domingo, 15 de março de 2020

CARLOS MELO - 'Contos do Tempo emaranhado'


CARLOS MELO - 'Contos do Tempo emaranhado' 

O Professor Carlos Melo é um excelente Cientista Político, ponderado e rutilante. Docente e Pesquisador do Insper, mantém um blog na UOL e conversa todo sábado (A Semana Política) com Pétrea Chaves na CBN, entre outras coisas. Também é meu amigo fraterno desde a juventude, nossas horas de papos parecem um bolsão de eternidades. Enviei para ele meu último livro, 'Contos do Tempo Emaranhado', a resposta que recebi merece – exige – ser compartilhada, por dois motivos: a expansão do sentido do conto e o faiscante diamante bruto que ele exumou da cultura (dita) polpular para parafrasear o conto 'Paraíso Reconquistado'.

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Salve, Douglas. Vida longa, saúde e alegria. abs.

Toda mulher se pergunta se, após tantos anos, seu marido ainda é o parceiro perfeito. Igualmente, todo o homem também se indaga. Haveria até um tétrico aprofundamento a essa angústia, a esse enigma: será que algum dia esse homem — ou essa mulher — chegou mesmo a ser um(a) parceiro(a) perfeito(a)? Provavelmente, não. No fundo, não. Como já disse alguma canção brega, é “um mundo onde o perfeito não tem vida” — lembro-me, agora, quem o disse foi Barros de Alencar, na sua clássica (e breguíssima) “O Fruto do Nosso Amor”. Mas, na idealização de quem olha para o passado ou para o futuro de uma vida, a questão de Sissa Edo Dahcam persiste: “meu marido (minha mulher) ainda é o parceiro perfeito?”. Não há deste lado da vida — e nem do outro — alguém com a sinceridade fria capaz de responder, com a coragem brutal de simplesmente dizer: “não”. Principalmente, quando o tempo de faze-lo, de algum modo passou! O tempo passa apenas para que justifiquemos nossas escolhas. Meu amigo, só li este, por enquanto. Morri de boa inveja. Queira deus que este não seja seu auge. Mantendo-se assim, realiza desse modo vários dos sonhos que tivemos em juventude. Morto da boa inveja, te digo — não com despeito, mas com orgulho do amigo e de também o ser —, “quando crescer, quero tangenciar essa grandeza”. Bravo. Parabéns.
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Obrigado Carlos por decifrar este conto cheio de ‘easter eggs’. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Contos do Tempo Emaranhado (Lançamento)

Contos do tempo emaranhado
  
                  Diário Macabro Editora 



R$ 32,00
(Correio incluso)

Pedidos por email
dbock@uol.com.br
dbock@paulistando.com.br









'Contos do tempo emaranhado' é um convite para brincar com o cotidiano, romper paredes e olhar por detrás delas. As histórias estão agrupadas em três vertentes diferentes.

Cinco contos estão interligados, exploram a possibilidade de alcançar os paraísos possíveis e desejáveis que moram dentro de nós. Emil Cioram, o intrigante filósofo-estudante da Transilvânia, dizia que a vida é insuportável sem algum tipo de utopia, política ou religiosa. Paraísos e infernos (ou a combinação de ambos) são nossas fantasias prediletas.

Quatro histórias acontecem em 'Sampaulo', uma realidade paralela de S. Paulo. A ideia veio da Psicogeografia (ou Teoria da Deriva), que é um movimento artístico radical proposto nos anos 50 pelo francês Guy Debord. Ela entende que os moradores de qualquer cidade, racional ou emocionalmente, habitam realidades superpostas e diferentes que têm em comum apenas a Geografia. As histórias alternativas confluem com essa proposta.

Cinco outras histórias são instáveis e erráticas, tratam das possibilidades, das paixões e dos perigos de se viver outras realidades, nas quais o prosaico, o maravilhoso, o inesperado e o extraordinário são possíveis, e até desejáveis.



