segunda-feira, 23 de abril de 2018

Kubrick, Co-autor de Danúbio Azul


O filme
‘2001: A Space Odyssey’ completou 51 anos de lançamento, um dos destaques daquela obra divisória foi sua inquietante e inesperada trilha sonora. Talvez nem todos os fãs tenham se apercebido, porém, lá pelos 19:45 minutos, num lance de xadrez pensando por Hal 9000, Kubrick subsume a co-autoria da valsa ‘Danúbio Azul’, anteriormente de Johann Strauss II. Reinventa todos os vetores da música e a relança como um tema para os novos tempos espaciais e cósmicos.

A sequência da apropriação da estação espacial é longa e primorosamente coreografada, dura 5:37 minutos e acontece logo depois do mais famoso ‘match cut’ da História do Cinema. O osso que se transforma em nave. Assim, a mais ousada e abrangente transição temporal jamais concebida serve de insólito introito e veículo para a melodia recomposta por Kubrick. Desde então ressignificada e transfigurada é a preferida para ilustrar astros e artefatos em movimento pelo espaço.


Com Johann Strauss II ‘Danúbio’ Azul’ era uma valsa agitada e sincopada, romântica e majestosa, trepidante, rápida, em crescendo, de tirar o folego. Concebida para o rodopio de elegantes casais em grandes salões de pisos de madeira ou mármore com rosáceas desenhadas. Imperial e clássica. 

Com Kubrick se transforma numa melodia sideral, lenta, atemporal. O melhor e mais adequado acompanhamento para o eterno e infinito bailado dos astros, naves, galáxias, artefatos e até lixo celeste. O som perfeito para traduzir o silêncio e o mistério interestelar.

Depois de ‘2001’, ao ouvir o tema
‘Danúbio Azul’, qualquer pessoa do mundo – exceto os austríacos que o consideram hino afetivo de sua nação – pensa em Kubrick, viagens espaciais e no ritmo da rigorosa mecânica celeste.

Curiosamente, a estreia mundial do
‘Danúbio Azul’ de Johann Strauss II ocorreu 101 anos antes do lançamento do filme ‘2001’, no carnaval de 15 de fevereiro de 1867. Não me espantaria se Stanley Kubrick, que era meio compulsivo, soubesse disso e, em algum momento, tenha imaginado homenagem o centenário da primeira versão da valsa de que se tornaria parceiro.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Bolinhas de Gude e Sistema Solar


Antes de entrar na escola primária, aos sete anos, já jogava bolinha de gude. Naqueles tempos, de vizinhança amistosa e ruas de terra, era impossível evitar ou ignorar os ciclos das brincadeiras infantis: colecionar figurinhas e maços de cigarro, empinar pipas, rodar pião e jogar bolinha de gude. Foi através desta brincadeira, quando a professora começou a explicar o Sistema Solar, que ocorreu meu estalo cognitivo.

Dona Ana Maria (tive três ‘tias’ chamadas Ana Maria, foi uma delas) para ilustrar a matéria pendurou imagens dos 
nove planetas e da Lua pela sala. Nos tempos pre-internéticos – de mais leituras e menos figuras – a única referência possível para compreender aquela nova maravilha, esferas imensas girando solenes e eternamente pelo espaço, eram as bolinhas de gude. Daí se estabeleceu para sempre, na minha cabeça, a correlação entre os astros e as 'bulicas'. 

Desde então, do meu balde de bolinhas, de cada nova compra, de toda ‘biloca’ ganha nos jogos de rua, passei a separar aquelas que mais se pareciam com planetas. Tinha sub-coleções de uranos, netunos, jupiteres, martes... Todos os nove mais a Lua. Não deviam ser muito fiéis porque as comparações eram feitas de poucas imagens e muita memória. 


Quando descobria nas coleções dos outros garotos alguma ‘bolita’ planetária especial oferecia trocas insanas, três, cinco, sete, dez por aquele tesouro. Os amigos conheciam minha fraqueza e a exploravam impiedosamente. Por uma bolinha de gesso escuro, velha e esburacada que – aos meus olhos – parecia a Lua paguei 17 ‘berlindes’ comuns.

