quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Série FUNDAÇÃO – Prismas de Asimov

 

Atravessei empolgado os livros e contos da saga Fundação de Isaac Asimov. A vastidão do arco de tempo que a proposta abrangia me fascinava. A ousadia de narrar a evolução da humanidade numa cronologia tão elástica, de dezenas de milênios – maior do que as grandes epopeias como Gilgamesh, Mahabarata e os mitos gregos e chineses - era deslumbrante, exigia grandeza e temeridade. A extravagancia e enormidade do empreendimento me encanta até hoje.

Na semana passada assisti os dez episódios disponíveis da série Fundação, na AppleTV. Gostei moderadamente das soluções tecnológicas, das belas concepções visuais do cosmo, das adequações de etnias e gêneros, mais coerentes com as perspectivas e desdobramentos históricos. Fiquei fã, pretendo acompanhar as próximas temporadas.

Contudo, passando um traço e fazendo a conta, é mais do mesmo, já vimos coisas semelhantes em The Expanse, Star Trek: Discovery, Picard e outros universos de ficção. Infelizmente, na Fundação da Apple, com a migração da mídia, não veio junto a pulsão e a temeridade da História do Futuro que empolgava, dava sentido e amarrava as coisas em Asimov.

Entendo isso, na Música Clássica acontece muito. Todo Maestro ou Diretor de Ópera quando vai interpretar uma sinfonia ou montar uma ópera precisa decidir se vai respeitar o original ou inovar audaciosamente. A segunda opção é sempre mais excitante, pode acabar em acertos geniais ou erros colossais. Já a assisti a tetralogia ‘O Anel dos Nibelungos’ de Wagner remontada como uma guerra da Máfia.

Um livro e uma série são coisas distintas. A escrita é uma deliciosa aventura pessoal e solitária – na maioria das vezes livre. Talvez seja impossível manter o sentido, dimensão e coerência da saga trabalhando em equipes ou grandes grupos, com apertados cronogramas, interesses diversos, visões divergentes e objetivos econômicos explícitos, imediatos e incontornáveis

Apesar dos limites da série, algumas coisas resultaram muito interessantes, extensões do universo de Asimov. O detalhamento da intrincada estrutura da dinastia dos imperadores. O explicitação das senhas e procedimentos de segurança das naves e de Trantor. A grandiosidade de uma civilização de milhões de mundos, bilhões de indivíduos – inacreditavelmente humanos. E sobretudo alguns detalhes, curiosidades, imaginados pelos roteiristas e diretores.

Estou esperando outras temporadas, e sobretudo como será o ‘Mulo’.



terça-feira, 23 de novembro de 2021

Sombra e Luz

 


Andar no estreito vão

que separa a sombra da luz,

entre a crença e ilusão.

Sem ter certeza

onde isso conduz.


sábado, 6 de novembro de 2021

As Cavernas do Destino: Eclipse

 

Li com muito prazer e espanto a coletânea DESTINO: ECLIPSE, recentemente publicada pela Editora DM. O livro inteiro, todos os 14 contos, inclusive o meu “Cativos da caverna de Platão”, o penúltimo da série. Obedeci a ordem da edição, queria avaliar meu conto calibrado pelas estranhezas e surpresas da coleção. Deu certo, foi curioso relê-lo, agora, embalado pelas várias abordagens inesperadas da proposta/tema.

Antes de avançar é bom relembrar as premissas do livro. Eclipse é um planeta distante e especial, o primeiro ‘gêmeo’ da Terra encontrado - segundo as avaliações das Ciências - capaz de comportar vida similar à da Terra. Uma nave colonizadora é lançada, porém explode no início dos trabalhos de ocupação do planeta. O desafio era interessante, e os textos selecionados responderam com a imaginação solta.

Os contos não se aproximam, quase não convergem, são vastamente diferentes, novidades antes de tudo, tanto na abordagem física de Eclipse - flora, fauna, geografia e biomas – quando nos objetivos, sentidos e expectativas da missão e consequências do desastre.

Curiosamente dois vieses algumas vezes se repetem. Primeiro, vários contos acontecem em cenários de pântanos, mangues ou alagados; segundo, a maioria das histórias são pessimistas sobre o sucesso da colonização de Eclipse. Porque ninguém ousou um viés otimista?

Não gostaria de ser o ‘governador’ desta missão porque, pelo que os contos sugerem (talvez como na vida real, e especialmente num cenário pós catástrofe) não existe nenhuma convergência, considerando objetivos e metas. Em termos de literatura foi ótimo, os enredos resultaram surpreendentes e imprevisíveis.

