terça-feira, 5 de outubro de 2021

2021/0ut/01 – Paraná – Ilha do Mel/Guaraqueçaba

2021/0ut/01 – Ilha do Mel/Guaraqueçaba 

Farol abandonado no Canal da Ilha da Galheta. Passei por ele de barco várias vezes, era altivo, abandonado, solitário e assustador. Revolvi me arriscar, embrenhar no mato para visitá-lo. A trilha era difícil, as vezes se escamoteava, desaparecia, inexistia. Talvez para guardar segredos escuros.

O que incitou minha aventura foi o terrível filme oscarizado ‘O Farol’ (The Lighthouse/2019) de Robert Eggers. Queria entender, sondar um pouco os sentimentos de Willem Dafoe e Robert Pattinson experimentaram, exilados naquela solidão.

No cinema o clima era horrível, com nevascas, vento frio constante e gelo. Eu estava melhor só tinha céu nublado, chuva e frio. Passei meia hora lá, mas deu para vislumbrar os limites de insanidade que os dois heróis da história suportaram.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

2018/set – Sul da Espanha – Arcos e Colunas Mouriscas

 2018/set – Sul da Espanha

Entrando pelo Sul da Espanha, visitando os antigos templos e palácios deixados pelos quase mil anos de ocupação dos emirados e califados mouriscos, a surpresa vai conosco.

Córdoba, Sevilha, Granada e Málaga guardam muitas estranhezas. É interessante observar as sutilezas na utilização dos arcos e colunas na arquitetura árabe. Mais delgados, longilíneos, com tessituras inventivas e elegantes.

Os pilares parecem um mal necessário, estão reduzidos apenas a pontos de sustentação do vão humano. Apoios necessários para separar os emaranhados e intrincados céus muçulmanos do chão onde vivem os homens – repletos de espelhos d’água, defesa contra os desertos na memória.

Uma tessitura que enfatiza o inextrincável mistério do divino. São arcos lobulados, coloridos, variados, libertos e infinitamente recortados, uma forma nova e diferente de conversar com os Deuses.


domingo, 29 de agosto de 2021

2018/set/17 – Córdoba/Espanha – Averroes / Perfume das Laranjas

 2018/set/17 – Córdoba/Espanha


Saí para comprar chip de telefone e encontrei Averroes, toquei no sábio em pedra e juntos ficamos olhando Córdoba. Lembrei do conto de Borges em que o Filósofo passa o dia inteiro tentando entender o significado dos termos aristotélicos ‘tragédia’ e ‘comédia’, sem conseguir. O pleonasmo provocativo do enigmista argentino é narrar as meditações do Filósofo acontecendo enquanto assiste diversas modalidades de representações, tristes e alegres, sem jamais conseguir juntar o conceito à coisa. A velha cisão de Platão.

Sorri silente pensando que a Cultura sempre cria mais enigmas do que resolve.

Por entre as buzinas ouvi a engrolada voz de pedra ressoando:

“Estoy de acuerdo. Sé que leíste 'El nombre de la rosa'. "Rosa", ¿qué tiene que ver este arreglo casual de letras con la flor?

Nada, absolutamente, por Córdoba inteira rescendia e imperava o perfume das laranjas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

25/ago/2018 – Porto Venere / Itália – Porta da Cidadela

25/ago/2018 – Porto Venere / Itália

Porto Venere poderia ser a sexta cidade das ‘Cinque Terre’ o quinteto de antigas e tortuosas praias italianas. Mas era um Importante porto na História Antiga e muito grande e famosa, desbalancearia o sexteto. Lá nasceu Simonetta Vespucci, a musa maior da pintura clássica italiana, um dos nossos paradigmas da beleza feminina  parente do navegador que deu nome à América. Também era o esconderijo predileto de Lord Byron (pai de Ada Lovelace – a cibernética) para curtir a praia, deu seu nome a um poço de águas agitadas onde gostava de mergulhar – as vezes nu.

Contudo, talvez o detalhe mais extravagante dela, seja a principal porta de entrada da cidadela fortificada, que diminuiu três vezes de tamanho. Um exemplo documentado da dolorida adequação entre a ostentação e o medo.

A primeira redução parece pura paura, a segunda e a terceira preservam um pouco do orgulho, na singela talha de pedra dos batentes.