Como fã de gibis de aventuras espaciais – Flash Gordon, Buck Rogers – passava o ano inteiro curtindo o meu sistema solar pessoal e aguardando, ansioso, o começo do 'tempo'  das bolinhas de gude. Aquelas tardes infinitas guardadas nas nossas lembranças de infância em que os jogos só terminavam quando faltava luz do sol. Era o tempo propício para jogar, negociar e aumentar minha coleção extraplanetária.

No meu bairro as principais modalidades do jogo eram circulo, triângulo, estrela, boques e ‘palmo e seca’. Contudo, consultando o Google sobre ‘jogos de bolinhas de gude’ constata-se que a controvérsia é imensa, conturbada e indecidida. Entre as muitas alternativas mencionadas, apenas três alcançam algum consenso – circulo (dos gibis da Turma da Mônica), triângulo e estrela – apesar de sempre comportarem regras divergentes, nomes regionais e inumeráveis variantes. Talvez só seja possível estabelecer regras comuns dentro do mesmo bairro, vila ou rua.

Antes de encerrar estas reminiscências sobre as ‘balebas’ é importante registrar que existe um hiato nas minhas lembranças que muito me inquieta. Apesar das memórias serem, sempre, e cada vez mais, enganadoras e falazes, não me recordo de meninas participando dos nossos jogos de ‘búraca’. O problema é que as minhas amigas coetâneas garantem que eram exímias praticantes do jogo de bolinhas de gude. Todas reivindicam serem muito melhores do que os atrapalhados meninos. Das três uma: ou elas estão mentindo, ou estão me enganando, ou o problema e mais grave, vivo numa extravagante realidade paralela.


Sinônimos de 'bolinha de gude', segundo a Wikipédia:
berlinde, burca, burquinha, baleba, bila, biloca, bilosca, biroca, birosca,
bolita, boleba, bugalho, bulica, burica, cabeçulinha (pronunciada ‘cabiçulinha’),
carolo, clica, fubeca, guelas, peca (pronunciada ‘pêca’), peteca, pilica, pinica,
quilica, tilica e ximbra.



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A Bússola e as Pipas

sábado, 14 de abril de 2018

CONVERSAS TRANSVERSAS


[...]
São Paulo – 17 / Julho / 2019
|| GOLD – MINA DE OURO SERRA PELADA / SESC PAULISTA ||
Já sabemos como fabricar infernos e convocar condenados para suporta-los.
É impossível olhar as fotos de Sebastião Salgado e não lembrar das ilustração de Gustave Dorê para o Inferno de Dante.
O pior, o arrepio de espanto, é lembrar que as pranchas eram imaginação, mas as fotografias são verdadeiras.
“Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança..."


São Paulo – 07 / Julho / 2019
||  Parceria Parônima com Paulo Bomfim  ||
Sou leitor de Paulo Bonfim e, às vezes, nas minhas caminhadas sigo seus passos nas crônicas desta 'Insólita Metrópole'. Converso com ele sobre as metamorfoses desta nossa paulicéia trepidante, louca e desvairada.
Suas poesias eram perfeitas, longamente pensadas, tinham o preciso peso e medida dos paulistas de antes dos anos cinquenta.

Como cronista tinge tudo de saudade, nos relembra de como era a cidade antes do gigantismo desenfreado.

Coimbra – 27 / set / 2015

Em Coimbra visitei a Quinta das Lágrimas, queria conversar com a Rainha em ossos coroada. Não encontrei a ‘linda Inês, posta em sossego’ de Camões, e, menos ainda, a inquieta ‘linda Inês, nunca em sossego’ de Jorge de Lima.
Resolvi aguarda-la na Fonte das Lágrimas que deságua no Mondego e nasceu do choro da Rainha executada. De repente eclodiu deslumbrante uma terceira manifestação dela, junto com um verso. ‘Estavas, ígnea Inês, envolta em chamas’. Por isso me ocorreu esta pergunta.

“– Rainha cambiante que viveu uma paixão que atravessa a morte. O amor verdadeiro é chama ou brasa?”
Antes de responder me olhou magicada, e o fogo da lembrança dela permanece dentro de mim.
 As labaredas se apagam e as brasas viram cinza. O verdadeiro amor é o calor que emana do coração e aquece a alma, porque, depois, o espírito fica pra sempre incandescente.”
Não se surpreendeu a amplitude da resposta, as musas sempre sussurram o impensável.