Sobre meu conto, “Cativos da caverna de Platão”, sempre que lia o Mito da Caverna (e li muita vez na Filosofia da USP) divagava pensando na possível história de vida daqueles coitados aprisionados naquela situação. Brinquei com esta ideia na minha abordagem.

Quero mencionar quatro contos que surpreenderam de duas formas. Pela proposta e andamento narrativo: “Apocalipse em nós” / Heitor Zen e “Corpos Dormentes’ / Anne Domeneck. Também pela chave criativa que encontraram: “Piche” / A. Conti e “Comidas exóticas Fora da Terra” / Renato Alexandre.

Contudo, acho que é melhor ler o livro inteiro e fazer novas descobertas.


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

O PIANO EM CHAMAS DE NELSON FREIRE

 

Sou um fã intenso e discreto de Nelson Freire, tenho muitas lembranças dele de registros gravados e consertos ao vivo. Uma apresentação, contudo, é muito especial, permanece cintilante na minha memória, porque está enganchada num novelo de coincidências. Gostaria de relembrar e compartilhar esta performance neste dia triste: 1 de novembro de 2021, quando aconteceu a elevação da mestre pianista.

No início de 2008 a Sociedade de Cultura Artística recebeu um novo piano, uma máquina de fazer música, soberba, magnifica: um Steinway Concert modelo D, fabricado em Hamburgo. Foi tocado pela primeira vez num concerto pelo jovem pianista Pablo Rossi no dia 29 de abril de 2008. Estava na plateia para conferir. Obviamente fiquei extasiado, foi uma experiência transcendental ouvir a sutileza e amplitude daquela obra de arte da técnica moveleira e engenharia acústica.

Queria mais, corri para comprar entradas para a apresentação de Nelson Freire onde desafiaria aquela magistral obra prima dos instrumentos. Tive sorte, consegui um excelente lugar, bem na frente, no dia 08 de maio de 2008.

O programa era bem-concebido, amplo e diversificado – Mozart, Beethoven, Chopin, Debussy. Porém, minha memória insiste que achei pouco e insuficiente, tanto que cheguei em casa e foi ouvir mais Nelson Freire no meu sistema de som.

Nove dias depois, num sábado, dia 17 de agosto de 2008, fui acordado de madrugada pelo barulho estridente das sirenes dos bombeiros. Corri até a janela e pude ver o prédio do Teatro da Sociedade de Cultura Artística em chamas, tudo foi estruído, inclusive os dois pianos que a entidade possuía.

Apesar do desastre o piano 'menino' cumpriu um destino nobre, o marfim de suas teclas incendiadas ainda retinha a lembrança da pressão dos dedos de Nelson Freire. Estava realizado, sabia que tinham tirado dele tudo que podia dar.


sábado, 30 de outubro de 2021

Painel de Azulejo do Largo da Memória (Histórias)


Painel de Azulejo do Largo da Memória (ilustrações)|

Vamos conversar sobre as histórias que as ilustrações do Painel de Azulejos da Ladeira da Memória contam. Hoje manchadas e quase apagadas, porque faz mais de 100 que o monumento suporta sol, chuva e esquecimento no desviado Largo do Piques. Só escapou da última neve em S.Paulo que – se o bando de Oswald de Andrade fala verdade - aconteceu em 25/jan/1918,. Porém antes precisamos lembrar como surgiu.

Antes das Estradas de Ferro alcançarem S.Paulo, a porta de entrada e saída da cidade para o interior era pelo Paredão dos Piques. Todo viajante que arriscasse conhecer o Brasil profundo precisava passar por lá. Era também, para quem nos visitava, a primeira panorâmica da vila. Talvez por causa da vasta e vária frequentação do lugar, em 1814 – antes de Independência, ainda no reinado de D. João VI - com sobras de materiais, resolveram construir ali um chafariz e um obelisco. Nosso primeiro monumento público.

Com a facilidade do trem, a porta do castelo passou para a região da Luz. A Ladeira da Memória virou rota da ligação pedonal entre o Centro Velho e os bairros recentes e chiques. Em 1919, talvez por causa desta nova função pedonal foi encomendada para Victor Dubugras – um dos pioneiros da Arquitetura Moderna na América Latina -uma completa repaginação do lugar. Foi então que nasceu o PAINEL DE AZULEJOS DO LARGO DA MEMÓRIA.

