domingo, 27 de março de 2016

GAVETA DE SONETOS

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|| 1,2... infinito ||
Os Teóricos Quânticos,
Alquimistas de conceitos e assombros,
afirmam que déjà-vu’s
são hiatos entre universos paralelos.
Espantosos como uma equação
cuja soma de muitos nadas
resultasse em tudos.



terça-feira, 15 de março de 2016

Perfumes do Machado


Publicado como e-book na Amazon



Ao Leitor Paciente

Tinha uns 16 anos quando a grandeza de Machado de Assis foi captada pelo meu radar. Surgiu como um desafio, um professor provocou: “só vai entender direito depois dos 25”. Foi como atear fogo num pavio, comecei a lê-lo imediatamente, parecia a porta de entrada para o mundo dos adultos.

Nunca parei, não sei se já me  tornei adulto, mas ainda passeio regularmente pelas obras completas do nosso gênio da raça. Em especial pelos seus cinco grandes romances. Sempre estou relendo algum deles. De repente – enquanto revisitava
Dom Casmurro – fui tentado pela ideia de um conto. Durante a escritura o projeto evoluiu para uma proposta mais ambiciosa: cinco noveletas curtas recontando as maiores obras do Bruxo.

Desse desatino, homenagem e diversão resultou o livro
'Perfumes do Machado’.

A temerária aventura de retomar as principais histórias de Machado virou um repto com regras rígidas. Os acontecimentos seriam transferidos para S. Paulo, contudo os temas principais (como os percebia) e os inventivos esquemas narrativos do mestre deveriam ser preservados e obedecidos.

Assim,
“Dom Casmurro, in pectore” gira em torno de uma dúvida jamais elucidada. “Quincas Borba IV” conta uma paixão pós 68 atropelada pela ingenuidade política. “mpbc.com” é uma decifração do sentido da vida revelada por emails enviados por um morto. “Isaú+Jacó” e “‘Memory All’ de Aires” estão interligados, têm o mesmo narrador. O primeiro acompanha a trajetória dos gêmeos que vivem o mesmo destino, porém em dois momentos diferentes. O segundo segue as tribulações de uma ‘viúva’, com nome de ópera, que tenta superar os desacertos com o antigo parceiro.

Foi muito bom jogar este jogo e tramar situações inusitadas para recontar as incríveis criações do nosso escriba maior, talvez interessantes, mas, indubitavelmente, sem o mesmo brilho.

Douglas Bock

segunda-feira, 14 de março de 2016

O PASSEIO DAS MUSAS IMPASSÍVEIS


Apesar do nome a ‘Musa Impassível’ é uma deusa inquieta, vive passando por metamorfoses. Inicialmente era um par de sonetos da poetisa Francisca Julia, depois virou uma escultura em mármore de Victor Brecheret, e mais tarde se reinventou como uma estátua de bronze. Talvez valha a pena revisitar as manifestações desta deusa móvel e silente, porque se constituem numa bela saga paulistana.

O emaranhado de lendas que cerca a musa de pedra, com alma de moça séria, é uma mistura de tudo: fofocas, mistérios, dúvidas, palpites. Têm batalhas literárias; morte misteriosa; extremos de fidelidade conjugal; um antigo amor secreto e provas de amizade inquebrantável. Existe até um filme, bonito e bissexto, sobre TOC - Transtorno Obsessivo-Compulsivo, que rouba o nome e homenageia a escultura.

A origem desse universo em expansão é um lindo par de poemas: ‘Musa Impassível’. Sonetos de Francisca Júlia publicados no livro ‘Mármores’ de 1895 (leia abaixo). Foi a partir destes versos que Brecheret concebeu sua musa, em mármore, como sugeria o título do livro.

Francisca Júlia César da Silva Münster viveu 49 anos, de 1871 a 1920 e é considerada a maior poetisa de sua época. Alguns críticos argumentam que o masculino trio de ouro parnasiano (Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira) deveria virar um quarteto misto e incluir Francisca Júlia. A qualidade de seus poemas publicados (60 ±) justifica esta pretensão.

A vida da autora do par de sonetos ‘Musa Impassível’ não é simples, está repleta de tribulações e gestos peremptórios. Falam da fuga de um amor truncado em Cabreúva; da mudança para S. Paulo – Guaianases; de seu exigente rigor artístico; de um casamento por amor sincero com um telegrafista da E. F. Central do Brasil; da solidariedade na doença terminal do marido; da imensa fidelidade conjugal; da recusa a assumir uma cadeira na fundação da Academia Paulista de Letras (condicionou a aceitação à entrada do irmão e parceiro – Jose Cesar da Silva – também poeta). Muitos ouviram a esposa amorosa afirmar que “jamais poria o véu de viúva”. Cumpriu a promessa, foi enterrada um dia depois do marido, acrescentando um possível suicídio ao ciclo de lendas.

Quanto as esculturas, a primeira, a versão em mármore, esculpida por Victor Brecheret, entre 1921 e 23, está exposta na Pinacoteca. A segunda, a cópia em bronze, moldada pelo Liceu de Artes e Ofícios em 2007, enfeita o túmulo da poetisa no Cemitério do Araçá. Ambas as versões são visitáveis. Brecheret conseguiu captar com precisão a entidade evocada pelo poema, que parece representar o alter ego da poetisa, belíssima, altiva e distante.

Plasticamente a figura é estranha, ambígua e desconcertante. Da cintura para baixo mostra uma mulher majestosa e sensual, os véus e drapejados mal conseguem esconder as excitantes formas femininas. O torso, porém, remete a deusa-mãe interditada e a amante ressonhada. Sobretudo por causa dos túmidos seios rompantes e do rosto austero, porém dócil e benevolente. Existe um vão infinito separando estes dois recortes. Um abismo intransponível – intrinsecamente parnasiano – que contrapõe os desejos primitivos à serena busca de sabedoria e elevação.

A musa de mármore ficou 83 anos (de 1923 a 2006) ao relento velando o túmulo de Francisca Júlia no Cemitério do Araçá. Impassível, esquecida e desprestigiada. Aliás, como a obra da poetisa, degredada pela revolução artística proposta pela Semana de Arte Moderna.

Aí aconteceu uma dessas coisas que às vezes evidencia a resiliência do velho espírito paulista e bandeirante. Em 2006, Sandra Brecheret, filha do escultor, resgatou a belíssima obra do pai e começou a promover a recuperação da estátua. Foi montada uma ampla operação multidisciplinar de restauração. (Ver fotos da mudança na SP Antigo - http://www.saopauloantiga.com.br/a-historia-da-musa-impassivel/). A musa, remoçada e renovada, foi abrigada das intempéries num dos pátios da Pinacoteca. Hoje, talvez seja a principal anfitriã daquela instituição.

No túmulo da poetisa – a verdadeira e perene 'Musa Impassível' – foi colocada uma cópia em bronze, mais resistente ao tempo, capaz de enfrentar melhor o avanço da História, exibindo e guardando para o futuro as verdes manchas das saudades.

(1) - MUSA IMPASSÍVEL - Poema de Francisca Júlia

Musa Impassível

I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

Publicado no livro Mármores (1895).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias.
Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196