quinta-feira, 25 de julho de 2019

domingo, 7 de julho de 2019

SOZINHO NA ÚLTIMA CEIA


Os museus da Europa vivem lotados, é impossível ver bem e com tranquilidade quaisquer das grandes obras primas, exceto, talvez, a ‘Última Ceia’ de Leonardo da Vinci.

O mais conturbado dos trabalhos de Leonardo não se encontra em nenhum museu, é um afresco imenso pintado na parede do Refeitório da Igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão. Tem 8,80 metros de largura por 4,60 de altura, ocupa uma parede inteira do vasto salão.

A obra pode ser vista confortavelmente por causa do inteligente esquema montado pela igreja mantenedora. São formados grupos de (+-) 15 pessoas que podem permanecer sozinhos 15 minutos dentro do refeitório. Tempo suficiente para uma boa apreciação da fantástica criação do Mestre de Vinci.

Estas precauções são para evitar multidões (como as que visitam a Capela Sistina), a agitação poderia comprometer a fragilidade do afresco, vulnerável às variações de temperatura, iluminação e qualidade do ar.

A visitação é feita em media luz e os ingressos são poucos e precisam ser reservados com muita antecedência. Contudo vale a pena o privilégio de ver aquela maravilha milagrosamente preservada, com cuidado, atenção e vagar. É um dos pontos de torção da representação de imagens. A montagem da cena, com todos os comensais do mesmo lado da mesa, virou um modo de ver as reuniões, adotado pelo Teatro, Fotografia e Cinema.

A pintura tem uma história acidentada, começando pelas inadequadas escolhas técnicas de Leonardo. O salão passou por guerras, foi estábulo, uma porta invadiu o espaço da pintura e os pés dos personagens foram decepados aos longo do tempo. Calamitosas restaurações foram permitidas, mas, ainda continua sublime.

O tamanho da obra de arte é parte importante do efeito que ela pretende produzir. Não adianta ver apenas fotos, reproduções, filmagens, nada substitui a sensação e o prazer de conviver com o original, poder apreciar ao vivo o impacto que a obra provoca. 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

CONTOS DE AUDIOFILIA - eBook

(- audiofilia = ouvir música com equipamentso de alta qualidade -)

Publicado em 2013 em papel (quase esgotado) com um interessante prefacio da Holbein Menezes, o Decano da Audiofilia Brasileira
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15 histórias falando dos excessos, extravagancias e descaminhos das pessoas envolvidas com o hobby da Audiofilia. A vida cotidiana tornada incomum por causa paixão pelos equipamentos de som.
** Três falam do dia a dia dos audiófilos. N’O Céu dos Audiófilos' Deus é convocado para decidir. Em 'Diana Krall Não Tem Culpa' e 'O Bushido de Shobim e o Castelo de Som' Suzette e Inês tentam resgatar os maridos abduzidos pelas delícias da Audiofilia.
** Quatro narrativas tratam dos excessos de amor pelo hobby. 'Wagner Croesus – Uma omissão na História da Audiofilia' é sobre a megalomania sonora. 'O homem que Ouvia ‘Cacos’ conta um caso de perfeccionismo maníaco. 'O Cafofo do Dr. Aluízio' empilha causos, engodos e ambiguidades. 'O Audiófilo da Sala das Esferas' explora bizarrices: quantas pessoas existem dentro de um audiófilo?
** 'Mãe Gracinha de Fúcsia e o ‘Terreiro' da 46th St' e 'Uma sala para Nina Simone' falam das mulheres envolvidas com a Audiofilia.
**  Outro quarteto de contos aborda singularidades da Historia da Música. 'Newton, Handel, a Lady e a Pinga do Alberg'. encontro dos gênios da Física e da Música. ‘Ménage à trois’ com Clara Schumann' imagina dois triângulos amorosos onde a grande pianista é o vértice. ‘Belle de jour’ e ‘A noiva do vento’ sobrepõem Catherine Deneuve, a esposa infiel de Buñuel, e Alma, a esposa de Mahler, num caso de amor juvenil. 'Nexo azul' brinca com os enigmas da produção da histórica gravação de Jazz: A Kind of Blue.
** Por fim 'Buda no Sweet Pont e 'O Inexorável Avanço das Flores de Sal' arriscam enredos extraordinários envolvendo personagens e motivos invulgares magicados pela sutil arte da Audiofia.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

