sexta-feira, 9 de abril de 2021

2018/ago/27 – Florença – Cúpula de Brunelleschi

 2018/ago/27 – Florença


Depois do almoço caminhei até uma rua lateral da Piazza del Duomo de Florença para conversar com Filippo Brunelleschi. Fiquei olhando para ele que, extasiado, admirava o milagre da Cúpula que havia construído. Aguardei algum tempo, não baixou os olhos, mesmo assim perguntei.

“– Mestre li muitos livros e examinei muitas plantas e fotos, mas ainda não entendi a gênese, nem decifrei o milagre da cúpula que criou.”

Ouvi sua resposta, não sei se falava comigo ou com ‘urbe et orbi’.

“– Me tornei arquiteto, porém nasci ourives e relojoeiro, aprendi a importância dos materiais e a maravilha da articulação de cada pequena parte. A cúpula é uma joia feita de tijolos empilhados com amor, imaginação, engenho, paciência e sabedoria.

Desviei meu olhar para convergir com o do mestre.


terça-feira, 30 de março de 2021

2020/dez/27– Recife – Carlos Pena Filho

2020/dez/27– Recife

Na última vez que fui em Recife fiz questão de sentar e conversar com o grande poeta Carlos Pena Filho (que vejo pouco mencionado), sobretudo por causa deste poema. Que, depois de lido, deixa dentro de nós um misto de incompletude e estranheza.

Viveu pouco, apenas 31 anos. Outra vez incompletude e estranheza. 

sábado, 20 de março de 2021

2018/set/08 – Sorrento / Italia – Caruso - Máq. do Tempo

Sorrento / Italia – 08/set/2018

Numa noite de sábado em Sorrento, quente, fim de verão, depois do jantar, sai para passear e apreciar o mar. No caminho ouvi música, árias de óperas, vinha da Igreja de São Francisco. Segui o som, entrei no Claustro e fui transportado 100 anos para o passado.

Umas 20/30 pessoas, sob as árvores, acariciadas pela fresca brisa do mar, um século atrás, extasiadas escutam música. A máquina do tempo era a aparelhagem de reprodução utilizada.

Os discos eram aquelas velhos bolachões pretos de 78 rotações, todos de Enrico Caruso, edições originais. Um antigo gramofone a manivela de 1906, chique, com a corneta embutida no móvel, reproduzia o som. O volume era baixo, íntimo, para pequenas salas. Inadequado para as vastas dimensões do pátio interno. Por isso um microfone defronte o alto falante amplificava as músicas para várias caixas acústicas espalhadas em torno da plateia.

No fim da audição fui conversar com Guido D’Onofrio, o audiófilo, para agradecer pela viagem e deixar os cumprimentos do futuro. 

sábado, 13 de março de 2021

2019/ago/14 – Chicago – Nighthawks

2019/ago/14 – Chicago


Depois da imprensa e dos meios de comunicações terem estilhaçado o quadro ‘Nigthhawks’ de Edward Hopper – 1941/42 - em bilhões de versões e variações.

Depois da Internet ter espalhado as imagens e cada bit de informação delas pelos multi-dobráveis mundos fractais virtuais, a pintura virou uma incógnita, uma coleção de mistérios.

Frente a ele parecemos sempre um daqueles leitores do livro de infinitas páginas de Borges, numa sabemos direito em que ponto da trama estamos.

Por isso precisei ir até o The Art Institute of Chicago para poder apreciar a obra apenas como um quadro comum pendurado na parede. Tentei abstrair tudo o que sabia sobre ele para focar apenas num ponto preciso: “o que exatamente a garota de rutilantes cabelos de cobre, vestido vermelho e olhar atento, dúbio e alheio segura na mão”?

Um petisco ou a chave mítica e mística do mundo? Até agora não sei.


terça-feira, 9 de março de 2021

2015/nov/01 – Lisboa – Cômoda de Fernando Pessoa

2015/nov/01 – Lisboa

Cheguei em Lisboa, peguei o bonde, e fui ladeiras acima para casa do Mestre. Queria ver a cômoda onde, ele garante, nasceram seus principais heterônimos e poemas.

Acho que obedecia a uma compulsão que move a maioria dos poetas lusófonos do século XX. Desconfio que somos todos – às vezem sem saber e sem querer - heterônimos dispersos de Fernando Pessoa.

Precavido levei chocolates. Porque – como não há mais Metafísica no mundo - é preciso comer chocolates. Aproveitei para espiar pela janela, mas não vi nem a tabacaria nem Esteves, mesmo assim “gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo” passou a fazer completo sentido.


 

sexta-feira, 5 de março de 2021

2021/fev/27 – Colônia Witmarsum/PR – Realidade Alterada

 2021/fev/27 – Colônia Witmarsum/PR

Na estrada para a Colônia Witmarsum, no miolo do Paraná, protegida por um dossel de árvores (e talvez provocado por elas) existe um túnel dúbio, um campo de realidade alterada. Como aquelas zonas mágicas que cercam a Terra do Nunca, os países e espelhos de Alice, a geografia de Gulliver e o distrito dos Hobbits, avessas ao prosaico e ao normal.