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

5 x Tom Riplay



Patricia HIghsmith está entre meus assassinos intelectuais prediletos. Tenho um time de 5 ou 9 matadores que participam de uma corrida em rodizio, Pat agora está com o bastão por causa da anunciada minissérie que revisitará toda a Ripliad - as cinco novelas com o personagem Tom Ripley.

Depois de uma carreira secreta em HQ (e quase namoro com Stan Lee), rápido virou ícone do cinema. Em 1951 Alfred Hitchcock filmou seu plot ‘Pacto Sinistro' e ela ganhou fama. O primeiro Ripley foi publicado em 1955, em 1960 já migrou para a sala escura. Por cinco vezes o criminoso irresistível e simpático foi transportado paras as telas.

1960 - O Sol por Testemunha / René Clément / Alain Delon
(Plein soleil / Purple Noon)

1977- O Amigo Americano / Wim Wenders / Dennis Hopper
Der amerikanische Freund


1999 O Talentoso Ripley / Anthony Minghella / Matt Damon
(The Talented Mr. Ripley)

2002 - O Retorno do Talentoso Ripley / Liliana Calvani / John Malkovich
(Ripley's Game)

2005 Ripley no Limite / Roger Spottiswoode / Barry Pepper
(Ripley Under Ground)


Não estou com a maioria, mas, desse quinteto agridoce, prefiro o filme de 1999. O velho Malko tem uma caixa de mágicas, combina magnificamente a crueldade amoral e impessoal do herói com sua construída elegância dúbia e sua inquieta inadequação social. A mão de Liliana Cavani é firme e delicada, além de muitas óperas tem na lista ‘O Porteiro da Noite’, uma biografia de São Francisco e uma minissérie sobre a vida de Einstein.

O quinto na minha avaliação é Wim Wenders, apesar do Ripley de chapéu cowboy homenageando James Dean.

Rigorosamente as tramas de Pat Highsmith não são novelas policiais, porque antecipadamente sabemos que o assassino é Ripley. Também, em geral, os crimes acontecem por acaso, oportunidade, necessidade e de forma não planejada. A curtição e fissura é transferida para as peripécias de Tom tentando arranjar as coisas para escapar da cadeia e se dar bem. Sim porque ele sempre se dá bem e despudoradamente torcemos para isso.

Tom Ripley é fora dos padrões, não tem (e nem sente falta) da dimensão moral, sua consciência e adaptável (num dos filmes diz que seus remorsos duram três dias). Contudo não é perverso, tem e respeita uma rigorosa ética pessoal: 
mesmo que de forma retorcida a vítima precisa ter merecido o castigo. Praticar um crime é somente um incidente, um aborrecimento operacional, desses que resolvem definitivamente as coisas. Suas transgressões são como as mentiras sociais que utilizamos no dia a dia. Inevitáveis para evitar longas explicações e fugir da intransigência e grosseria latentes das relações humanas. Ao longo dos filmes acabamos aceitando essa lógica enviesada e concordando com ele. 

A vida é mais porosa do que parece, porque depois de ler o tijolo de 800 páginas - ‘A Talentosa Highsmith’ de Joan Schenkar - ficamos na dúvida quem é mais complexo: a dúbia criatura ou a oscilante criadora. Vamos ver o que dirá a série dirá?

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

10 FILMES SOBRE ARTE E FALSIFICAÇÃO



Gosto de filmes sobre roubos e falsificações de obras de artes, especialmente pinturas. Quase sempre são inteligentes e sofisticados, sempre têm um intrigante nó na trama. Outro dia, conversando com amigos, me desafiaram a fazer a lista dos dez melhores. Falhei miseravelmente, só consegui encontrar nove exemplos que envolvessem roubo e/ou falsificação no enredo. Abaixo a lista, ordenado pela minha apreciação pessoal. Recomendo todos.