DUNAS - Rachael, Lynch e Villeneuve


O Duna de Villeneuve está sendo refilmado nos desertos da Jordânia, talvez em Petras, a cidade de rochas rosadas erodidas pelo vento que Indiana Jones conheceu. Assim, é um bom momento para rever e revisitar o Duna antigo, de 1984, dirigido por David Lynch. 

Um desastre atrapalhado e esquisito, provocado por desencontros, desacertos e desmedidas. Um gozo anunciado que nunca acontece. Nem a força da belíssima história concebida por Frank Herbert, revivida com um luminoso e competente elenco, com atores experimentes e de comprovada capacidade, consegue salvar o filme inteiro. Uma receita que não deu certo, camarões cozidos com casca de batatas e óleo de rícino. Nem a porção (spice) conseguiria salvar.

Até Sean Young – a Rachael dos 'Blade Runner's de 1982 e 2017 – como Chani, a bela namorada de Paul Atreides, está perdida e esfarelada na produção. Sua beleza já era excepcional, quando entra em cena sempre é o ponto vermelho da mira laser, atrai todos os olhares. Antecipando a replicante perfeita, seu rosto mítico parece compreender e prever tudo. Transmite fragilidade, empatia e solidariedade e sabedoria absoluta, vai alpem do destino do herói e da trama. Mas é atriz de silêncios eloquentes, para sequências de poucas falas, ótima para sugestões e promessas.

Uma princesa de contos de fadas, cujo arco emocional inteiro se resume no beijo.  Certamente faria imenso sucesso como modelo para pintores dos séculos XVIII e XIX.

Um poeta já explicou isso tudo, antes e melhor: “mas a beleza é fundamental”.

terça-feira, 26 de março de 2019

Anarquistas – Um Exercício de Moralidade


Anarquistas – Guerra Civil Espanhola – Um Exercício de Moralidade’.
Era o nome da monografia que escrevi, em maio de 1996, para o Curso ‘História Ibérica I’, do Prof. José Carlos Sebe Bom Meihy, no Departamento de História da USP.

Consegui nota nove e alguns comentários do mestre (publicados junto com a monografia, abaixo).

No trabalho revisitava quatro pontos:
– a Guerra Civil Espanhola como principal e maior conflito de conscientização politica do século XX;
– dificuldades dos acordos firmes entre Anarquistas (libertários, individualistas e moralistas) e Comunistas (movimentos de massas);
– o Anarquismo como uma pulsão endêmica, ou alarme de perigo iminente, que as pessoas têm contra a massificação e excesso de autoridade; e
– presença do Anarquismo na Internet em 1995.

Foi boa ideia abordar a Internet e sondar sua abrangência em maio de 96. Na ocasião fiz duas buscas no ‘AltaVista’ (o Google daqueles dias) com dois argumentos: ‘anarchism’ e ‘spanish civil war’. Refazendo as pesquisas em março de 2019, foi interessante confrontar os resultados (ver acima).
  
Será que na Internet ainda existe espaço para o Anarquismo? Redes Sociais são a estera dos Anarquistas?

Texto completo: Anarquistas – Um Exercício de Moralidade 

Anarquistas - Um Exercício de Moralidade 



quarta-feira, 20 de março de 2019

Casas da Rua Genebra – Tudo pode mudar


A Rua Genebra – que homenageia Dona Genebra de Barros Leite (1783-1836), esposa do Brigadeiro Luís Antônio de Souza – não é longa, tem apenas dois quarteirões, um pequeno, do lado da Câmera Municipal de S. Paulo, e um grande que adentra o Bixiga velho. É cortada pela Rua (antes avenida) Dona Maria Paula (sogra do seu filho).