Wittenberg - Lutherstadt – 17 / set / 2017

Em Setembro de 2017 visitei Wittenberg / Lutherstadt, a cidade estava festiva, comemorava 500 anos das 95 teses contra as Indulgências que Martin Luther havia pregado na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, o inicio da Reforma Protestante.
Andando pela cidade passei pela casa de Johann Faust – Astrólogo e Alquimista. Como os tempos modernos andam conturbados resolvi consulta-lo. Tímido não se deixou fotografar. Anunciei minha encomenda.
“– Doktor Faust quero comprar um pouco de `Pó de Paciência’.”
“– Não mercadejo, não possuo temperamento sórdido. Posso apenas instruí-lo no preparo.”
Mesmo temente de nova repreensão ousei perguntar.
“– De quais elementos vou precisar?”
“– Quaisquer. Pode usar o que quiser. O único componente imprescindível é o Tempo. Precisa moer por 700 dias, prazo para suas ansiedades virarem poeira.
Agradeci, Herr Doktor não me acompanhou até a porta.


Aix-en-Provence – 29 / set / 2016

Muita vez Cezanne – teimoso, porém ainda não famoso – saia para caminhar, voltava com uma nova pintura do Mont Sainte-Victoire, juntou 60 telas. Numa das manhãs resolvi acompanha-lo, era difícil, marchava apressado.
Durante o percurso em aclive, sem fôlego, perguntei:
“– Porque pinta tanto o Sainte-Victoire?”
“– Não pinto a monte, pinto o Tempo. Me fascina, desafia e amedronta como ele transforma tudo, nós e a montanha.”
Fiquei calado, a dúvida havia se expandido epistemologicamente.
“– Gosto de olhar as telas pintadas para lembrar como eu era ontem. Para combater o Tempo todo dia invento um jeito novo de pintar.”
Aderi à inquietação do pintor, menos talentoso, comecei a colecionar fotografias.


Paris – 10 / out / 2016

Nas Catacumbas sob Paris me detive para conversar com os companheiros de viagem, não conhecia nenhum deles, mas sabia que tínhamos o mesmo destino.
Fiz a pergunta óbvia – é inescapável, nas conversas com grupos fazemos sempre as perguntas óbvias.
“– Como é a coisa na hora do salto?”
Responderam num coro dessincronizado.
“– Não dá para explicar, para cada um é diferente.”
Persisti, com outra pergunta óbvia.
“– E como são as coisas do outro lado?”
Responderam de novo em uníssono, agora mais afinados (o treito é tudo).
“– Não sabemos, ainda estamos no meio do salto. E talvez nunca acabe.”
Calei a boca, o silêncio ulula menos do que o obvio.


Córdoba – 19 / set / 2018

Em Córdoba procurei Moisés Maimônides para conversar, ele nasceu lá. Admiro demais o filosofo/teólogo/medico que no escuro Século XII elaborou a mais sábia síncrese - análise - síntese das culturas judia, árabe e greco-romana. Talvez seu único deslize seja a prepotência de sua frase tumular:
 – “De Moisés a Moisés [nome de Maimônides], nunca houve ninguém como Moisés." 
Me aproximei e perguntei: 
“– Mestre Maimônides, depois de quase 8 séculos não acha excessivamente vaidosa sua comparação”?
– Não, de jeito nenhum. Eu fiz a prova sozinho, Deus soprou para o meu xará.”
Fiquei perplexo. Ele continuou.
“– Pela sua cara já está pronto para ler meu mais famoso livro: Guia dos Perplexos".
Fui procurar uma livraria.


Amsterdan – 22 / set / 2014

Fui visitar Chet Baker onde acabou sua caminhada. 13/maio/1988, Prints Hendrik Hotel, Centro de Amisterdan. Jogou-se (ou foi jogado?) do segundo andar.
Um trompetista maior e um cantor extrínseco à arte do canto, suaves sussurros. O provável modelo de João Gilberto.
Igual a todo mundo queria perguntar sobre o ato final, mas me contive. Troquei de pergunta.