1) Thomas Crown, A Arte do Crime (1999) / John McTiernan
(The Thomas Crown Affair)

2) O Melhor Lance (2013) / Giuseppe Tornatore
(La migliore oferta)

3) Minha Obra-Prima (2018) / Gastón Duprat
(Mi obra maestra)

4) Tim's Vermeer / Teller

5) Beltracchi - A arte da Falsificação / Arne Birkenstock
(Beltracchi - Die Kunst der Fälschung)

6) Ripley no Limite (2005) / Roger Spottiswoode
(Ripley Under Ground)

7) Um Golpe Perfeito (2012) / Michael Hoffman
(Gambit)

8) Toda Arte é Perigosa (2019) / Dan Gilroy
(Velvet Buzzsaw)

9) Grandes Olhos (2014) / Tim Burton
(Big Eyes)

Aprecio especialmente as dicas para boas falsificações, são muito úteis, inclusive para a Literatura.  Minha mania tem motivo, estou escrevendo uma série chamada ‘Cartas Possíveis’. São correspondências que poderiam ter acontecido entre dois personagens da História da Literatura. Por exemplo, uma carta de Lovecraft para Borges, outra de Carolina (mulher de Machado de Assis) para Eça de Queiroz e a mais recente, de Ricardo Reis (o heterônomo de Fernando Pessoa) para Mario de Andrade.

Esses filmes estão repletos de boas dicas.

sábado, 5 de outubro de 2019

PARA ENTENDER H.P.LOVECRAFT



H.P. Lovecraft está entre os principais atratores estranhos da Cultura Pop. Em torno dele – e por causa de seu peso – gravitam milhares de obras, franquias e movimentos, em quase todas as modalidades artísticas: Literatura, Jogos Cinema, HQ... Entretanto a verdadeira importância do autor e a vasta abrangência de sua obra não são completamente conhecidos. 

Por causa disso gostei muito do livro Relances vertiginosos do desconhecido: a desolação da Ciência em H.P.Lovecraft. É inovador, destemido e inesperado em dois aspectos decisivos.

Ponto um. O turvo mestre é apresentado considerando o panorama, as referências e as circunstâncias históricas em que viveu e trabalhou, porém nos é mostrado inserido na grande Literatura do início do século XX. Ressaltando que, apesar da maioria de seus escritos terem sido publicados apenas nas revistas pulp fiction que veiculavam a Literatura mais popular de sua época, os questionamentos científicos em seus contos avançam muito mais longe.

Ponto dois. A abordagem de análise do projeto literário do Horror Cósmico, proposto por HPL, se utiliza da mais avançada Filosofia disponível para tratar dos paradigmas, abrangência e limites das Ciências.

No livro, oriundo de uma tese de mestrado, o exame da trajetória de HPL é absolutamente bem documentado. Todos os enunciados e deduções que a autora propõe são amparados por cuidadosas citações de fontes seguras e bem conceituadas.



Assim ficamos sabendo que o Cavalheiro de Providence, mesmo vivendo numa pequena cidade da Nova Inglaterra, opera com questionamentos literários convergentes com as interrogações do magistral poeta T.S.Eliot (Nobel de 48), que, com A Terra Desolada (1922) e Os Homens Ocos (1925), revolucionou a Poesia moderna inglesa. Ambos artistas sentiram o mesmo mal-estar resultante do fim de um ciclo civilizatório. Desconforto que vai resultar na vasta quebra de padrões e ousadias das Artes Plásticas europeias.

Quando a autora discute os objetivos remotos do Horror Cósmico utiliza como guias Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, listados entre as principais balizas da Filosofia da Ciência do século passado.

Não é pouco, nem banal dar conta dessa empreitada. E ainda levamos de brinde duas detalhadas análises de um par de contos do cara: Um sussurro nas trevas e Nas montanhas da loucura.

Curiosamente as duas histórias terminam recomendando cuidado com os limites e responsabilidades da Ciência, não espanta que seja o mesmo alerta com que Wittgenstein – apontado como um dos quatro grandes filósofos do século passado – encerra seu livro mais importante, Tractatus logico-philosophicus, de 1922. “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.

domingo, 7 de julho de 2019

SOZINHO NA ÚLTIMA CEIA


Os museus da Europa vivem lotados, é impossível ver bem e com tranquilidade quaisquer das grandes obras primas, exceto, talvez, a ‘Última Ceia’ de Leonardo da Vinci.

