segunda-feira, 16 de abril de 2018

Bolinhas de Gude e Sistema Solar


Antes de entrar na escola primária, aos sete anos, já jogava bolinha de gude. Naqueles tempos, de vizinhança amistosa e ruas de terra, era impossível evitar ou ignorar os ciclos das brincadeiras infantis: colecionar figurinhas e maços de cigarro, empinar pipas, rodar pião e jogar bolinha de gude. Foi através desta brincadeira, quando a professora começou a explicar o Sistema Solar, que ocorreu meu estalo cognitivo.

Dona Ana Maria (tive três ‘tias’ chamadas Ana Maria, deve ter sido uma delas) para ilustrar a matéria pendurou imagens dos 
nove planetas e da Lua pela sala. Nos tempos pre-internéticos – de mais leituras e menos figuras – a única referência possível para compreender aquela nova maravilha, esferas imensas girando sem parar pelo espaço, eram as bolinhas de gude. Daí se estabeleceu para sempre, na minha cabeça, a correlação entre os astros e as 'bulicas'. 

Desde então, do meu balde de bolinhas, de cada nova compra, de toda ‘biloca’ ganha nos jogos de rua, passei a separar aquelas que mais se pareciam com planetas. Tinha sub-coleções de uranos, netunos, jupiteres, martes... Todos os nove mais a Lua. Não deviam ser muito fiéis porque as comparações eram feitas de poucas imagens e muita memória. 


Quando descobria nas coleções dos outros garotos alguma ‘bolita’ planetária especial oferecia trocas loucas, três, cinco, sete, dez por aquele tesouro. Os amigos conheciam minha fraqueza e a exploravam impiedosamente. Por uma bolinha de gesso escuro, velha e esburacada que – aos meus olhos – parecia a Lua paguei 17 ‘berlindes’ comuns.

Como fã de gibis de aventuras espaciais – Flash Gordon, Buck Rogers – passava o ano inteiro curtindo o meu sistema solar pessoal e aguardando, ansioso, o começo do 'tempo'  das bolinhas de gude. Aquelas tardes infinitas guardadas nas nossas lembranças de infância em que os jogos só terminavam quando faltava luz do sol. Era o tempo propício para jogar, negociar e aumentar minha coleção extraplanetária.

No meu bairro as principais modalidades do jogo eram circulo, triângulo, estrela, boques e ‘palmo e seca’. Contudo, consultando o Google sobre ‘jogos de bolinhas de gude’ constata-se que a controvérsia é imensa, conturbada e indecidida. Entre as muitas alternativas mencionadas, apenas três alcançam algum consenso – circulo (dos gibis da Turma da Mônica), triângulo e estrela – apesar de sempre comportarem regras divergentes, nomes regionais e inumeráveis variantes. Talvez só seja possível estabelecer regras comuns dentro do mesmo bairro, vila ou rua.

Antes de encerrar estas reminiscências sobre as ‘balebas’ é importante registrar um hiato nas minhas lembranças que muito me inquieta. Apesar das memórias serem, sempre e cada vez mais, enganadoras e falazes, não me recordo de meninas participando dos nossos jogos de ‘búraca’. O problema é que as minhas amigas coetâneas garantem que eram exímias praticantes do jogo de bolinhas de gude. Todas reivindicam serem muito melhores do que os atrapalhados meninos. Das três uma: ou elas estão mentindo, ou estão me enganando, ou o problema e mais grave, vivo numa extravagante realidade paralela.


Sinônimos de 'bolinha de gude', segundo a Wikipédia:
berlinde, burca, burquinha, baleba, bila, biloca, bilosca, biroca, birosca,
bolita, boleba, bugalho, bulica, burica, cabeçulinha (pronunciada ‘cabiçulinha’),
carolo, clica, fubeca, guelas, peca (pronunciada ‘pêca’), peteca, pilica, pinica,
quilica, tilica e ximbra.