“– Posso ficar ouvindo você e a praça cantado 'My Funny Valentine'?
“– Ok, então vamos cantar a versão do disco ‘Sings’ de 1954.” 
Foram apenas 140 segundos, 2,20 minutos e uma voz temperada com tudo o que de bom e ruim pode um homem expressar e experimentar. Um controlado ímpeto em busca da beleza sutil.
Parti alguns segundos antes do fim para que sua (dele) voz permanecesse na minha memória para sempre.


Bixiga – 17 / jun / 2018

Adoniram e eu gostamos da S. Paulo de cachecol, e do italiano mais milanês, por isso preferimos nos esbarrar por aí no inverno.
Não me agrada o Adoniran mito, logomarca, tatuagem, de chapeuzinho de aba curta e olhar paralisado. Prefiro trombar com ele por aí paulistando, namorando a cidade. A última vez foi no viaduto Major Quedinho.
“– Olá Adoniram passei uma tarde linda, num bar ouvindo você e vendo o por do sol em Florença”.
“– Sei disso. É preciso ir cada vez mais longe para me ouvir”.
Implícito, concordei com ele.
“– ‘Porque as rádios não tocam meus sambas? Por quê? Algum crime que fiz?’ (do CD Documento Inédito)”.
“– Pois é Charutinho (conheci Adoniran com este nome), nem o ‘Arnesto’ 
 aquele que convida p´ro samba mas não espera – sabe explicar”.
Nos afastamos pensativos, cruzei com uma garota com um ‘Adoniram’ tatuado na bunda. Não evocava nada, era um signo descolado de significado, um enfeite copiado, feito um clip na alça da blusa.

Frankfurt – 4 / set / 2017

Herr Johann Wofgang von Goethe é ícone da cultura germânica e mundial. Sabe disso e gosta de se exibir. Plural habita a casa de Frankfurt – onde nasceu e cresceu – replicado em bustos e quadros. Escolhi o mais elegante para conversar.
“– Herr von Goethe por que os alemães tem compulsão pela aventura de Fausto?”
“– Acho que temos excesso de coração e razão, somos exagerados e desgovernados. Jamais conseguimos harmonizar os dois. Ouvimos demais o Diabo da desmedida dentro de nós, cultivamos uma alucinação racionalizada.”
Era muita coisa para processar no hiato inter falas, permaneci calado.
“– Ouvimos pouco nosso coração. Meu Fausto não aproveitou o perfume da sua Margarida. O Fausto de Thomas Mann ficou receoso com as cintilações da cigana Esmeralda.
Agradeço a Herr von Goethe por aceitar brincar de tartaruga comigo.



Florença – 29 / ago / 2018

Entrei no ‘Museo Galleria dell'Accademia di Firenze’ com destino certo: conversar com o David original, aquele tocado por Michelangelo.
Encontrei um garoto enorme, cinco metros de altura, vestindo apenas sua própria pele. Olhava o futuro com serenidade, curiosidade, confiança e, sobretudo, sem pressa. Nenhuma perplexidade alterava sua face.
“– Tenho um par de perguntas, posso?”
Ele balançou a cabeça, vagarosamente.
“– Nunca temeu o gigante Golias?”
“– Não. O próximo passo é inexorável, não depende mais de nós, é resultado do percurso que traçamos. Olhar para trás é retroceder, procurar erros impossíveis de serem corrigidos.”
A outra pergunta. “– Por que você fala e suas cópias não. E só falo com ‘davids’ do seu tamanho. São mudos?”
“– Durante o processo da talha, eu, meu criador e o pastorzinho antigo nos emaranhamos quanticamente. Hoje a pedra, o artista e o pastor hebreu são a mesma coisa, viramos uma singularidade cultural, um episódio mental, um evento da inteligência. Somos todos emanações do universo comum que compartilhamos.”
Silêncio.
“– As cópias são apenas replicações ocas das carências humanas. Volta ao passado.”