Quando atravessam este vão incerto os automóveis trepidam, os ônibus e caminhões flutuam e as pessoas levantam voos desajeitados e descontrolados. Porque é preciso ajustar as bússolas interiores e realinhar as coordenadas da fantasia para funcionar neste território do faz-de-conta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

2018/ago/30 – Cortona/Toscana – Medidas de Da Vinci

2018/ago/30 – Cortona / Toscana


Durante um tour vagabundo – 10 dias rodando pela Toscana - visitei Cortona. A cidade já habitava minha memória afetiva desde que assisti ‘Sob o Céu de Toscana’, o filme acontece lá. No canto de uma praça havia um monumento enganador se gabando das medidas perfeitas propostas pelo gênio florentino, resolvi desafiar as proporções.

Depois soube que é perigoso comparar medidas com o padrão de Leonardo Da Vinci, a resposta jamais é a desejada, nunca estamos (talvez ninguém esteja) a altura do homem vitruviano. Podemos passar a vida inteira persistindo, mas sempre sobra ou falta alguma coisa.

Considerando o cotejo, sobre a sobra ou a falta, é mais conveniente faltar, fica o espaço e a esperança de crescer, melhorar... Quando sobra estamos irremediavelmente ferrados, para qualquer ser vivente é muito mais difícil e doloroso, desapegar, jogar fora do que acumular.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Pacaembu/S.Paulo – 11/fev/2021 – Meditações de Chronos

Pacaembu/S.Paulo – 11/fev/2021

Na subida da Rua Major Natanael, num nicho no muro do Cemitério do Araçá, entre o Estádio do Pacaembu e o Hospital das Clínicas, Cronos (talvez de Brecheret), envolto em tédio e deslembranças, observa o banbo tropeçar do tempo e a ebulição do trânsito. Às vezes confunde e embaralha as duas coisas, porque ambas parecem zumbidos de moscas lentas.
Sua única distração é regurgitar os cinco filhos e girar a ampulheta.
A cada três anos conversa com a coruja que sempre crocita a mesma resposta.
 Não se iluda. / Nada Muda.
A coruja, impaciente e exibida, quando escurece estica as asas e voa, vai se vangloriar com os corvos, se gabando que sua frase única é melhor do que monótona repetição do corvo de Poe: ‘Never more'.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Efeso/Turquia – 12/set/2009 – Seguindo as Pegadas

 Efeso/Turquia – 12/set/2009

Em Ephesus, a segunda maior cidade ocidental da antiguidade, atualmente território da Turquia, é possível caminhar por ruas de 2.500 anos, seguindo pegadas de bárbaros, gregos e cristãos. Corre por lá também – e às vezes para - o rio do Tempo de Heráclito, onde ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas.

Nas suas ruinas estão preservados restaurantes, casas, lojas e até latrinas públicas.

Meditando na esquina da Biblioteca Celsus Polemaeanus é fácil concluir que apesar de séculos de progressos e avanços técnicos – a fina película de civilidade - não mudamos muito, poderíamos voltar a utilizar todas aquelas facilidades caso fosse preciso.

Caminhando pelas ruas, travessas e becos, muita vez, encontramos pés descalços esculpidos nas pedras do calçamento (detalhe amarelo). Informam que a marca  apontava a direção das casas onde as moças belas e complacentes trabalhavam, muitas vezes servindo Afrodite.

No fundo do homem o Tempo não muda nada, só engrossa o casca do verniz.



domingo, 17 de janeiro de 2021

Zurich/Suíça – 16/mai/2016 – Alberto Giacometti

Zurich/Suíça – 16/mai/2016

 11     – Para os pioneiros da informática que (ainda) sabem binário.

1011  Ou Giacometti invadido – para os apreciadores de Arte.

Exposição permanente no Museu das Artes de Zurique (Kunsthaus)

Alberto Giacometti, talvez por ter corajosamente enfrentado a Segunda Guerra, tinha obsessão pela figura humana, mesmos quando reduzida ao mínimo. 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Micenas/Grécia – 24/set/2019 – Palácio de Agamenon

Micenas/Grécia – 24/set/2019


Eu sabia como qualquer outro meteco ou não grego que adentrando estas muralhas, cruzando a porta estreita guardada por duplos leões, penetrando em Micenas, sentiria o amargo travo do destino claro-escuro de Perseu e Agamenon. Junto com eles experimentaria a infinita tragédia de suas proles vasta e de vida curta, para gerar o incômodo espanto dos mitos. Medeia, Clitemnestra, Menelau, Helena, Orestes e Electra.

O meio do miolo da Grécia antiga, solo e matéria para o Teatro Grego e as Epopeias Homéricas. Talvez o verdadeiro coração rubro da Hélade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Meteora / Grécia – 20/set/2019 – Nas Agulhas das Montanhas

Meteora / Grécia – 20/set/2019

A Grécia – em Meteora – é Bizantina, dourada, sinuosa, cheia de arcos e santos aureolados. Resta pouco, quase nada, da solar lógica ática.

Quem sobe até os mosteiros, se permitir que seja alçado, pode sentir um gostinho (ou talvez um travo) do Céu.

Lá nas alturas inexistem as guerras eternas, os conchavos infinitos e as traições corriqueiras que empolgam, distraem e destroem os deuses do Olimpo. Tudo é busca de paz e infinita espera do Paraíso, ou da Queda atroz.

Dos jardins dos monastérios, laboriosamente cultivados entre rochas ressequidas – monges e freiras – com muito esforço podem se imaginar salvos, até do Civid.