Implícito, concordei com ele.
“– ‘Porque as rádios não tocam meus sambas? Por quê? Algum crime que fiz?’ (do CD Documento Inédito)”.
“– Pois é Charutinho (conheci Adoniran com este nome), nem o ‘Arnesto’ 
 aquele que convida p´ro samba mas não espera – sabe explicar”.
Nos afastamos pensativos, cruzei com uma garota com um ‘Adoniram’ tatuado na bunda. Não evocava nada, era um signo descolado de significado, um enfeite copiado, feito um clip na alça da blusa.

Frankfurt – 4 / set / 2017

Herr Johann Wofgang von Goethe é ícone da cultura germânica e mundial. Sabe disso e gosta de se exibir. Plural habita a casa de Frankfurt – onde nasceu e cresceu – replicado em bustos e quadros. Escolhi o mais elegante para conversar.
“– Herr von Goethe por que os alemães tem compulsão pela aventura de Fausto?”
“– Acho que temos excesso de coração e razão, somos exagerados e desgovernados. Jamais conseguimos harmonizar os dois. Ouvimos demais o Diabo da desmedida dentro de nós, cultivamos uma alucinação racionalizada.”
Era muita coisa para processar no hiato inter falas, permaneci calado.
“– Ouvimos pouco nosso coração. Meu Fausto não aproveitou o perfume da sua Margarida. O Fausto de Thomas Mann ficou receoso com as cintilações da cigana Esmeralda.
Agradeço a Herr von Goethe por aceitar brincar de tartaruga comigo.



Florença – 29 / ago / 2018

Entrei no ‘Museo Galleria dell'Accademia di Firenze’ com destino certo: conversar com o David original, aquele tocado por Michelangelo.
Encontrei um garoto enorme, cinco metros de altura, vestindo apenas sua própria pele. Olhava o futuro com serenidade, curiosidade, confiança e, sobretudo, sem pressa. Nenhuma perplexidade alterava sua face.
“– Tenho um par de perguntas, posso?”
Ele balançou a cabeça, vagarosamente.
“– Nunca temeu o gigante Golias?”
“– Não. O próximo passo é inexorável, não depende mais de nós, é resultado do percurso que traçamos. Olhar para trás é retroceder, procurar erros impossíveis de serem corrigidos.”
A outra pergunta. “– Por que você fala e suas cópias não. E só falo com ‘davids’ do seu tamanho. São mudos?”
“– Durante o processo da talha, eu, meu criador e o pastorzinho antigo nos emaranhamos quanticamente. Hoje a pedra, o artista e o pastor hebreu são a mesma coisa, viramos uma singularidade cultural, um episódio mental, um evento da inteligência. Somos todos emanações do universo comum que compartilhamos.”
Silêncio.
“– As cópias são apenas replicações ocas das carências humanas. Volta ao passado.”

Buenos Aires – 27 / jan / 2016

Abaporu vai passar uma temporada no MASP, pretendo visita-lo. Lembro da nossa última conversa no MALBA, parecia muito bem instalado, era um dos destaques, mas estava triste e macambúzio. Conversamos em tons grises. Brinquei.
“– Porque esta perna não longa?”
“– Aquí sólo puedo hablar en español.”
Traduzi a pergunta.
“– ¿Por qué esta pierna tan ancha?
“– Para, cuando lo permitan, ir corriendo a Brasil.
“– ¿Por qué ese brazo tan robusto?
“– Para dar muchos abrazos a los brasileños que vienen a visitarme?
“– ¿Por qué esa cabecita tan pequeñita y triste?
“– Estoy aburrido y con nostalgia. Quiero volver a Brasil. Mis colores son para sambas, no para tangos.”

Ficamos em silêncio por muito tempo. Quando parti fiz sinal de positivo. Ele não respondeu, talvez porque lhe falte o polegar.