Buenos Aires – 27 / jan / 2016

Abaporu vai passar uma temporada no MASP, pretendo visita-lo. Lembro da nossa última conversa no MALBA, parecia muito bem instalado, era um dos destaques, mas estava triste e macambúzio. Conversamos em tons grises. Brinquei.
“– Porque esta perna não longa?”
“– Aquí sólo puedo hablar en español.”
Traduzi a pergunta.
“– ¿Por qué esta pierna tan ancha?
“– Para, cuando lo permitan, ir corriendo a Brasil.
“– ¿Por qué ese brazo tan robusto?
“– Para dar muchos abrazos a los brasileños que vienen a visitarme?
“– ¿Por qué esa cabecita tan pequeñita y triste?
“– Estoy aburrido y con nostalgia. Quiero volver a Brasil. Mis colores son para sambas, no para tangos.”

Ficamos em silêncio por muito tempo. Quando parti fiz sinal de positivo. Ele não respondeu, talvez porque lhe falte o polegar.


Bonn / Alemanha – 07 / set / 2017


Na casa de Beethoven em Bonn tivemos uma conversa telepática, porque ele é surdo e não é recomendável gritar dentro de museus.
“– Mestre, quando ouço a Terceira Sinfonia imagino o Allegro da abertura como um rodamoinho descontrolado passeando pela História.”
“– Não é a pior imagem, porque quase sempre é um idiota que segura as rédeas da História. Por isso tive que mudar o nome dela."
O silencio telepático do Ludwig era em adagio lento, feito a Canção Lídia do Quarteto 132.
“– Na nossa vida também nem sempre é a melhor parte de nós que está no comando.”
Depois disso ficou mudo, como a pedra de que era feito.


Leipzig / Alemanha – 19 / set / 2017

Ontem  ouvindo Bach no Festival de Inauguração do Órgão Grenzing na Catedral Evangélica de S.Paulo na Rua Nestor Pestana (fotos abaixo), embalado pela música fantástica lembrei da conversa que tive com o compositor-organista em Leipzig, onde ele descansa.
“– Perdão Mestre. O órgão é a melhor maneira de conversar com Deus?”
“– O homem não conversa com Deus, apenas fala com Deus, que nunca nunca responde, mas às vezes – Ele ou o acaso – parecem agir.”
Fiquei quieto, temi questionar, esperei que continuasse.
“– Eu gostava de falar com Ele através do órgão, Paganini preferia o violino, Jacqueline Du Pré o cello, Jimi Hendrix a guitarra.”
“– Os tempos modernos estão confusos. O homem fala com Deus, mas tenta ouvir os Ets.”
Não consegui pensar numa resposta adequada, deixei uma flor sobre a lápide.



MASCARAS E ÍCONES DO MUNDO

Frankfurt / Alemanha – 5 / set / 2017
Andando pelos corredores do Museu Städel em Frankfurt encontrei Simonetta Vespucci, talvez a mais bela top model da Renascença. Estava meio entediada de ficar naquela sala, olhando para o nada, resolvi puxar conversa.
“- Já encontrei você em vários lugares, sempre alheia e cada vez mais bela.”
“- Se gosta de museus, com certeza, estou em muitas paredes, ou alguém muito parecida comigo. Tive amigos que gostavam de me pintar. N’O Nascimento de Vênus’ - duas vezes - como a Flora e como a deusa”; também em excessivos retratos de mulheres e personagem da História, nem lembro mais quantos.”
“- De qual mais gosta?”
“- Sem dúvida daquela ‘Cleópatra’ de Piero de Cosimo, um artista estranho. Me arrepia e excita aquela serpente enrolada no pescoço.”
Antes de falar censurei Piero, panaca, devia te-la usado como modelo da virgem do MASP.  
“- Você posava para eles?”
“- Nunca. Tudo que viu são elogios ousados da imaginação e desejo deles. me homenageando.”




Borges - Genebra / Suíça – 24 / maio / 2016
Numa tarde de terça-feira de maio de 2016 fui visitar Borges em Genebra. Apesar de imortal, agora, passa todo o tempo neste jardim – perto de Jean Calvin, que frequenta o lugar faz muito mais tempo. Ouviu meus passos se aproximando e levantou a cabeça, estava com os olhos fechados, mais isso não mudava nada. Perguntei:
“- Jorge como é possível entender a América do Sul?”
“- Passei muito tempo lá, porém não aprendi, somos todos exilados com saudades da Europa, África, Oriente...”
“- Veja na Literatura de vocês, ‘A canção do Exílio’ é um dos maiores poemas”
“Então não existe chave para entendê-la?”
“-Talvez a resposta esteja no mapa do subcontinente. Parece um redemoinho fascinado pela Europa, mas com um frágil fio de comando ligado nos Estados Unidos.”