Devia ser um lugar agitado, cheio de notícias e novidades, porque, vendo as ilustrações, sempre me deu vontade de passar um tempo por lá. [ Recortes detalhados do painel, estão publicados como comentários da postagem. Veja abaixo. ]

Os riscos e a azulejaria foram feitos e concebidos por José Wasth Rodrigues, um talentoso artista plástico, paralelo e contemporâneo da Semana de Arte Moderna de 22. É considerado um dos nossos maiores azulejistas e heraldistas, criador de brasões de várias cidades brasileiras, inclusive o escudo da capital de S. Paulo (junto com Guilherme de Almeida), que pela primeira vez foi usado numa obra pública exatamente neste monumento. (veja Det. 5, abaixo);

 

# Det. 1 – Compra e venda de mulas e burros entre os tropeiros.



# Det. 2 – Despedidas, encontros, chegadas e partidas de viajantes.


# Det. 3 – Namoros, passeios e encontros em torno do chafariz.


# Det. 4 – Negociantes de escravos e mercadorias em geral.



# Det. 5 – Primeiro uso oficial do Brasão de S.Paulo.




segunda-feira, 18 de outubro de 2021

7/set/2019 – Ilha de Ios / Grécia – Poeta cadê o azul?

Ilha de Ios / Grécia – 7/set/2019

Fui até a Ilha grega de IOS visitar o grande poeta Homero, que nasceu e está enterrado lá. Diante da imensidão de céu e mar invoquei o bardo maior e enunciei a pergunta insubordinada que carregava na cabeça.

"– Poeta, sei que passou muito tempo navegando, incrustado entre o céu e o mar. Escreveu dois livros imensos, imprescindíveis - Ilíada e Odisseia - neles nenhuma vez menciona a cor azul. Porque?"

Homero demorou a sobrenadar, emergindo de um sono secular. Respondeu lentamente com dicção rascante, erodida pelas brisas perenes.

"– O azul não existe."

"– Como não existe Poeta! Veja o céu, veja o mar..."

O Poeta gargalhou contido, o vento estridulou irônico, as cigarras rechinaram desbragadas.

"– Olhe de novo, o céu é somente ar, que não tem cor, e o mar apenas água, incolor. O que tinge tudo é a imaginação do homem moderno, carente de conceitos, mas ultra saturada de imagens e certezas instáveis."

Sondei o horizonte azulino, enxerguei um riso sardônico se dissolvendo.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

2021/0ut/01 – Paraná – Ilha do Mel/Guaraqueçaba

2021/0ut/01 – Ilha do Mel/Guaraqueçaba 

Farol abandonado no Canal da Ilha da Galheta. Passei por ele de barco várias vezes, era altivo, abandonado, solitário e assustador. Revolvi me arriscar, embrenhar no mato para visitá-lo. A trilha era difícil, as vezes se escamoteava, desaparecia, inexistia. Talvez para guardar segredos escuros.

O que incitou minha aventura foi o terrível filme oscarizado ‘O Farol’ (The Lighthouse/2019) de Robert Eggers. Queria entender, sondar um pouco os sentimentos de Willem Dafoe e Robert Pattinson experimentaram, exilados naquela solidão.

No cinema o clima era horrível, com nevascas, vento frio constante e gelo. Eu estava melhor só tinha céu nublado, chuva e frio. Passei meia hora lá, mas deu para vislumbrar os limites de insanidade que os dois heróis da história suportaram.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

2018/set – Sul da Espanha – Arcos e Colunas Mouriscas

 2018/set – Sul da Espanha

Entrando pelo Sul da Espanha, visitando os antigos templos e palácios deixados pelos quase mil anos de ocupação dos emirados e califados mouriscos, a surpresa vai conosco.

Córdoba, Sevilha, Granada e Málaga guardam muitas estranhezas. É interessante observar as sutilezas na utilização dos arcos e colunas na arquitetura árabe. Mais delgados, longilíneos, com tessituras inventivas e elegantes.

Os pilares parecem um mal necessário, estão reduzidos apenas a pontos de sustentação do vão humano. Apoios necessários para separar os emaranhados e intrincados céus muçulmanos do chão onde vivem os homens – repletos de espelhos d’água, defesa contra os desertos na memória.

Uma tessitura que enfatiza o inextrincável mistério do divino. São arcos lobulados, coloridos, variados, libertos e infinitamente recortados, uma forma nova e diferente de conversar com os Deuses.


domingo, 29 de agosto de 2021

2018/set/17 – Córdoba/Espanha – Averroes / Perfume das Laranjas

 2018/set/17 – Córdoba/Espanha


Saí para comprar chip de telefone e encontrei Averroes, toquei no sábio em pedra e juntos ficamos olhando Córdoba. Lembrei do conto de Borges em que o Filósofo passa o dia inteiro tentando entender o significado dos termos aristotélicos ‘tragédia’ e ‘comédia’, sem conseguir. O pleonasmo provocativo do enigmista argentino é narrar as meditações do Filósofo acontecendo enquanto assiste diversas modalidades de representações, tristes e alegres, sem jamais conseguir juntar o conceito à coisa. A velha cisão de Platão: a coisa das ideias e a ideias das coisas.