Bonn / Alemanha – 07 / set / 2017


Na casa de Beethoven em Bonn tivemos uma conversa telepática, porque ele é surdo e não é recomendável gritar dentro de museus.
“– Mestre, quando ouço a Terceira Sinfonia imagino o Allegro da abertura como um rodamoinho descontrolado passeando pela História.”
“– Não é a pior imagem, porque quase sempre é um idiota que segura as rédeas da História. Por isso tive que mudar o nome dela."
O silencio telepático do Ludwig era em adagio lento, feito a Canção Lídia do Quarteto 132.
“– Na nossa vida também nem sempre é a melhor parte de nós que está no comando.”
Depois disso ficou mudo, como a pedra de que era feito.


Leipzig / Alemanha – 19 / set / 2017

Ontem  ouvindo Bach no Festival de Inauguração do Órgão Grenzing na Catedral Evangélica de S.Paulo na Rua Nestor Pestana (fotos abaixo), embalado pela música fantástica lembrei da conversa que tive com o compositor-organista em Leipzig, onde ele descansa.
“– Perdão Mestre. O órgão é a melhor maneira de conversar com Deus?”
“– O homem não conversa com Deus, apenas fala com Deus, que nunca nunca responde, mas às vezes – Ele ou o acaso – parecem agir.”
Fiquei quieto, temi questionar, esperei que continuasse.
“– Eu gostava de falar com Ele através do órgão, Paganini preferia o violino, Jacqueline Du Pré o cello, Jimi Hendrix a guitarra.”
“– Os tempos modernos estão confusos. O homem fala com Deus, mas tenta ouvir os Ets.”
Não consegui pensar numa resposta adequada, deixei uma flor sobre a lápide.



MASCARAS E ÍCONES DO MUNDO

Frankfurt / Alemanha – 5 / set / 2017
Andando pelos corredores do Museu Städel em Frankfurt encontrei Simonetta Vespucci, talvez a mais bela top model da Renascença. Estava meio entediada de ficar naquela sala, olhando para o nada, resolvi puxar conversa.
“- Já encontrei você em vários lugares, sempre alheia e cada vez mais bela.”
“- Se gosta de museus, com certeza, estou em muitas paredes, ou alguém muito parecida comigo. Tive amigos que gostavam de me pintar. N’O Nascimento de Vênus’ - duas vezes - como a Flora e como a deusa”; também em excessivos retratos de mulheres e personagem da História, nem lembro mais quantos.”
“- De qual mais gosta?”
“- Sem dúvida daquela ‘Cleópatra’ de Piero de Cosimo, um artista estranho. Me arrepia e excita aquela serpente enrolada no pescoço.”
Antes de falar censurei Piero, panaca, devia te-la usado como modelo da virgem do MASP.  
“- Você posava para eles?”
“- Nunca. Tudo que viu são elogios ousados da imaginação e desejo deles. me homenageando.”




Borges - Genebra / Suíça – 24 / maio / 2016
Numa tarde de terça-feira de maio de 2016 fui visitar Borges em Genebra. Apesar de imortal, agora, passa todo o tempo neste jardim – perto de Jean Calvin, que frequenta o lugar faz muito mais tempo. Ouviu meus passos se aproximando e levantou a cabeça, estava com os olhos fechados, mais isso não mudava nada. Perguntei:
“- Jorge como é possível entender a América do Sul?”
“- Passei muito tempo lá, porém não aprendi, somos todos exilados com saudades da Europa, África, Oriente...”
“- Veja na Literatura de vocês, ‘A canção do Exílio’ é um dos maiores poemas”
“Então não existe chave para entendê-la?”
“-Talvez a resposta esteja no mapa do subcontinente. Parece um redemoinho fascinado pela Europa, mas com um frágil fio de comando ligado nos Estados Unidos.”