As casas da foto são renascentes das primeiras décadas do século XX, até os anos 50 ocupavam uma pequena colina do lado impar da Rua Maria Paula e tinham portas ao nível da rua. Porém após a construção do Edifício Planalto (1953) e as intervenções da Prefeitura com melhorias urbanísticas viraram casas suspensas, longe da rua e com difícil acesso. Começou o período de decadência.

Surpreendente, nos últimos dois anos – como mostram as fotos – melhoraram muito. É bom ver S. Paulo criando juízo.

Gostaria de recomendar o artigo ‘As casas suspensas da Rua Genebra’, e agradecer Alexandre Giesbrecht, de quem emprestei a foto antiga.



sexta-feira, 15 de março de 2019

Os 3 Edifícios de Gregori Warchavchic


Para quem conhece, o rosto de S. Paulo tem traços marcantes, feições bem definidas e belezas sutis, austeras e discretas. É fácil gostar e até se apaixonar por ele. Nossa urbe não possui acidentes geográficos espetaculares, até a tímida Colina de Piratininga, razão da fundação da vila, foi aplainada e obliterada pelas ruas e construções. Porém alguns arquitetos souberam inventar, sobrelevar e ressaltar um certo charme e caráter paulistano. 

Foram muitos admiradores, mas, pelo prazer de relembrar, pode-se falar do omnipresente Ramos de Azevedo; Christiano Stockler das Neves e a Estação Júlio Prestes/Sala S.Paulo; Copan e as outras três obras de Niemayer, o casal Siffredi e Bordelli do Hotel Hilton e das Galerias do Rock e Nova Barão; o colorista extravagante Artacho Jurado dos prédios Louvre, Viaduto e Planalto, para ficar no eixo São Luiz/Maria Paula. Dezenas de artistas que estão por aí, nos prédios e nos livros.

Contudo, quem ousou intervir no jeito Belle Époque da jovem e ansiosa metrópole, dando a ela vieses e escândalos modernistas, foi Gregori Warchavchic. Um arquiteto ucraniano, com especialização na Itália, que migrou para Brasil e se casou com uma herdeira Klabin. Seus primeiros projetos foram as três casas modernistas, a da Vila Mariana, Rua Santa Cruz, 325, e as duas do Pacaembu, da Rua Itápolis, 961 e Rua Bahia 1126.

Construídas entre os anos 1928/30 provocaram agito. Eleitas como continuação da Semana de Arte Moderna. Le Carbusier visitou e elogiou a residência da Rua Itápolis. Lúcio Costa convidou o autor para dar aulas na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro.



Warchavchic viveu até 1972, aparentemente ativo, é curioso porém, depois disso tudo – comparado a outros arquitetos paulistas – deixou exígua obra construída, pouco apareceu na paisagem paulista. Além das três Casas Modernistas, projetou algumas poucas residências, a sede do Clube Paulistano e o ginásio do Hebraica. Quanto aos Edifícios, apenas minguados três.

*** 1940 – Edifício Mina Klabin na Avenida Barão de Limeira, 1006 – prédio de 5 andares com um visual ainda moderno, limpo e sóbrio, recebeu o nome de sua esposa.

*** 1953 – Edifício Cicero Prado na Avenida Rio Brando 1703 – uma construção de 21 andares em formato de ‘U’, perto do viaduto sobre a linha de trem. Tem visual diferenciado. Certamente quem já passou por ele se espantou com a sofisticação e ousadia do projeto arquitetônico. Continua uma bela proposta de ‘um outro jeito de morar’, Artacho Jurado aprovaria.

*** 1958 – Edifício Santa Margarida na Rua Martins Fontes 159 – modesto e escondido. Trata-se de um conjunto de dois edifícios interligados com fachadas para as ruas Martins Fontes e Álvaro de Carvalho, com garagens lojas e sobrelojas. Tem linhas neutras e comuns, nada denuncia a ‘paternidade famosa’. 

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Queria agradecer ao Matteo Gavazzi (Estadão), que no artigo ‘Um Warchavchik na Rua Martins Fontes’ despertou minha atenção para esta peculiaridade no portfolio do Gregori Warchavchic.


LInk para o artigo de Matteo Gavazzi

Link para as obras de Gregori Warchavchic