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sábado, 14 de abril de 2018

Fotos, Notas e Comentários

[...]
Vevey / Lausane / Suíça – 23 / maio / 2016
O garfo no mar alude à sede mundial da Nestlé na cidade de Vevey, à beira de Lago Genebra.
O céu feroz induz meditações nebuladas. Machado de Assis disse “morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde”, quase o horário da foto.
Repensando, morre-se otimamente bem na Suíça, em torno do Lago Genebra. Os cemitérios estão repletos de defuntos estrangeiros e desgarrados, ilustres e notáveis. Jorge Luiz Borges, Charles Chaplin, Grahan Grenne, James Mason, Oscar Kokoschka…

Visto e fotografado – 8 / Out /16
Paul Cézanne (1839-1906) Retrato do Artista  /  1875
Museu d’Orsay Paris


quinta-feira, 12 de abril de 2018

RELENDO A HISTÓRIA – IMAGENS


O filme ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’ de Eduardo Escorel se estende por 3 horas e 47 minutos. É longo, detalhado, abrangente, em geral precisa de duas sessões para ser apreciado confortavelmente. Contudo vale a pena, algumas das imagens exibidas fervem de novidade, apesar de todo mundo já ter lido sobre elas – como a inopinada queima cívica das bandeiras dos estados brasileiros. O documentário cobre o trânsito completo de Getúlio pelo firmamento brasileiro.

Eduardo Escoriel já está inscrito entre nossos mestres do passado e paradigmas do futuro. Seu filme
‘Lição de Amor’, de 1975, sobre uma novela de Mario de Andrade, é uma obra prima plena de ritmo, interesse, concisão e sugestões. Seu portfólio de trabalhos, mostra que é omnipresente na cena do cinema brasileiro recente. Sobretudo e quietamente é um genial montador.

Por causa da dispersão e escassez de fontes a produção do documentário sobre e meteoro Getúlio durou 12 anos, muitos deles gastos na coleta de material em acervos brasileiros e estrangeiros (Estados Unidos e Alemanha principalmente), oficiais e particulares. Com tempo e esforço a pesquisa resultou numa conjunto espantoso de imagens, repleto de fotos e filmes inéditos, inesperados e inusitados. Tudo magistralmente editado. Como previsto a versão final veio para mudar, expandir e elucidar o fenômeno do Estado Novo.

Essa vasta coleção de imagens se nos impõe reflexões. É impressionante e desconcertante, desmistificadora e relevadora. Todo mundo conhece a saga, trajetória e tragédia de Getúlio, mas, vê-las fotografadas e filmadas em arquivos pessoais e documentários oficiais “verdadeiros” amplifica nosso entendimento da História.


Roland Barthes ensina que toda foto (e fotograma) carrega consigo sua semiótica, contudo e acima disso, se constitui, sempre, num pedaço de história real capturada, o noema 'está-la' ou 'isto aconteceu'.  Portanto, no material utilizado estão registradas duas coisas: (1) a noticia e o registro do fato como acorreu e (2) a encenação ou adaptação deles pelos ‘produtores de conteúdo’ envolvidos.

É exatamente a evidencia deste descolamento revelador, capturado pelas fotos que nos permite constatar e analisar que ‘há distancia entre intenção e gesto’, e saber quando o samba tropical desafinava.


Estávamos desde muito acostumados com recorrentes e variadas teses, versões e revisões da História. Entretanto, com a eclosão das redes sócias, cada vez mais, vamos aprendendo a 'ler' melhor as fotografias. Rapidamente os 'textões' estão sendo substituídos por imagens variadas e emojis imediatos, devassando tudo. Hoje temos mais treinamento para apreciar e decodificar trabalhos como este que privilegiam registros de fotos e filmes.

Neste termos as ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’, estão sincronizadas com o futuro.  

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Menina do Pátio do Colégio Nº 1


‘A menina do Pátio do Colégio Nº 1’, segundo andar, esquina com a Praça da Sé, pensava que a cidade fosse um imenso carrossel, porque todas as coisas giravam defronte sua janela. Para participar dos grandes momentos da história paulista bastava ir até a calçada, tudo acontecia lá. Nos dias mais quietos, quando a festa amainava, podia andar de velocípede, levar a boneca para passar, brincar de roda ou pique-esconde, usando como base e esconderijos os magníficos postes paulistanos de iluminação (entre os mais belos do mundo).


Talvez ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ possuísse pés sambistas, porque durante os anos 40/50 um dos solos sagrados do samba paulista era no seu quintal. Os engraxates da praça, nas horas vadias, improvisavam rodas de samba batucando nas caixas e latas de graxa. Germano Mathias era mestre, Toniquinho Batuqueiro e Carlão do Peruche conheciam as manhas. No fundo do coração da garotinha ainda deve vibrar acordes sincopados desses improvisos sampistas que o tempo levou, mas a memória guardou.

