segunda-feira, 23 de abril de 2018

Kubrick, Co-autor de Danúbio Azul


O filme
‘2001: A Space Odyssey’ completou 51 anos de lançamento, um dos destaques daquela obra divisória foi sua inquietante e inesperada trilha sonora. Talvez nem todos os fãs tenham se apercebido, porém, lá pelos 19:45 minutos, num lance de xadrez pensando por Hal 9000, Kubrick subsume a co-autoria da valsa ‘Danúbio Azul’, anteriormente de Johann Strauss II. Reinventa todos os vetores da música e a relança como um tema para os novos tempos espaciais e cósmicos.

A sequência da apropriação da estação espacial é longa e primorosamente coreografada, dura 5:37 minutos e acontece logo depois do mais famoso ‘match cut’ da História do Cinema. O osso que se transforma em nave. Assim, a mais ousada e abrangente transição temporal jamais concebida serve de insólito introito e veículo para a melodia recomposta por Kubrick. Desde então ressignificada e transfigurada é a preferida para ilustrar astros e artefatos em movimento pelo espaço.


Com Johann Strauss II ‘Danúbio’ Azul’ era uma valsa agitada e sincopada, romântica e majestosa, trepidante, rápida, em crescendo, de tirar o folego. Concebida para o rodopio de elegantes casais em grandes salões de pisos de madeira ou mármore com rosáceas desenhadas. Imperial e clássica. 

Com Kubrick se transforma numa melodia sideral, lenta, atemporal. O melhor e mais adequado acompanhamento para o eterno e infinito bailado dos astros, naves, galáxias, artefatos e até lixo celeste. O som perfeito para traduzir o silêncio e o mistério interestelar.

Depois de ‘2001’, ao ouvir o tema
‘Danúbio Azul’, qualquer pessoa do mundo – exceto os austríacos que o consideram hino afetivo de sua nação – pensa em Kubrick, viagens espaciais e no ritmo da rigorosa mecânica celeste.

Curiosamente, a estreia mundial do
‘Danúbio Azul’ de Johann Strauss II ocorreu 101 anos antes do lançamento do filme ‘2001’, no carnaval de 15 de fevereiro de 1867. Não me espantaria se Stanley Kubrick, que era meio compulsivo, soubesse disso e, em algum momento, tenha imaginado homenagem o centenário da primeira versão da valsa de que se tornaria parceiro.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Bolinhas de Gude e Sistema Solar


Antes de entrar na escola primária, aos sete anos, já jogava bolinha de gude. Naqueles tempos, de vizinhança amistosa e ruas de terra, era impossível evitar ou ignorar os ciclos das brincadeiras infantis: colecionar maços de cigarro e figurinhas, empinar pipas, rodar pião e jogar muito bolinha de gude. Foi através desta brincadeira, quando a professora começou a explicar o Sistema Solar, que ocorreu meu estalo cognitivo.

Dona Ana Maria (tive três ‘tias’ chamadas Ana Maria, foi uma delas) para ilustrar a matéria pendurou imagens dos 
nove planetas e da Lua pela sala. Nos tempos pre-internéticos – de mais leituras e menos figuras – a única referência possível para compreender aquela nova maravilha, esferas imensas girando solenes e eternamente pelo espaço, eram as bolinhas de gude. Daí se estabeleceu para sempre, na minha cabeça, a correlação entre os astros e as 'bulicas'. 

Desde então, do meu balde de bolinhas, de cada nova compra, de toda ‘biloca’ ganha nos jogos de rua, passei a separar aquelas que mais se pareciam com planetas. Tinha sub-coleções de uranos, netunos, jupiteres, martes... Todos os nove mais a Lua. Não deviam ser muito fiéis porque as comparações eram feitas de poucas imagens, muita memória e imensa imaginação. 


Quando descobria nas coleções dos outros garotos alguma ‘bolita’ planetária especial oferecia trocas insanas, três, cinco, sete, dez por aquele tesouro. Os amigos conheciam minha fraqueza e a exploravam impiedosamente. Por uma bolinha de gesso escuro, velha e esburacada que – aos meus olhos – parecia a Lua paguei 17 ‘berlindes’ comuns.

Como fã de gibis de aventuras espaciais – Flash Gordon, Buck Rogers – passava o ano inteiro curtindo o meu sistema solar pessoal e aguardando, ansioso, o começo do 'tempo'  das bolinhas de gude. Aquelas tardes infinitas guardadas nas nossas lembranças de infância em que os jogos só terminavam quando faltava luz do sol. Era o tempo propício para jogar, negociar e aumentar minha coleção extraplanetária.