Sorri silente pensando que a Cultura sempre cria mais enigmas do que resolve.

Por entre as buzinas ouvi a engrolada voz de pedra ressoando:

“Estoy de acuerdo. Sé que leíste 'El nombre de la rosa'. 'Rosa', ¿qué tiene que ver este arreglo casual de letras con la flor?

Nada, absolutamente, por Córdoba inteira rescendia e imperava o perfume das laranjas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

25/ago/2018 – Porto Venere / Itália – Porta da Cidadela

25/ago/2018 – Porto Venere / Itália

Porto Venere poderia ser a sexta cidade das ‘Cinque Terre’ o quinteto de antigas e tortuosas praias italianas. Mas era um Importante porto na História Antiga e muito grande e famosa, desbalancearia o sexteto. Lá nasceu Simonetta Vespucci, a musa maior da pintura clássica italiana, um dos nossos paradigmas da beleza feminina  parente do navegador que deu nome à América. Também era o esconderijo predileto de Lord Byron (pai de Ada Lovelace – a cibernética) para curtir a praia, deu seu nome a um poço de águas agitadas onde gostava de mergulhar – as vezes nu.

Contudo, talvez o detalhe mais extravagante dela, seja a principal porta de entrada da cidadela fortificada, que diminuiu três vezes de tamanho. Um exemplo documentado da dolorida adequação entre a ostentação e o medo.

A primeira redução parece pura paura, a segunda e a terceira preservam um pouco do orgulho, na singela talha de pedra dos batentes.


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

2016/mai/25 – Gruyères / Suiça – Escolhendo Armadura

2016/mai/25 – Gruyères / Suiça

O mundo é repleto de inimigos difusos, ocultos, camuflados, encantados, transmutados em aliados. Difíceis de reconhecer.

Sair de casa, entrar no jogo, exige cálculo, estratégia, adivinhação. Todo cuidado é pouco, insuficiente. É preciso ter certeza de escolher a proteção certa, eficiente na defesa e fluida no ataque. E confortável, porque muito da vida é só viver.

Sobretudo que seja fácil de desvestir, porque as vezes a nudez completa é a melhor escolha.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Duas Caminhadas de Mario de Andrade

 Duas Caminhadas de Mario de Andrade


Sempre ouvimos dizer que Mario de Andrade era um incansável caminhante. Lendo a caudalosa ‘Correspondência - Mario de Andrade & Manuel Bandeira’ (EDUSP – Org. Marcos Antonio de Moraes) por duas vezes o missivista paulistano fala de suas longas peregrinações, curiosamente em horários inesperados.

 – O primeiro registro é 29 de agosto de 1928.

“Às 4 e 30 acordei sai, dei uma volta enorme, andei pelo bairro empinado da Casa Verde, eram 8 quando cheguei em casa...”

– A segunda caminhada aconteceu em 13 de julho de 1929.

“No Anhangabaú não se via nada de nada. Só os anúncios e o farol da Ligth circulando. Fui no cinema, vi umas besteiras, sai no meio e fui andando. Quando vi estava no Brás. Então voltei procurando caminhos mais misteriosos, cheguei a ter medo no meio do parque Pedro II, completamente sem iluminação e com alguns ruídos nas moitas. Depois atravessei o bairro turco e só quando esbarrei na estrada-de-ferro, vim me encostando nela até a rua Lopes Chaves.”

Curioso com os relatos do nosso menestrel, apelei para o Google para tentar imaginar os possíveis percursos destas andanças. (vejam mapas na ilustração).

Cada uma das caminhadas – segundo o Google Maps - duraria cerca de uma hora e meia. Um cálculo aproximado certamente, porque as duas cidades, de 1930 e 2021, num lapso de quase 100 anos, tornaram-se completamente diferentes.

Espantosa também era a coragem do nosso Poeta, considerando os horários, será que alguém se arriscaria da repetir sozinho o percurso hoje?

terça-feira, 27 de julho de 2021

Macunaíma – 26 de julho 1928 – 93 anos

 

Publicado em 26 de julho de 1928 (fez aniversário ontem), Macunaíma é uma excepcional rapsódia modernista de Maria de Andrade que revisita diversas tradições folclóricas brasileiras. O fio condutor é um ciclo de lendass dos índios Macuxis, da região do Monte Roraima, sobre o personagem título. Uma entidade importante na história é a arvore que dá todos os frutos, a ‘Dzalaúra-Iegue’. Imensa, pródiga e generosa, que quase toca o céu.