CCBB-SP / Exposição Paul Klee – 20/março/2019
Uma das melhores tardes que tenho na memória passei no ‘Zentrum Paul Klee’, nos arredores de Berna. Três pavilhões ondulados que se mimetizam com as colinas em torno para melhor se encaixar na paisagem. A família do pintor guarda lá algumas centenas de milhares de obras do artista. Tesouros belíssimos, frágeis e delicados como corais e bolhas de sabão.
Passeando nesta longa alameda arenosa curtimos o perfil da cidade da Relatividade de Einstein e o tempo se alonga e quase para, o dia pode durar semanas.
Na Exposição de Paul Klee no CCBB-S.Paulo, parei defronte uma fotografia tamanho natural do velho mestre, tomado pela esclerodermia, e comentei.
- Paul, achei triste a ‘Fênix Idosa’ (detalhe), porque desenhou?
- Ela é mais completa, plena e feliz do que nós dois, de repente se auto incinera, renasce jovem e vive mais 300 anos. Não fica com inveja?


As Novas Proporções do Homem
Enfim superamos o homem vitruviano de Leonardo Da Vinci?





Hitchcock / MIS – 18 / julho / 2018
Hitchcock fica melhor a cada reprise. Talvez apenas dois artistas dominaram tanto e exploraram tão completamente seus respectivos campos de atuação, e deixaram uma obra (igualmente diversificada e vasta) que a partir dela se pode avaliar todas os aspectos e avanços das Artes que elegeram e tudo que os precederam: Back na Música e Hitchcock no Cinema.

Lucerna / Suíça – 1 / junho / 2016
Fui visitar Wagner em sua bela mansão, num promontório que avança intrépido pelo Lago Lucerna, O compositor estava omnipresente, multiplicado em bustos e estátuas.
Aproveitei para fazer a pergunta urgente e incômoda:
"Como conseguiu ser tão genial e tão canalha?"
O mestre respondeu:
"A genialidade e a canalhice são atributos humanos, e eu tenho excesso de humanidade. Assim explorei todas minhas boas e más potencialidades até o limite."
Fiquei pensando embaraçado em dúvidas. Ele, talvez com pena das minhas carências, acrescentou:

"Mas não se esqueça, quando eu fui apenas humano, escrevi o 'Idílio de Siegfried' e o dediquei à Cósima (que roubei de von Bülov) numa manha de natal, naquela escada que breve você subirá."


Montreux / Villeneuve / Suíça – 23 / maio / 2016
Quando findou a chuva primaveril, na beira do Lago Genebra, em Villeneuve, depois de Montreux, encontrei Oskar Kokoschka, o pintor noivo da ‘Noiva do Vento’.
Uma figura patética que vendeu tudo que tinha para comprar farda, espada e cavalo. Foi para a guerra, voltou ferido, perdeu a amante Alma (viúva de Mahler) e a razão crítica e prática, só lhe restou a faculdade de juízo estético.
Curou a dor de cotovelo dormindo com uma boneca cópia exata da amada.
Estava bidimensional e olhava fixamente para o lago.
Perguntei:
‘– Como é a vida assim, plana e dividida?'
Respondeu dúbio e desacostumado da fala:
‘– É boa, a gente vê os dois lados com clareza, esquerda, direita, sem zona cinza. Têm momentos na História que isso é imprescindível.'
Concordei. Calados, juntos, olhamos longamente a espelhada superfície do lago saciado de chuva. Cansado do silêncio me despedi e fui embora. Oskar ficou secando, atento ao vento do tempo.

