terça-feira, 30 de março de 2021

2020/dez/27– Recife – Carlos Pena Filho

2020/dez/27– Recife

Na última vez que fui em Recife fiz questão de sentar e conversar com o grande poeta Carlos Pena Filho (que vejo pouco mencionado), sobretudo por causa deste poema. Que, depois de lido, deixa dentro de nós um misto de incompletude e estranheza.

Viveu pouco, apenas 31 anos. Outra vez incompletude e estranheza. 

sábado, 20 de março de 2021

2018/set/08 – Sorrento / Italia – Caruso - Máq. do Tempo

Sorrento / Italia – 08/set/2018

Numa noite de sábado em Sorrento, quente, fim de verão, depois do jantar, sai para passear e apreciar o mar. No caminho ouvi música, árias de óperas, vinha da Igreja de São Francisco. Segui o som, entrei no Claustro e fui transportado 100 anos para o passado.

Umas 20/30 pessoas, sob as árvores, acariciadas pela fresca brisa do mar, um século atrás, extasiadas escutam música. A máquina do tempo era a aparelhagem de reprodução utilizada.

Os discos eram aquelas velhos bolachões pretos de 78 rotações, todos de Enrico Caruso, edições originais. Um antigo gramofone a manivela de 1906, chique, com a corneta embutida no móvel, reproduzia o som. O volume era baixo, íntimo, para pequenas salas. Inadequado para as vastas dimensões do pátio interno. Por isso um microfone defronte o alto falante amplificava as músicas para várias caixas acústicas espalhadas em torno da plateia.

No fim da audição fui conversar com Guido D’Onofrio, o audiófilo, para agradecer pela viagem e deixar os cumprimentos do futuro. 

sábado, 13 de março de 2021

2019/ago/14 – Chicago – Nighthawks

2019/ago/14 – Chicago


Depois da imprensa e dos meios de comunicações terem estilhaçado o quadro ‘Nigthhawks’ de Edward Hopper – 1941/42 - em bilhões de versões e variações.

Depois da Internet ter espalhado as imagens e cada bit de informação delas pelos multi-dobráveis mundos fractais virtuais, a pintura virou uma incógnita, uma coleção de mistérios.

Frente a ele parecemos sempre um daqueles leitores do livro de infinitas páginas de Borges, numa sabemos direito em que ponto da trama estamos.

Por isso precisei ir até o The Art Institute of Chicago para poder apreciar a obra apenas como um quadro comum pendurado na parede. Tentei abstrair tudo o que sabia sobre ele para focar apenas num ponto preciso: “o que exatamente a garota de rutilantes cabelos de cobre, vestido vermelho e olhar atento, dúbio e alheio segura na mão”?

Um petisco ou a chave mítica e mística do mundo? Até agora não sei.


terça-feira, 9 de março de 2021

2015/nov/01 – Lisboa – Cômoda de Fernando Pessoa

2015/nov/01 – Lisboa

Cheguei em Lisboa, peguei o bonde, e fui ladeiras acima para casa do Mestre. Queria ver a cômoda onde, ele garante, nasceram seus principais heterônimos e poemas.

Acho que obedecia a uma compulsão que move a maioria dos poetas lusófonos do século XX. Desconfio que somos todos – às vezem sem saber e sem querer - heterônimos dispersos de Fernando Pessoa.

Precavido levei chocolates. Porque – como não há mais Metafísica no mundo - é preciso comer chocolates. Aproveitei para espiar pela janela, mas não vi nem a tabacaria nem Esteves, mesmo assim “gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo” passou a fazer completo sentido.


 

sexta-feira, 5 de março de 2021

2021/fev/27 – Colônia Witmarsum/PR – Realidade Alterada

 2021/fev/27 – Colônia Witmarsum/PR

Na estrada para a Colônia Witmarsum, no miolo do Paraná, protegida por um dossel de árvores (e talvez provocado por elas) existe um túnel dúbio, um campo de realidade alterada. Como aquelas zonas mágicas que cercam a Terra do Nunca, os países e espelhos de Alice, a geografia de Gulliver e o distrito dos Hobbits, avessas ao prosaico e ao normal.

Quando atravessam este vão incerto os automóveis trepidam, os ônibus e caminhões flutuam e as pessoas levantam voos desajeitados e descontrolados. Porque é preciso ajustar as bússolas interiores e realinhar as coordenadas da fantasia para funcionar neste território do faz-de-conta.