No livro a árvore mágica é transmigrada para S.Paulo, cresce no vasto quintal da casa do gigante Piaimã – comedor de gente - metamorfoseado pelo autor num milionário paulista, Venceslau Pietro Pietra, que roubou sua preciosa ‘muiraquitã’, um amuleto mágico e poderoso.

Mario de Andrade dá o endereço do gigante malévolo: “Venceslau Pietro Pietra morava num tejupar maravilhoso rodeado de mato no fim da rua Maranhão olhando pra noruega do Pacaembu.”

Dois termos estranhos magicam o texto: ‘tejupar’ – choça ou palhoça, uma gostosa ironia para mansão; e ‘noriega’ – ‘terra úmida e sombria na encosta sul de montanha que recebe pouco sol’ (Houaiss), uma curiosa descrição do nosso bairro, chique e antigo.

Vários autores e cronistas apontam a árvore da foto acima (na esquina das ruas Maranhão e Rio de Janeiro) como a fonte de inspiração de Mario de Andrade.

Faz muito tempo procuro esta árvore nas fotos antigas. Minha dúvida é a seguinte: o livro Macunaíma é de 1928 - quase um século atrás. Será que naquele tempo a árvore já era tão grande, capaz de incendiar a imaginação do mestre modernista paulista?

sexta-feira, 23 de julho de 2021

2017/jul/23 – S.Paulo – Museu Lasar Segall

2017/jul/23 – S.Paulo



         Auto-Retrato III (1927)  /  (7 Mestres Brasileiros)

sob o olha estrangeiro

somos o que ele quiser

folhas de bananeiras

mulatos e casarios

atroz barco de imigrantes

tela branca para utopias


espelho oráculo

olho ordálio écran

que julga explica decifra


deslumbrados descobrimos

falanges de desconhecidos

habitando dentro de nós


nesse jogo de alteridades

onde o avesso é a regra

o outro que nos mirava

de repente vira um de nós

comm diferenças iguais

                             Douglas Bock  

segunda-feira, 19 de julho de 2021

2018/set/21 – Setenil de las Bodegas / Espanha - Casas nas Cavernas

 2018/set/21 – Setenil de las Bodegas / Espanha

Setenil de las Bodegas no sul da Espanha, perto de Málaga - é uma cidade estranha, misteriosa, inusitada, encantadora e perigosa

Fascinante, assustadora.

De repente os degraus mais antigos e profundos das nossas escadas cromossômicas insistem em se manifestar. Começamos a ter saudades dos homens das cavernas. Grunhidos, urros e berros nos parecem uma perfeita forma de comunicação. E andar ereto sugere uma atitude pernóstica.

As grutas, lajes e vãos das encostas das montanhas podem ser melhores que os modernos conjuntos de apartamento. Indicações como: Laje vermelha, sétima gruta a esquerda, fundos, se transformam num endereço natural e razoável.


terça-feira, 29 de junho de 2021

2014/abr/02 – Nara / Japão – Templo Todaiji

2014/abr/02 – Nara / Japão


O Japão sempre é intrigante e espantoso, além da multimilenar História documentada, sua cultura possui aquele curioso lapso da alteridade voluntária, quando, por mais de 200 anos – a partir do século XVII – decidiu se manter apartado da civilização ocidental. Entre muitas outras maravilhas, o acervo de gravuras japonesas é fantástico, instigante, uma representação paralela e variante da vasta imaginação do mundo.

Por isso trouxe na bagagem uma cópia, em papel de arroz, de minha fantasia predileta, o ‘Espectro do Esqueleto’, obra de Utagawa Kuniyoshi, considerado um dos criadores do Mangá. O original é um tríptico em madeira. Remete à lenda da bruxa Takiyasha convocando um esqueleto gigantesco e monstruoso para assustar a princesa Mitsukuni e seu companheiro.

sábado, 26 de junho de 2021

2016/set/30 – Provence - Meu Amigo Francês

2016/set/30 – Provence

Picasso gostava de brincar que era dono do Monte Sainte-Victoire, aquela montanha que Cézanne pintou umas 80 vezes.

Era verdade, ficava praticamente no quintal do pintor, me garantiu o ‘Nando da Cuíca’, um guia/jardineiro/paisagista francês dono de um barraco no morro de São Conrado, que alugava pelo ‘airbnb’. Todo ano passava as férias no Rio, para aprimorar sua arte e se exibir tocando Bossa Nova nas noites de Provence.

Durante umas férias em grupo no Sul da França contratava o Nando como motorista-cicerone. Tinha sido moleque e adolescente naquela região, sabia todos os atalhos, principalmente os proibidos.