No meu bairro as principais modalidades do jogo eram circulo, triângulo, estrela, boques e ‘palmo e seca’. Contudo, consultando o Google sobre ‘jogos de bolinhas de gude’ constata-se que a controvérsia é imensa, conturbada e indecidida. Entre as muitas alternativas mencionadas, apenas três alcançam algum consenso – circulo (dos gibis da Turma da Mônica), triângulo e estrela – apesar de sempre comportarem regras divergentes, nomes regionais e inumeráveis variantes. Talvez só seja possível estabelecer regras comuns dentro do mesmo bairro, vila ou rua.

Antes de encerrar estas reminiscências sobre as ‘balebas’ é importante registrar que existe um hiato nas minhas lembranças que muito me inquieta. Apesar das memórias serem, sempre, e cada vez mais, enganadoras e falazes, não me recordo de meninas participando dos nossos jogos de ‘búraca’. O problema é que as minhas amigas coetâneas garantem que eram exímias praticantes do jogo de bolinhas de gude. Todas reivindicam serem muito melhores do que os atrapalhados meninos. Das três uma: ou elas estão mentindo, ou estão me enganando, ou o problema e mais grave, vivo numa extravagante realidade paralela.


Sinônimos de 'bolinha de gude', segundo a Wikipédia:
berlinde, burca, burquinha, baleba, bila, biloca, bilosca, biroca, birosca,
bolita, boleba, bugalho, bulica, burica, cabeçulinha (pronunciada ‘cabiçulinha’),
carolo, clica, fubeca, guelas, peca (pronunciada ‘pêca’), peteca, pilica, pinica,
quilica, tilica e ximbra.



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quinta-feira, 12 de abril de 2018

RELENDO A HISTÓRIA – IMAGENS


O filme ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’ de Eduardo Escorel se estende por 3 horas e 47 minutos. É longo, detalhado, abrangente, em geral precisa de duas sessões para ser apreciado confortavelmente. Contudo vale a pena, algumas das imagens exibidas fervem de novidade, apesar de todo mundo já ter lido sobre elas – como a inopinada queima pública e cívica das bandeiras dos estados brasileiros. O documentário cobre o trânsito completo de Getúlio pelo firmamento brasileiro.

Eduardo Escoriel já está inscrito entre nossos mestres do passado e paradigmas do futuro. Seu filme
‘Lição de Amor’, de 1975, sobre uma novela de Mario de Andrade, é uma obra prima plena de ritmo, interesse, concisão e sugestões. Seu portfólio de trabalhos, mostra que é omnipresente na cena do cinema brasileiro recente. Sobretudo e quietamente é um genial montador.

Por causa da dispersão e escassez de fontes a produção do documentário (
que durou 12 anos) sobre e meteoro Getúlio, muitos deles gastos na coleta de material em acervos brasileiros e estrangeiros (Estados Unidos e Alemanha principalmente), oficiais e particulares. Com tempo e esforço a pesquisa resultou numa conjunto espantoso de imagens, repleto de fotos e filmes inéditos, inesperados e inusitados. Tudo magistralmente editado. Como previsto a versão final veio para mudar, expandir e elucidar o fenômeno do Estado Novo. 

Essa vasta coleção de imagens se nos impõe reflexões. É impressionante e desconcertante, desmistificadora e relevadora. Todo mundo conhece a saga, trajetória e tragédia de Getúlio, mas, vê-las fotografadas e filmadas em arquivos pessoais e documentários oficiais “verdadeiros” amplifica nosso entendimento da História.


Roland Barthes ensina que toda foto (e fotograma) carrega consigo sua semiótica, contudo e acima disso, se constitui, sempre, num pedaço de história real capturada, o noema 'está-lá' ou 'isto aconteceu'.  Portanto, no material utilizado estão patenteadas e registradas duas coisas: (1) a noticia e as imagens do fato como acorreu e (2) a encenação ou adaptação deles pelos ‘produtores de conteúdo’ envolvidos na época.

É exatamente a evidencia deste descolamento revelador, capturado pelas fotos que nos permite constatar e analisar que ‘há distancia entre intenção e gesto’, e saber quando o samba tropical desafinava.


Estávamos desde muito acostumados com recorrentes e variadas teses, versões e revisões da História. Entretanto, com a eclosão das redes sócias, cada vez mais, vamos aprendendo a 'ler' melhor as fotografias. Rapidamente os 'textões' estão sendo substituídos por imagens variadas e emojis imediatos, devassando tudo. Hoje temos mais treinamento para apreciar e decodificar trabalhos como este que privilegiam registros de fotos e filmes.

Neste termos as ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’, estão sincronizadas com o futuro.  