CCBB-SP / Exposição Paul Klee – 20/março/2019
Uma das melhores tardes que tenho na memória passei no ‘Zentrum Paul Klee’, nos arredores de Berna. Três pavilhões ondulados que se mimetizam com as colinas em torno para melhor se encaixar na paisagem. A família do pintor guarda lá algumas centenas de milhares de obras do artista. Tesouros belíssimos, frágeis e delicados como corais e bolhas de sabão.
Passeando nesta longa alameda arenosa curtimos o perfil da cidade da Relatividade de Einstein e o tempo se alonga e quase para, o dia pode durar semanas.
Na Exposição de Paul Klee no CCBB-S.Paulo, parei defronte uma fotografia tamanho natural do velho mestre, tomado pela esclerodermia, e comentei.
- Paul, achei triste a ‘Fênix Idosa’ (detalhe), porque desenhou?
- Ela é mais completa, plena e feliz do que nós dois, de repente se auto incinera, renasce jovem e vive mais 300 anos. Não fica com inveja?


As Novas Proporções do Homem
Enfim superamos o homem vitruviano de Leonardo Da Vinci?





Hitchcock / MIS – 18 / julho / 2018
Hitchcock fica melhor a cada reprise. Talvez apenas dois artistas dominaram tanto e exploraram tão completamente seus respectivos campos de atuação, e deixaram uma obra (igualmente diversificada e vasta) que a partir dela se pode avaliar todas os aspectos e avanços das Artes que elegeram e tudo que os precederam: Back na Música e Hitchcock no Cinema.

Lucerna / Suíça – 1 / junho / 2016
Fui visitar Wagner em sua bela mansão, num promontório que avança intrépido pelo Lago Lucerna, O compositor estava omnipresente, multiplicado em bustos e estátuas.
Aproveitei para fazer a pergunta urgente e incômoda:
"Como conseguiu ser tão genial e tão canalha?"
O mestre respondeu:
"A genialidade e a canalhice são atributos humanos, e eu tenho excesso de humanidade. Assim explorei todas minhas boas e más potencialidades até o limite."
Fiquei pensando embaraçado em dúvidas. Ele, talvez com pena das minhas carências, acrescentou:

"Mas não se esqueça, quando eu fui apenas humano, escrevi o 'Idílio de Siegfried' e o dediquei à Cósima (que roubei de von Bülov) numa manha de natal, naquela escada que breve você subirá."


Montreux / Villeneuve / Suíça – 23 / maio / 2016
Quando findou a chuva primaveril, na beira do Lago Genebra, em Villeneuve, depois de Montreux, encontrei Oskar Kokoschka, o pintor noivo da ‘Noiva do Vento’.
Uma figura patética que vendeu tudo que tinha para comprar farda, espada e cavalo. Foi para a guerra, voltou ferido, perdeu a amante Alma (viúva de Mahler) e a razão crítica e prática, só lhe restou a faculdade de juízo estético.
Curou a dor de cotovelo dormindo com uma boneca cópia exata da amada.
Estava bidimensional e olhava fixamente para o lago.
Perguntei:
‘– Como é a vida assim, plana e dividida?'
Respondeu dúbio e desacostumado da fala:
‘– É boa, a gente vê os dois lados com clareza, esquerda, direita, sem zona cinza. Têm momentos na História que isso é imprescindível.'
Concordei. Calados, juntos, olhamos longamente a espelhada superfície do lago saciado de chuva. Cansado do silêncio me despedi e fui embora. Oskar ficou secando, atento ao vento do tempo.

Vevey / Lausane / Suíça – 23 / maio / 2016
O garfo no mar alude à sede mundial da Nestlé na cidade de Vevey, à beira de Lago Genebra.
O céu feroz induz meditações nebuladas. Machado de Assis disse “morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde”, quase o horário da foto.
Repensando, morre-se otimamente bem na Suíça, em torno do Lago Genebra. Os cemitérios estão repletos de defuntos estrangeiros e desgarrados, ilustres e notáveis. Jorge Luiz Borges, Charles Chaplin, Grahan Grenne, James Mason, Oscar Kokoschka…

Visto e fotografado – 8 / Out /16
Paul Cézanne (1839-1906) Retrato do Artista  /  1875
Museu d’Orsay Paris