Me levou para visitar o Castelo de Picasso, entramos pelos fundos. Porém o mais importante não foi isso, ganhei dois cursos de graça.

Primeiro, degustar todas as variedades de uvas francesas, escondidos, apanhadas dos pés, no fundo dos vinhedos.

Segundo, aprendi tudo sobre trufas, inclusive – e mais importante – o segredo dos carvalhos que dão essas pérolas vegetais, o que não é nem simples nem trivial.


terça-feira, 22 de junho de 2021

2004/set/23 – Bolivia - Salar de Uyuni

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2004/set/23 – Salar de Uyuni

Dos lugares fora da realidade em que já estive, nenhum é mais estranho e isolado do que o Salar de Uyuni. Parece que está guardado dentro do punho fechado do Tempo.

Levamos sete horas para atravessa-lo. Um Jeep e mais nada. Azul e branco. Só céu e sal. Silêncio e salsugem suspensa no ar, calmante, entorpecente e revigorante.

No meio dele resiste uma porção do prosaico, a Ilha do Pescado – terra escura, arenosa e cactos imensos. Curioso o contraste, serve para nos lembrar como o mínimo pode ser belo,

Para guardar esta lembrança sempre comigo, temperei minha comida com sal colhido do chão.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

2018/set/07 – Anacapri/Itália - Escadaria Fenícia

 2018/set/07 – Escadaria Fenícia



Na Ilha de Capri desci a Escada Fenícia, de Anacapri até o porto, 961 lances. Degraus altos, daqueles que exigem esforço, doem os joelhos, repuxam as costas, mas a vista compensa. Melhor tentar fazer a jornada a tarde, com brisa e sombra.

Minha vida passou correndo por mim, em várias idades, lépidos subindo as escadas. Os adolescentes mais espadaúdos se exibiam galgando dois degraus de cada vez.

Me conformei pensando nos Fenícios, presuntivos construtores da escada. Estão em todas as costas continentais, em todas as ilhas, em todas as orlas daquele imenso mar interior, omnipresentes. De repente me ocorreu uma ideia fantástica, assustadora e maravilhosa.

Será que não foram eles - os Fenícios - que escavaram o Mar Mediterrâneo.

Eu acredito.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

2019/set/04 – Grécia/Creta – Desfiladeiro de Samaria


2019/set/04 – Grécia/Creta

O Desfiladeiro de Samaria, nas Montanhas Brancas de Picos Carecas, na costa sul de Creta, defronte o Mar da Líbia, sempre foi um bom lugar para se esconder. Primeiro dos instáveis deuses gregos, depois dos gananciosos mercadores venezianos e por fim, no meio do século passado, dos tresloucados soldados alemães.

Maior da Europa, são mais de 18 quilômetros de paredões e abismos solitários e esquecidos, esparsamente habitados por cabras ariscas e pássaros desorientados, onde até a História é velha e esquecida.

Atravessar a garganta mais opressiva, um pequeno vão de quatro metros com paredões de 500 metros abruptos é um alivio, depois do susto deste estreito já sentimos o cheiro amplo da salsugem e presumimos os azuis abertos do mar e céu mediterrâneos.


sexta-feira, 9 de abril de 2021

2018/ago/27 – Florença – Cúpula de Brunelleschi

 2018/ago/27 – Florença


Depois do almoço caminhei até uma rua lateral da Piazza del Duomo de Florença para conversar com Filippo Brunelleschi. Fiquei olhando para ele que, extasiado, admirava o milagre da Cúpula que havia construído. Aguardei algum tempo, não baixou os olhos, mesmo assim perguntei.

“– Mestre li muitos livros e examinei muitas plantas e fotos, mas ainda não entendi a gênese, nem decifrei o milagre da cúpula que criou.”

Ouvi sua resposta, não sei se falava comigo ou com ‘urbe et orbi’.

“– Me tornei arquiteto, porém nasci ourives e relojoeiro, aprendi a importância dos materiais e a maravilha da articulação de cada pequena parte. A cúpula é uma joia feita de tijolos empilhados com amor, imaginação, engenho, paciência e sabedoria.

Desviei meu olhar para convergir com o do mestre.


terça-feira, 30 de março de 2021

2020/dez/27– Recife – Carlos Pena Filho

2020/dez/27– Recife

Na última vez que fui em Recife fiz questão de sentar e conversar com o grande poeta Carlos Pena Filho (que vejo pouco mencionado), sobretudo por causa deste poema. Que, depois de lido, deixa dentro de nós um misto de incompletude e estranheza.