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1


A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, segundo andar, esquina com a Praça da Sé, pensava que a cidade fosse um imenso carrossel, porque todas as coisas giravam defronte sua janela. Para participar dos grandes momentos da História Paulista bastava ir até a calçada. Tudo acontecia lá. Nos dias mais quietos, quando a festa amainava, podia andar de velocípede, levar a boneca para passear, brincar de roda ou pique-esconde, usando como base e esconderijos os magníficos postes paulistanos de iluminação (entre os mais belos do mundo).


‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ quem sabe possua pés sambistas, porque durante os anos 40/50 um dos solos sagrados do samba paulista era no seu quintal. Os engraxates da praça, nas horas vadias, improvisavam rodas de samba batucando nas caixas e latas de graxa. Germano Mathias era mestre, Toniquinho Batuqueiro e Carlão do Peruche conheciam as manhas. No fundo do coração da garotinha ainda deve vibrar acordes sinuosos desses improvisos sambistas que o tempo levou, mas a memória guardou.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ achava que o Edifício Rolim, exibindo-se garboso e altivo na transversal de suas janelas, era seu gigante guardião amigo. O perfil agudo dos terraços e torreta, adornados com requintes e graças catalãs, funcionava como um ponteiro de relógio de sol. Sua sombra precisa e majestosa demarcava todo o percurso do dia. Era um 'hit', conforme anúncio no Estadão, em julho de 1930, os ‘advogados, médicos, engenheiros, dentistas e corretores [...] descontentes ou mal situados’ estavam convidados a conhecer as magnificas instalações do novo empreendimento. Projeto do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol, o mesmo do Centro Cultural Banco do Brasil. Quem sabe um dia se torne um point visitável, como o Palácio Barolo de Buenos Aires.

A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ garante que o prediozinho onde morava também tem uma história bonita e digna. Sem ser famoso ou badalado se constitui num registro valioso da paisagem e modus vivendi da classe media paulista na virada do século XIX. Devia ser acarinhado, estudado e preservado.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ leu a bíblia do patrimônio histórico (Bens Culturais Arquitetônicos no Município e na Região Metropolitana de São Paulo) e me contou que se trata de um “edifício contemporâneo aos que Ramos de Azevedo construiu no Pátio do Colégio em 1887, quando aquele espaço urbano foi remodelado, distinguindo-se muito da antiga Praça da Sé, que lhe ficava contígua. Ostenta em sua cimalha a data de 1888 e, pelos pormenores da modenatura, especialmente no que diz respeito à ornamentação em relevo das janelas, conclui-se que o edifício seja igualmente obra do escritório daquele icônico arquiteto paulista. Estava ocupado, no início do século, pela loja de móveis 'Ao Grande Oriente', fundada em 1889; presume-se que o edifício tenha sido projetado especialmente para ela."


‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, como gosta de História, sabe que S. Paulo entre 1890 e 1960 cresceu quase 70 vezes. De sua janela assistiu os efervescentes festejos do Quarto Centenário, com direito à fantástica chuva de papel picado prateado. Foi o apogeu da corrida da cidade para se tornar a maior megalópole do hemisfério sul. Depois de 1954 – o ponto de flexão da cidade – quando comparamos fotos antigas percebemos que continuamos crescendo (ou inchando), contudo, mais por inércia e descontrole do que por impulso e planejamento. Nossas paisagens, o próprio complexo Praça da Sé / Pátio do Colégio, lembram cada vez mais cenários Blade Runner.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, talvez como Roy Batty – o replicante dúbio do filme, que salva o herói no final – poderia dizer: “Eu vi coisas em que as pessoas não acreditariam” (n1). Vi intrépidos equilibristas balançando sobre a Praça da Sé em cabos de aço traiçoeiros. O choro na Copa de 50 e a exultação na de 58. A inauguração da Catedral de cúpula e torres verde malva. Discursos e manifestações políticas, cívicas e religiosas de todos partidos, tradições e confissões. E muitas coisas mais que muito extravasam das palavras.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ certamente é um dos poucos paulistanos que dividiu com os Jesuítas o endereço nobre e histórico: 'logradouro Pátio do Colégio´, por isso publica – com pleno direito – o Blog PAULISTANA DE CARTEIRINHA  clique  onde relata lembranças, causos e histórias que viveu ou ouviu de sua família, moradora daquela casa extraordinária. Seu Blog sabe que as memórias são efêmeras, "momentos [que] serão perdidos no tempo, como lagrimas na chuva" (n1). Por isso é preciso divulga-las e registra-las. 



(n1) 
Trechos do discuso 'Lágrimas na Chuva' , fala final do Replicante Roy Batty no filme 'Blade Runner, O Caçador de Androides' , de 1982.



Gostaria muito de agradecer à SUELY PIEDADE SANTOS – ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ – pela inspiração e luxuosa ajuda que possibilitaram esta crônica.