Para ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ o Edifício Rolim se exibia garboso e altivo na transversal de suas janelas, era seu gigante guardião. O perfil agudo dos terraços e torreta, adornados com requintes e graças catalãs, funcionava como um ponteiro de relógio de sol. Sua sombra precisa e majestosa demarcava todo o percurso do dia. Conforme anúncio no Estadão, em julho de 1930, os ‘advogados, médicos, engenheiros, dentistas e corretores [...] descontentes ou mal situados’ estavam convidados a conhecer as magnificas instalações do novo empreendimento. Projeto do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol, o mesmo do Centro Cultural Banco do Brasil. Quem sabe um dia se torne um point visitável, como o Palacio Barolo de Buenos Aires.

A menina do Pátio do Colégio Nº 1’ garante que o predinho onde morava também tem uma história bonita e digna. Sem ser famoso ou badalado se constitui num registro valioso da paisagem e modus vivendi da classe media paulista na virada do século XIX. Devia ser acarinhado, estudado e preservado.

‘A menina do Pátio do Colégio Nº 1’ leu a bíblia do patrimônio histórico (Bens Culturais Arquitetônicos no Município e na Região Metropolitana de São Paulo) e me contou que se trata de um “edifício contemporâneo aos que Ramos de Azevedo construiu no Pátio do Colégio em 1887, quando aquele espaço urbano foi remodelado, distinguindo-se muito da antiga Praça da Sé, que lhe ficava contígua. Ostenta em sua cimalha a data de 1888 e, pelos pormenores da modenatura, especialmente no que diz respeito à ornamentação em relevo das janelas, conclui-se que o edifício seja igualmente obra do escritório daquele arquiteto paulista. Estava ocupado, no início do século, pela loja de móveis Ao Grande Oriente, fundada em
1889; presume-se que o edifício tenha sido projetado especialmente para ela."



Como gosta de História ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ sabe que S. Paulo entre 1890 e 1960 cresceu quase 70 vezes. De sua janela assistiu os efervescentes festejos do Quarto Centenário, com direito à fantástica chuva de papel picado prateado. Foi o apogeu da corrida da cidade para se tornar a maior megalópole do hemisfério sul. Depois de 1954 – o ponto de flexão da cidade – quando comparamos fotos antigas percebemos que continuamos crescendo (ou inchando), contudo, mais por inércia e descontrole do que por impulso e planejamento. Nossas paisagens, o próprio complexo Praça da Sé / Pátio do Colégio, lembram cada vez mais cenários Blade Runner.

Talvez como Roy Batty – o replicante dúbio do filme, que salva o herói no final – ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ poderia dizer: “Eu vi coisas em que as pessoas não acreditariam.” (n1) O quadro Guernica em todo seu esplendor exposto por quase três meses no Ibirapuera, na Bienal de 53. Intrépidos equilibristas balançando sobre a Praça da Sé em cabos de aço taicoeiros. O choro na Copa de 50 e a exultação na de 58. A inauguração da Catedral de cúpula e torres verde malva. Discursos e manifestações políticas, cívicas e religiosas de todos partidos, tradições e confissões. E muitas coisas mais que extravasam das palavras.

Certamente, ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’, uma dos poucos paulistanos que dividiu com os Jesuítas o endereço: logradouro Pátio do Colégio´, publica – com pleno direito – o Blog PAULISTANA DE CARTEIRINHA  clique  onde relata lembranças, causos e histórias que viveu ou ouviu de sua família na casa extraordinária. Seu Blog sabe que as memórias são efêmeras, "momentos [que] serão perdidos no tempo, como lagrimas na chuva".(n1) Por isso é preciso divulga-las e registra-las. 



(n1) 
Trechos do discuso 'Lágrimas na Chuva' , fala final do Replicante Roy Batty no filme 'Blade Runner, O Calador de Androides' , de 1982.



Gostaria muito de agradecer à SUELY PIEDADE SANTOS – ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ – pela inspiração e luxuosa ajuda que possibilitaram esta crônica.




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Monstro que Veio de S. Paulo


O Horla (Le Horla) é um conto de terror escrito em 1886 pelo francês Guy de Maupassant, considerado um dos maiores contistas da Literatura Ocidental. É apontado como uma das principais fontes do Horror Cósmico e do Movimento Weird, gênero que mistura Terror, Fantasia e Ficção Científica. Influenciou H.P.Lovecraft, Stephen King, o Universo Alien e varias legiões de monstros.