Viveu pouco, apenas 31 anos. Outra vez incompletude e estranheza. 

sábado, 20 de março de 2021

2018/set/08 – Sorrento / Italia – Caruso - Máq. do Tempo

Sorrento / Italia – 08/set/2018

Numa noite de sábado em Sorrento, quente, fim de verão, depois do jantar, sai para passear e apreciar o mar. No caminho ouvi música, árias de óperas, vinha da Igreja de São Francisco. Segui o som, entrei no Claustro e fui transportado 100 anos para o passado.

Umas 20/30 pessoas, sob as árvores, acariciadas pela fresca brisa do mar, um século atrás, extasiadas escutam música. A máquina do tempo era a aparelhagem de reprodução utilizada.

Os discos eram aquelas velhos bolachões pretos de 78 rotações, todos de Enrico Caruso, edições originais. Um antigo gramofone a manivela de 1906, chique, com a corneta embutida no móvel, reproduzia o som. O volume era baixo, íntimo, para pequenas salas. Inadequado para as vastas dimensões do pátio interno. Por isso um microfone defronte o alto falante amplificava as músicas para várias caixas acústicas espalhadas em torno da plateia.

No fim da audição fui conversar com Guido D’Onofrio, o audiófilo, para agradecer pela viagem e deixar os cumprimentos do futuro. 

sábado, 13 de março de 2021

2019/ago/14 – Chicago – Nighthawks

2019/ago/14 – Chicago


Depois da imprensa e dos meios de comunicações terem estilhaçado o quadro ‘Nigthhawks’ de Edward Hopper – 1941/42 - em bilhões de versões e variações.

Depois da Internet ter espalhado as imagens e cada bit de informação delas pelos multi-dobráveis mundos fractais e virtuais, a pintura virou uma incógnita, uma coleção de mistérios. Frente a ela parecemos sempre um daqueles leitores do livro de infinitas páginas de Borges, numa sabemos direito em que ponto da trama estamos.

Por isso precisei ir até o The Art Institute of Chicago para poder apreciar a obra apenas como um quadro comum pendurado na parede. Tentei abstrair tudo o que sabia sobre ele para focar apenas num ponto preciso: “o que exatamente a garota de rutilantes cabelos de cobre, vestido vermelho e olhar atento, dúbio e alheio segura na mão”?

Um petisco ou a chave mítica e mística do mundo? Até agora não sei.


terça-feira, 9 de março de 2021

2015/nov/01 – Lisboa – Cômoda de Fernando Pessoa

2015/nov/01 – Lisboa

Cheguei em Lisboa, peguei o bonde, e fui ladeiras acima para casa do Mestre. Queria ver a cômoda onde, ele garante, nasceram seus principais heterônimos e poemas.

Acho que obedecia a uma compulsão que move a maioria dos poetas lusófonos do século XX. Desconfio que somos todos – às vezem sem saber e sem querer - heterônimos dispersos de Fernando Pessoa.

Precavido levei chocolates. Porque – como não há mais Metafísica no mundo - é preciso comer chocolates. Aproveitei para espiar pela janela, mas não vi nem a tabacaria nem Esteves, mesmo assim “gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo” passou a fazer completo sentido.


 

sexta-feira, 5 de março de 2021

2021/fev/27 – Colônia Witmarsum/PR – Realidade Alterada

 2021/fev/27 – Colônia Witmarsum/PR

Na estrada para a Colônia Witmarsum, no miolo do Paraná, protegida por um dossel de árvores (e talvez provocado por elas) existe um túnel dúbio, um campo de realidade alterada. Como aquelas zonas mágicas que cercam a Terra do Nunca, os países e espelhos de Alice, a geografia de Gulliver e o distrito dos Hobbits, avessas ao prosaico e ao normal.

Quando atravessam este vão incerto os automóveis trepidam, os ônibus e caminhões flutuam e as pessoas levantam voos desajeitados e descontrolados. Porque é preciso ajustar as bússolas interiores e realinhar as coordenadas da fantasia para funcionar neste território do faz-de-conta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

2018/ago/30 – Cortona/Toscana – Medidas de Da Vinci

2018/ago/30 – Cortona / Toscana


Durante um tour vagabundo – 10 dias rodando pela Toscana - visitei Cortona. A cidade já habitava minha memória afetiva desde que assisti ‘Sob o Céu de Toscana’, o filme acontece lá. No canto de uma praça havia um monumento enganador se gabando das medidas perfeitas propostas pelo gênio florentino, resolvi desafiar as proporções.

Depois soube que é perigoso comparar medidas com o padrão de Leonardo Da Vinci, a resposta jamais é a desejada, nunca estamos (talvez ninguém esteja) a altura do homem vitruviano. Podemos passar a vida inteira persistindo, mas sempre sobra ou falta alguma coisa.