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

2016/mai/25 – Gruyères / Suiça – Escolhendo Armadura

2016/mai/25 – Gruyères / Suiça

O mundo é repleto de inimigos difusos, ocultos, camuflados, encantados, transmutados em aliados. Difíceis de reconhecer.

Sair de casa, entrar no jogo, exige cálculo, estratégia, adivinhação. Todo cuidado é pouco, insuficiente. É preciso ter certeza de escolher a proteção certa, eficiente na defesa e fluida no ataque. E confortável, porque muito da vida é só viver.

Sobretudo que seja fácil de desvestir, porque as vezes a nudez completa é a melhor escolha.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Duas Caminhadas de Mario de Andrade

 Duas Caminhadas de Mario de Andrade


Sempre ouvimos dizer que Mario de Andrade era um incansável caminhante. Lendo a caudalosa ‘Correspondência - Mario de Andrade & Manuel Bandeira’ (EDUSP – Org. Marcos Antonio de Moraes) por duas vezes o missivista paulistano fala de suas longas peregrinações, curiosamente em horários inesperados.

 – O primeiro registro é 29 de agosto de 1928.

“Às 4 e 30 acordei sai, dei uma volta enorme, andei pelo bairro empinado da Casa Verde, eram 8 quando cheguei em casa...”

– A segunda caminhada aconteceu em 13 de julho de 1929.

“No Anhangabaú não se via nada de nada. Só os anúncios e o farol da Ligth circulando. Fui no cinema, vi umas besteiras, sai no meio e fui andando. Quando vi estava no Brás. Então voltei procurando caminhos mais misteriosos, cheguei a ter medo no meio do parque Pedro II, completamente sem iluminação e com alguns ruídos nas moitas. Depois atravessei o bairro turco e só quando esbarrei na estrada-de-ferro, vim me encostando nela até a rua Lopes Chaves.”

Curioso com os relatos do nosso menestrel, apelei para o Google para tentar imaginar os possíveis percursos destas andanças. (vejam mapas na ilustração).

Cada uma das caminhadas – segundo o Google Maps - duraria cerca de uma hora e meia. Um cálculo aproximado certamente, porque as duas cidades, de 1930 e 2021, num lapso de quase 100 anos, tornaram-se completamente diferentes.

Espantosa também era a coragem do nosso Poeta, considerando os horários, será que alguém se arriscaria da repetir sozinho o percurso hoje?

terça-feira, 27 de julho de 2021

Macunaíma – 26 de julho 1928 – 93 anos

 

Publicado em 26 de julho de 1928 (fez aniversário ontem), Macunaíma é uma excepcional rapsódia modernista de Maria de Andrade que revisita diversas tradições folclóricas brasileiras. O fio condutor é um ciclo de lendass dos índios Macuxis, da região do Monte Roraima, sobre o personagem título. Uma entidade importante na história é a arvore que dá todos os frutos, a ‘Dzalaúra-Iegue’. Imensa, pródiga e generosa, que quase toca o céu.

No livro a árvore mágica é transmigrada para S.Paulo, cresce no vasto quintal da casa do gigante Piaimã – comedor de gente - metamorfoseado pelo autor num milionário paulista, Venceslau Pietro Pietra, que roubou sua preciosa ‘muiraquitã’, um amuleto mágico e poderoso.

Mario de Andrade dá o endereço do gigante malévolo: “Venceslau Pietro Pietra morava num tejupar maravilhoso rodeado de mato no fim da rua Maranhão olhando pra noruega do Pacaembu.”

Dois termos estranhos magicam o texto: ‘tejupar’ – choça ou palhoça, uma gostosa ironia para mansão; e ‘noriega’ – ‘terra úmida e sombria na encosta sul de montanha que recebe pouco sol’ (Houaiss), uma curiosa descrição do nosso bairro, chique e antigo.

Vários autores e cronistas apontam a árvore da foto acima (na esquina das ruas Maranhão e Rio de Janeiro) como a fonte de inspiração de Mario de Andrade.

Faz muito tempo procuro esta árvore nas fotos antigas. Minha dúvida é a seguinte: o livro Macunaíma é de 1928 - quase um século atrás. Será que naquele tempo a árvore já era tão grande, capaz de incendiar a imaginação do mestre modernista paulista?