O curioso – macabra honraria – é que no conto ‘Le Horla’ o monstro teve origem na Província de S. Paulo por volta de 1850.

E aqui está, meus senhores, para acabar, um pedaço de jornal que me chegou
às mãos e que vem do Rio de Janeiro. Eu leio: “Uma espécie de epidemia de loucura parece grassar há algum tempo na província de S. Paulo. Os habitantes de
várias aldeias fugiram, abandonando terras e casas e pretendendo-se perseguidos
e comidos por vampiros invisíveis que se alimentam de sua respiração enquanto
dormem e que, além disso, só beberiam água e às vezes leite!”

O Horla Guy de Maupassant (primeira versão – 26/12/1886)

O estrupício, depois de grassar e submeter os paulistas, chegou à França através de uma galera brasileira que, festiva, navegava pelo Rio Sena.


Ah! Ah! lembro-me, lembro-me da bela galera brasileira que passou debaixo das
minhas janelas, subindo o Sena, no dia 8 do passado Maio! Achei-o tão bonito,
tão branco, tão alegre! O ser vinha nele [sic passim], vindo de lá, onde a sua raça
nascera! E viu-me! Viu a minha casa também branca; e saltou do navio
para a margem. Oh! Meu Deus?

O Horla – Guy de Maupassant (segunda versão – 1887)

Bim! Considerando o epistolário jesuíta, não é a primeira vez que atribuem à Cidade de S. Paulo o origem de todos os males.

Intrigado com ‘Le Horla’, este nosso antepassado sampaulista, escrevi um conto imaginando as aventuras do monstro na garoa e neblina da cidade de S. Paulo, com  os estudantes de Direito, bem no meio do Movimento abolicionista.

Se tiverem interesse é só clicar?  O Horla - Origem





sábado, 24 de fevereiro de 2018

Blade Runner 2049 - A Morte e a Morte de Joi


Blade Runner 2049 não recebeu indicação para o Oscar, mas foi o melhor filme do ano. Talvez competindo com Dunkirk, sobretudo por causa do sofisticado andamento jazzístico – de três tempos descompassados  premeditado por Nolan.

Nenhum outro lançamento foi tão visionário, contundente e atual. Nenhum apresentou tantas indagações e questionamentos sobre nosso incerto futuro, compartilhado e dependente de gadgets, com os aplicativos extrapolando os aparelhos e invadindo as ruas e o cotidiano. Nenhum discutiu melhor as alternativas, limites e potencialidades da humanidade.

Visualmente ousado, inovou sobre a arquitetura cyberpunk, decadente, escura, pessimista e disruptiva do BR-19, inspirada nos Filmes Noir. Mostrou o futuro como uma rota de fuga enganosa, corroída e sobrecarregada de erros, lixos e excessos do passado.

Horrível. Arrastado. Genial. Repetitivo. Longo demais. Melhor que o anterior. Todas avaliações são possíveis. Contudo, como não se maravilhar e estarrecer com os subúrbios de Los Angeles, geométricos, fractais e vazios? Replicantes avariados e homens decaídos empilhados em favelas hi-techs? Não se espantar com Las Vegas pós-apocalíptica e deserta, com abelhas guardando escombros da memorabilia americana? Um mundo surtado, alucinado e disfuncional. Além da previsível surpresa de transformar a sensual Rachael na madona de uma nova raça?

Sempre é bom relembrar que BR-49 é uma continuação. Sequências enfrentam problemas, os mesmos das montagens de óperas. Precisam inovar e explorar as possibilidades do tema e do enredo, sem trair demais a música e o livreto. A analogia seria melhor se tivessem reutilizado a trilha original de Vangelis, numa releitura quem sabe.

BR-49 levou cinco estrelas, contou uma história parônima de BR-19. Um caso de amor avassalado por uma investigação com interesses divergentes, conflitos, violências e perigos – como é clichê nos Filmes Noir – reprisando uma paixão entre duas entidades ontologicamente diferentes. As tramas têm similaridades, contudo as tessituras são distintas. Villeneuve é mais espesso e intrincado. Em 2019 o emprenho de Deckard é contido na meta padrão dos detetives: cumprir a missão e ter sossego. Em 2049 o impulso de ‘K’ é a jornada do herói, desvendar sua origem e mudar o mundo.