Considerando o cotejo, sobre a sobra ou a falta, é mais conveniente faltar, fica o espaço e a esperança de crescer, melhorar... Quando sobra estamos irremediavelmente ferrados, para qualquer ser vivente é muito mais difícil e doloroso, desapegar, jogar fora do que acumular.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Pacaembu/S.Paulo – 11/fev/2021 – Meditações de Chronos

Pacaembu/S.Paulo – 11/fev/2021

Na subida da Rua Major Natanael, num nicho no muro do Cemitério do Araçá, entre o Estádio do Pacaembu e o Hospital das Clínicas, Cronos (talvez de Brecheret), envolto em tédio e deslembranças, observa o banbo tropeçar do tempo e a ebulição do trânsito. Às vezes confunde e embaralha as duas coisas, porque ambas parecem zumbidos de moscas lentas.
Sua única distração é regurgitar os cinco filhos e girar a ampulheta.
A cada três anos conversa com a coruja que sempre crocita a mesma resposta.
 Não se iluda. / Nada Muda.
A coruja, impaciente e exibida, quando escurece estica as asas e voa, vai se vangloriar com os corvos, se gabando que sua frase única é melhor do que monótona repetição do corvo de Poe: ‘Never more'.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Efeso/Turquia – 12/set/2009 – Seguindo as Pegadas

 Efeso/Turquia – 12/set/2009

Em Ephesus, a segunda maior cidade ocidental da antiguidade, atualmente território da Turquia, é possível caminhar por ruas de 2.500 anos, seguindo pegadas de bárbaros, gregos e cristãos. Corre por lá também – e às vezes para - o rio do Tempo de Heráclito, onde ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas.

Nas suas ruinas estão preservados restaurantes, casas, lojas e até latrinas públicas.

Meditando na esquina da Biblioteca Celsus Polemaeanus é fácil concluir que apesar de séculos de progressos e avanços técnicos – a fina película de civilidade - não mudamos muito, poderíamos voltar a utilizar todas aquelas facilidades caso fosse preciso.

Caminhando pelas ruas, travessas e becos, muita vez, encontramos pés descalços esculpidos nas pedras do calçamento (detalhe amarelo). Informam que a marca  apontava a direção das casas onde as moças belas e complacentes trabalhavam, muitas vezes servindo Afrodite.

No fundo do homem o Tempo não muda nada, só engrossa o casca do verniz.



domingo, 17 de janeiro de 2021

Zurich/Suíça – 16/mai/2016 – Alberto Giacometti

Zurich/Suíça – 16/mai/2016

 11     – Para os pioneiros da informática que (ainda) sabem binário.

1011  Ou Giacometti invadido – para os apreciadores de Arte.

Exposição permanente no Museu das Artes de Zurique (Kunsthaus)

Alberto Giacometti, talvez por ter corajosamente enfrentado a Segunda Guerra, tinha obsessão pela figura humana, mesmos quando reduzida ao mínimo. 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Micenas/Grécia – 24/set/2019 – Palácio de Agamenon

Micenas/Grécia – 24/set/2019


Eu sabia como qualquer outro meteco ou não grego que adentrando estas muralhas, cruzando a porta estreita guardada por duplos leões, penetrando em Micenas, sentiria o amargo travo do destino claro-escuro de Perseu e Agamenon. Junto com eles experimentaria a infinita tragédia de suas proles vasta e de vida curta, para gerar o incômodo espanto dos mitos. Medeia, Clitemnestra, Menelau, Helena, Orestes e Electra.

O meio do miolo da Grécia antiga, solo e matéria para o Teatro Grego e as Epopeias Homéricas. Talvez o verdadeiro coração rubro da Hélade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Meteora / Grécia – 20/set/2019 – Nas Agulhas das Montanhas

Meteora / Grécia – 20/set/2019

A Grécia – em Meteora – é Bizantina, dourada, sinuosa, cheia de arcos e santos aureolados. Resta pouco, quase nada, da solar lógica ática.

Quem sobe até os mosteiros, se permitir que seja alçado, pode sentir um gostinho (ou talvez um travo) do Céu.

Lá nas alturas inexistem as guerras eternas, os conchavos infinitos e as traições corriqueiras que empolgam, distraem e destroem os deuses do Olimpo. Tudo é busca de paz e infinita espera do Paraíso, ou da Queda atroz.

Dos jardins dos monastérios, laboriosamente cultivados entre rochas ressequidas – monges e freiras – com muito esforço podem se imaginar salvos, até do Civid.