Vevey / Lausane / Suíça – 23 / maio / 2016
O garfo no mar alude à sede mundial da Nestlé na cidade de Vevey, à beira de Lago Genebra.
O céu feroz induz meditações nebuladas. Machado de Assis disse “morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde”, quase o horário da foto.
Repensando, morre-se otimamente bem na Suíça, em torno do Lago Genebra. Os cemitérios estão repletos de defuntos estrangeiros e desgarrados, ilustres e notáveis. Jorge Luiz Borges, Charles Chaplin, Grahan Grenne, James Mason, Oscar Kokoschka…

Visto e fotografado – 8 / Out /16
Paul Cézanne (1839-1906) Retrato do Artista  /  1875
Museu d’Orsay Paris


quinta-feira, 12 de abril de 2018

RELENDO A HISTÓRIA – IMAGENS


O filme ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’ de Eduardo Escorel se estende por 3 horas e 47 minutos. É longo, detalhado, abrangente, em geral precisa de duas sessões para ser apreciado confortavelmente. Contudo vale a pena, algumas das imagens exibidas fervem de novidade, apesar de todo mundo já ter lido sobre elas – como a inopinada queima pública e cívica das bandeiras dos estados brasileiros. O documentário cobre o trânsito completo de Getúlio pelo firmamento brasileiro.

Eduardo Escoriel já está inscrito entre nossos mestres do passado e paradigmas do futuro. Seu filme
‘Lição de Amor’, de 1975, sobre uma novela de Mario de Andrade, é uma obra prima plena de ritmo, interesse, concisão e sugestões. Seu portfólio de trabalhos, mostra que é omnipresente na cena do cinema brasileiro recente. Sobretudo e quietamente é um genial montador.

Por causa da dispersão e escassez de fontes a produção do documentário (
que durou 12 anos) sobre e meteoro Getúlio, muitos deles gastos na coleta de material em acervos brasileiros e estrangeiros (Estados Unidos e Alemanha principalmente), oficiais e particulares. Com tempo e esforço a pesquisa resultou numa conjunto espantoso de imagens, repleto de fotos e filmes inéditos, inesperados e inusitados. Tudo magistralmente editado. Como previsto a versão final veio para mudar, expandir e elucidar o fenômeno do Estado Novo. 

Essa vasta coleção de imagens se nos impõe reflexões. É impressionante e desconcertante, desmistificadora e relevadora. Todo mundo conhece a saga, trajetória e tragédia de Getúlio, mas, vê-las fotografadas e filmadas em arquivos pessoais e documentários oficiais “verdadeiros” amplifica nosso entendimento da História.


Roland Barthes ensina que toda foto (e fotograma) carrega consigo sua semiótica, contudo e acima disso, se constitui, sempre, num pedaço de história real capturada, o noema 'está-lá' ou 'isto aconteceu'.  Portanto, no material utilizado estão patenteadas e registradas duas coisas: (1) a noticia e as imagens do fato como acorreu e (2) a encenação ou adaptação deles pelos ‘produtores de conteúdo’ envolvidos na época.

É exatamente a evidencia deste descolamento revelador, capturado pelas fotos que nos permite constatar e analisar que ‘há distancia entre intenção e gesto’, e saber quando o samba tropical desafinava.


Estávamos desde muito acostumados com recorrentes e variadas teses, versões e revisões da História. Entretanto, com a eclosão das redes sócias, cada vez mais, vamos aprendendo a 'ler' melhor as fotografias. Rapidamente os 'textões' estão sendo substituídos por imagens variadas e emojis imediatos, devassando tudo. Hoje temos mais treinamento para apreciar e decodificar trabalhos como este que privilegiam registros de fotos e filmes.

Neste termos as ‘Imagens do Estado Novo 1937-45’, estão sincronizadas com o futuro.  

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Menina do Pátio do Colégio Nº 1


‘A menina do Pátio do Colégio Nº 1’, segundo andar, esquina com a Praça da Sé, pensava que a cidade fosse um imenso carrossel, porque todas as coisas giravam defronte sua janela. Para participar dos grandes momentos da história paulista bastava ir até a calçada, tudo acontecia lá. Nos dias mais quietos, quando a festa amainava, podia andar de velocípede, levar a boneca para passear, brincar de roda ou pique-esconde, usando como base e esconderijos os magníficos postes paulistanos de iluminação (entre os mais belos do mundo).


Talvez ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ possuísse pés sambistas, porque durante os anos 40/50 um dos solos sagrados do samba paulista era no seu quintal. Os engraxates da praça, nas horas vadias, improvisavam rodas de samba batucando nas caixas e latas de graxa. Germano Mathias era mestre, Toniquinho Batuqueiro e Carlão do Peruche conheciam as manhas. No fundo do coração da garotinha ainda deve vibrar acordes sincopados desses improvisos sambistas que o tempo levou, mas a memória guardou.