Entretanto, como BR-2049 é uma sequência, porta o vírus do Filme Noir: gira em torno da femme fatale. Assim, Joi, a omnipresente e cambiante Joi, a aplicativo-heroína da saga, emanada pelas ruas, outdoors luminosos, avatares gigantes e lares tristes, é a personagem mais inspirada do filme, vale a pena acompanha-la em close-up.

As aproximações com Her são inadequadas e desavisadas, o filme de Jonze trata do amor impossível com uma entidade inescrutável, não de uma parceira ou relação capaz de redimir (ou consumir) o homem.

                                          *****     *****     *****
A comparação entre Rachael e Joi comporta muitas estranhezas. A replicante de ‘olhos verdes’ ( Clique ) era única, idealizada como humana perfeita, a dúvida que persistia era se tinha alma ou não. A holograma, ao contrário, não tem corpo, é um aplicativo ultra multiplicado, produzido em série e distribuído para a Terra e outros nove mundos – aparentemente – com o mesmo rosto, funções e características. As questões propostas para a femme fatale tremeluzente são, ao menos, duas. Seria possível amar uma especial entre tantas iguais? A Joi-holograma pode  se rebelar e evoluir? 

Na primeira aparição de Joi é como a ‘Siri’, intrometida, inoportuna, brincando de casinha, dando informações desnecessárias e fazendo sugestões atrapalhadas. Capaz de variar roupas e penteados sem alterar o rosto. Então ganha de presente do ‘K’ replicante o ‘emanador’. Upgrade contido num controle que permite a ela escapar do apartamento, se materializar e acompanhar o namorado em qualquer lugar. Então experimenta a chuva – a recorrente metáfora da saga Blade Runner – e as coisas começam a mudar.

Na participação seguinte, quando ‘K’ descobre os filhos de Rachael, parece que Joi já sabe muito sobre ele. Porque, através do ‘emanador’, pode ouvi-lo e observa-lo o tempo todo, mesmo pausada. Durante a cena de fusão se comporta como uma companheira cúmplice, interessada e ciumenta. ‘Não prefere a sua chefe?’ Comenta que é apenas um aplicativo, simples e binario, feita de ‘1 e 0’s, porém ‘K’, por causa das memorias envolvendo um cavalinho de madeira, pode ser especial, filho unigênito da replicante grávida, nascido de um ventre, um milagre.

Segundo as premissas da Inteligência Artificial, uma entidade é ‘senciente’ quando demonstra consciência, intenções e sentimentos. Todo o discurso de Joi reforçando as arriscadas esperanças do namorado sugere (talvez por se sentir amada) que ela tenha ‘senciência’. Resta a questão: natural e espontânea ou atribuída e programada?

Em outra sequência, no fim do segundo segmento do filme, Joi, lindíssima, com um vestido oriental (homenagem a Meggie Cheung do filme ‘Amor à Flor a Pele’ de Kar-way Wong) recebe Mariette, a prostituta replicante, contratada para ajudar, através do truque da ‘incorporação’, ela e ‘K’ experimentarem a sensação de sexo real.

As falas de Mariette são buracos de minhoca no roteiro, relevam coisas e ligações. Num trecho anterior, quando ouve a som do ‘emanador’ (Pedro e o Lobo de Prokofiev) comenta: ‘Você não gosta de mulheres reais’. Talvez ai – Joi pausada, porém alerta – tenha tido a ideia do ‘ménage à trois’. Depois do encontro com Joi/‘K’, ao partir, Mariette provoca Joi. ‘Eu já estive dentro de você. Não há tanto aí como você pensa’.

No bloco final, na busca por Deckard, Joi, para evitar que suas memorias prejudiquem o parceiro, pede ao namorado para apaga-la da rede/nuvem e baixa-la no ‘emanador’. Mesmo sabendo que, se o ‘controle’ for destruído, ela morrerá. ‘Sim. Como uma garota de verdade’. É um ‘spoiler’, porque Joi é morta pisoteada por Luv, a replicante vilã. Suas últimas palavras, correndo em direção a ‘K’, são intrigantes: ‘Eu te amo’. 

Abre parênteses. O melhor meio de esconder o fundo romântico – que muitos julgam inevitável em qualquer obra de arte – é com discursos racionais. Mesmo em laboratórios extraterrestres Wallace não descobriria porque Raquel engravidou e Joi ganhou consciência. Talvez só o amor explique. Fecha parênteses.