O mais conturbado dos trabalhos de Leonardo não se encontra em nenhum museu, é um afresco imenso pintado na parede do Refeitório da Igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão. Tem 8,80 metros de largura por 4,60 de altura, ocupa uma parede inteira do vasto salão.

A obra pode ser vista confortavelmente por causa do inteligente esquema montado pela igreja mantenedora. São formados grupos de (+-) 15 pessoas que podem permanecer sozinhos 15 minutos dentro do refeitório. Tempo suficiente para uma boa apreciação da fantástica criação do Mestre de Vinci.

Estas precauções são para evitar multidões (como as que visitam a Capela Sistina), a agitação poderia comprometer a fragilidade do afresco, vulnerável às variações de temperatura, iluminação e qualidade do ar.

A visitação é feita em media luz e os ingressos são poucos e precisam ser reservados com muita antecedência. Contudo vale a pena o privilégio de ver aquela maravilha milagrosamente preservada, com cuidado, atenção e vagar. É um dos pontos de torção da representação de imagens. A montagem da cena, com todos os comensais do mesmo lado da mesa, virou um modo de ver as reuniões, adotado pelo Teatro, Fotografia e Cinema.

A pintura tem uma história acidentada, começando pelas inadequadas escolhas técnicas de Leonardo. O salão passou por guerras, foi estábulo, uma porta invadiu o espaço da pintura e os pés dos personagens foram decepados aos longo do tempo. Calamitosas restaurações foram permitidas, mas, ainda continua sublime.

O tamanho da obra de arte é parte importante do efeito que ela pretende produzir. Não adianta ver apenas fotos, reproduções, filmagens, nada substitui a sensação e o prazer de conviver com o original, poder apreciar ao vivo o impacto que a obra provoca. 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

CONTOS DE AUDIOFILIA - eBook

(- audiofilia = ouvir música com equipamentso de alta qualidade -)

Publicado em 2013 em papel (quase esgotado) com um interessante prefacio da Holbein Menezes, o Decano da Audiofilia Brasileira
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15 histórias falando dos excessos, extravagancias e descaminhos das pessoas envolvidas com o hobby da Audiofilia. A vida cotidiana tornada incomum por causa paixão pelos equipamentos de som.
** Três falam do dia a dia dos audiófilos. N’O Céu dos Audiófilos' Deus é convocado para decidir. Em 'Diana Krall Não Tem Culpa' e 'O Bushido de Shobim e o Castelo de Som' Suzette e Inês tentam resgatar os maridos abduzidos pelas delícias da Audiofilia.
** Quatro narrativas tratam dos excessos de amor pelo hobby. 'Wagner Croesus – Uma omissão na História da Audiofilia' é sobre a megalomania sonora. 'O homem que Ouvia ‘Cacos’ conta um caso de perfeccionismo maníaco. 'O Cafofo do Dr. Aluízio' empilha causos, engodos e ambiguidades. 'O Audiófilo da Sala das Esferas' explora bizarrices: quantas pessoas existem dentro de um audiófilo?
** 'Mãe Gracinha de Fúcsia e o ‘Terreiro' da 46th St' e 'Uma sala para Nina Simone' falam das mulheres envolvidas com a Audiofilia.
**  Outro quarteto de contos aborda singularidades da Historia da Música. 'Newton, Handel, a Lady e a Pinga do Alberg'. encontro dos gênios da Física e da Música. ‘Ménage à trois’ com Clara Schumann' imagina dois triângulos amorosos onde a grande pianista é o vértice. ‘Belle de jour’ e ‘A noiva do vento’ sobrepõem Catherine Deneuve, a esposa infiel de Buñuel, e Alma, a esposa de Mahler, num caso de amor juvenil. 'Nexo azul' brinca com os enigmas da produção da histórica gravação de Jazz: A Kind of Blue.
** Por fim 'Buda no Sweet Pont e 'O Inexorável Avanço das Flores de Sal' arriscam enredos extraordinários envolvendo personagens e motivos invulgares magicados pela sutil arte da Audiofia.