Para ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ o Edifício Rolim se exibia garboso e altivo na transversal de suas janelas, era seu gigante guardião. O perfil agudo dos terraços e torreta, adornados com requintes e graças catalãs, funcionava como um ponteiro de relógio de sol. Sua sombra precisa e majestosa demarcava todo o percurso do dia. Conforme anúncio no Estadão, em julho de 1930, os ‘advogados, médicos, engenheiros, dentistas e corretores [...] descontentes ou mal situados’ estavam convidados a conhecer as magnificas instalações do novo empreendimento. Projeto do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol, o mesmo do Centro Cultural Banco do Brasil. Quem sabe um dia se torne um point visitável, como o Palacio Barolo de Buenos Aires.

A menina do Pátio do Colégio Nº 1’ garante que o predinho onde morava também tem uma história bonita e digna. Sem ser famoso ou badalado se constitui num registro valioso da paisagem e modus vivendi da classe media paulista na virada do século XIX. Devia ser acarinhado, estudado e preservado.

‘A menina do Pátio do Colégio Nº 1’ leu a bíblia do patrimônio histórico (Bens Culturais Arquitetônicos no Município e na Região Metropolitana de São Paulo) e me contou que se trata de um “edifício contemporâneo aos que Ramos de Azevedo construiu no Pátio do Colégio em 1887, quando aquele espaço urbano foi remodelado, distinguindo-se muito da antiga Praça da Sé, que lhe ficava contígua. Ostenta em sua cimalha a data de 1888 e, pelos pormenores da modenatura, especialmente no que diz respeito à ornamentação em relevo das janelas, conclui-se que o edifício seja igualmente obra do escritório daquele arquiteto paulista. Estava ocupado, no início do século, pela loja de móveis Ao Grande Oriente, fundada em
1889; presume-se que o edifício tenha sido projetado especialmente para ela."



Como gosta de História ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ sabe que S. Paulo entre 1890 e 1960 cresceu quase 70 vezes. De sua janela assistiu os efervescentes festejos do Quarto Centenário, com direito à fantástica chuva de papel picado prateado. Foi o apogeu da corrida da cidade para se tornar a maior megalópole do hemisfério sul. Depois de 1954 – o ponto de flexão da cidade – quando comparamos fotos antigas percebemos que continuamos crescendo (ou inchando), contudo, mais por inércia e descontrole do que por impulso e planejamento. Nossas paisagens, o próprio complexo Praça da Sé / Pátio do Colégio, lembram cada vez mais cenários Blade Runner.

Talvez como Roy Batty – o replicante dúbio do filme, que salva o herói no final – ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ poderia dizer: “Eu vi coisas em que as pessoas não acreditariam.” (n1) O quadro Guernica em todo seu esplendor exposto por quase três meses no Ibirapuera, na Bienal de 53. Intrépidos equilibristas balançando sobre a Praça da Sé em cabos de aço taicoeiros. O choro na Copa de 50 e a exultação na de 58. A inauguração da Catedral de cúpula e torres verde malva. Discursos e manifestações políticas, cívicas e religiosas de todos partidos, tradições e confissões. E muitas coisas mais que extravasam das palavras.

Certamente, ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’, uma dos poucos paulistanos que dividiu com os Jesuítas o endereço: logradouro Pátio do Colégio´, publica – com pleno direito – o Blog PAULISTANA DE CARTEIRINHA  clique  onde relata lembranças, causos e histórias que viveu ou ouviu de sua família na casa extraordinária. Seu Blog sabe que as memórias são efêmeras, "momentos [que] serão perdidos no tempo, como lagrimas na chuva".(n1) Por isso é preciso divulga-las e registra-las. 



(n1) 
Trechos do discuso 'Lágrimas na Chuva' , fala final do Replicante Roy Batty no filme 'Blade Runner, O Calador de Androides' , de 1982.



Gostaria muito de agradecer à SUELY PIEDADE SANTOS – ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ – pela inspiração e luxuosa ajuda que possibilitaram esta crônica.