Como ela própria disse, Joi é um conjunto de comandos, uma longa sequência de zeros e uns. Passível de ser baixada da rede/nuvem para um equipamento. Feito uma foto comprometedora, que depois de transitar pela Web, é impossível ter certeza absoluta que já foi apagada. Sempre pode sobrar uma cópia dela em algum lugar inesperado.

Uma boa aposta seria Mariette, que na transa em três colocou um sinalizador no do bolso de ‘K’, o que permite resgatá-lo depois do encontro com Luv. Joi, ou uma versão antiga de Joi, pode subsistir dentro do cérebro replicante de Mariette, que já teve a ‘femne fatale’ dentro dela e sabe que a aplicativo ‘não é tanto quanto pensa que é’.

O filme – exceto pela cintilante reaparição de Rachael – poderia acabar aqui, poque a outra morte de Joi acontecerá na continuação, em dois mil e alguma coisa.


Outros textos sobre Blade Runner 

O Caçador de Androides, o Quarto Chinês e o Teste de Turing




quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Romance Policial – Vício Elegante


Antes da Internet – que só chegou ao povo em 95 – nas cabeceiras das camas dos adictos do vício elegante de ler Romances Policiais sempre havia uma pilha de livros, imprescindíveis para atravessar noites de insônia e madrugadas brancas. Nunca diminuíam, apenas variavam os títulos enfileirados.

Nestas reservas estratégicas (mantenho a minha ativa até hoje) nunca faltavam os clássicos: Georges Simenon, Rex Stout, P.D.James, Mickey Spillane, Ngaio Marsh, Dorothy L. Sayers, edições difíceis finalmente encontradas. Autores mais novos, de floração vária, recém-lançados ou descobertos, também frequentavam o acervo: Patricia Cornwell e a Médica-Legista Dr. Kay Scarpetta, Harry Kemelman e o Rabino David Small, Donna Leon e o Comissário Veneziano Guido Brunetti, John Dunning e policial bibliófilo Cliff Janeway.

Era sempre eletrizante descobrir,  na legião de novos escritores,  os mais exóticos, de outras geografias e sabores: Michel Chabon e o mundo judeu, Andrea Camilleri e o Comissário Salvo Montalbano da Sicília, Manuel Vásques Montalbán e o Detetive (ex CIA?) Pepe Carvalho de Barcelona. Além de Luiz Alfredo Garcia-Rosa e o Inspetor Espinosa, genuinamente cariocas. Conan Doyle e Agatha Christie só entravam no monte para eventuais releituras.

Paulo Francis, o polêmico jornalista, que também era dependente do vício elegante e devia ter seu próprio mocó, escreveu que sempre, pelo mundo afora, era fácil reconhecer seus iguais quando parava defronte as estantes de Policiais nos aeroportos e livrarias. Intuía que os companheiros – além de competidores por um eventual último volume – eram uma classe especial de pessoas, não importava a origem, e que, depois de um whisky, o papo tinha tudo para rolar bem.

Os fãs de Romances Policiais dever ter uma conformação mental singular, apreciam contraposições e cabos de forças: exceções e regras, mundos diferentes e cenários conhecidos, transgressões e ordem, crime e castigo. E, mais  que tudo, desejam compreender os mecanismos que operam tudo isso. Os mestres do gênero adotam e desrespeitas truques que sempre funcionam.

A ‘cor local’. Detalhes, peculiaridades, pequenos segredos, restaurantes, locais típicos, bares, lojas, costumes e gastronomia da região em que acontecem as histórias.

As 'tramas'. Patrícia Highsmith, através de Ripley, inovou na narrativa. Suas histórias são contadas pelo simpático meliante confesso que nos induz a torcer para que seus truques e tentativas de enganar as autoridades e inimigos dêem certo. Interessante abordagem, pena que escreveu apenas cinco novelas.

Os 'personagens excêntricos'. Lembram de Hercule Poirot? Nero Wolfe, o rotundo detetive de Rex Stout, é pior e mais estrambótico. Pesa 150 quilos, preguiçoso, prepotente e presunçoso, orquidófilo fanático, leitor voraz, hedonista gastronômico e glutão. Claustrófobo, jamais saia de casa, seu auxiliar, Archie Goodwin, precisa convencer todos os envolvidos no caso a visita-lo. Gostaria de ver uma boa série da Netflix com ele.

A revista Playboy (minha memória ás vezes me engana) perguntou a varias pessoas quem gostariam de ser no mundo das Artes. Paulo Francis respondeu Nero Wolfe.

Então seriam três – ou uma multidão – porque também quero.