terça-feira, 3 de abril de 2018

A Menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1


A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, segundo andar, esquina com a Praça da Sé, pensava que a cidade fosse um imenso carrossel, porque todas as coisas giravam defronte sua janela. Para participar dos grandes momentos da História Paulista bastava ir até a calçada. Tudo acontecia lá. Nos dias mais quietos, quando a festa amainava, podia andar de velocípede, levar a boneca para passear, brincar de roda ou pique-esconde, usando como base e esconderijos os magníficos postes paulistanos de iluminação (entre os mais belos do mundo).


‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ quem sabe possua pés sambistas, porque durante os anos 40/50 um dos solos sagrados do samba paulista era no seu quintal. Os engraxates da praça, nas horas vadias, improvisavam rodas de samba batucando nas caixas e latas de graxa. Germano Mathias era mestre, Toniquinho Batuqueiro e Carlão do Peruche conheciam as manhas. No fundo do coração da garotinha ainda deve vibrar acordes sinuosos desses improvisos sambistas que o tempo levou, mas a memória guardou.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ achava que o Edifício Rolim, exibindo-se garboso e altivo na transversal de suas janelas, era seu gigante guardião amigo. O perfil agudo dos terraços e torreta, adornados com requintes e graças catalãs, funcionava como um ponteiro de relógio de sol. Sua sombra precisa e majestosa demarcava todo o percurso do dia. Era um 'hit', conforme anúncio no Estadão, em julho de 1930, os ‘advogados, médicos, engenheiros, dentistas e corretores [...] descontentes ou mal situados’ estavam convidados a conhecer as magnificas instalações do novo empreendimento. Projeto do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol, o mesmo do Centro Cultural Banco do Brasil. Quem sabe um dia se torne um point visitável, como o Palácio Barolo de Buenos Aires.

A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ garante que o prediozinho onde morava também tem uma história bonita e digna. Sem ser famoso ou badalado se constitui num registro valioso da paisagem e modus vivendi da classe media paulista na virada do século XIX. Devia ser acarinhado, estudado e preservado.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ leu a bíblia do patrimônio histórico (Bens Culturais Arquitetônicos no Município e na Região Metropolitana de São Paulo) e me contou que se trata de um “edifício contemporâneo aos que Ramos de Azevedo construiu no Pátio do Colégio em 1887, quando aquele espaço urbano foi remodelado, distinguindo-se muito da antiga Praça da Sé, que lhe ficava contígua. Ostenta em sua cimalha a data de 1888 e, pelos pormenores da modenatura, especialmente no que diz respeito à ornamentação em relevo das janelas, conclui-se que o edifício seja igualmente obra do escritório daquele icônico arquiteto paulista. Estava ocupado, no início do século, pela loja de móveis 'Ao Grande Oriente', fundada em 1889; presume-se que o edifício tenha sido projetado especialmente para ela."


‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, como gosta de História, sabe que S. Paulo entre 1890 e 1960 cresceu quase 70 vezes. De sua janela assistiu os efervescentes festejos do Quarto Centenário, com direito à fantástica chuva de papel picado prateado. Foi o apogeu da corrida da cidade para se tornar a maior megalópole do hemisfério sul. Depois de 1954 – o ponto de flexão da cidade – quando comparamos fotos antigas percebemos que continuamos crescendo (ou inchando), contudo, mais por inércia e descontrole do que por impulso e planejamento. Nossas paisagens, o próprio complexo Praça da Sé / Pátio do Colégio, lembram cada vez mais cenários Blade Runner.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’, talvez como Roy Batty – o replicante dúbio do filme, que salva o herói no final – poderia dizer: “Eu vi coisas em que as pessoas não acreditariam” (n1). Vi intrépidos equilibristas balançando sobre a Praça da Sé em cabos de aço traiçoeiros. O choro na Copa de 50 e a exultação na de 58. A inauguração da Catedral de cúpula e torres verde malva. Discursos e manifestações políticas, cívicas e religiosas de todos partidos, tradições e confissões. E muitas coisas mais que muito extravasam das palavras.

‘A menina que morava no Pátio do Colégio Nº 1’ certamente é um dos poucos paulistanos que dividiu com os Jesuítas o endereço nobre e histórico: 'logradouro Pátio do Colégio´, por isso publica – com pleno direito – o Blog PAULISTANA DE CARTEIRINHA  clique  onde relata lembranças, causos e histórias que viveu ou ouviu de sua família, moradora daquela casa extraordinária. Seu Blog sabe que as memórias são efêmeras, "momentos [que] serão perdidos no tempo, como lagrimas na chuva" (n1). Por isso é preciso divulga-las e registra-las. 



(n1) 
Trechos do discuso 'Lágrimas na Chuva' , fala final do Replicante Roy Batty no filme 'Blade Runner, O Caçador de Androides' , de 1982.



Gostaria muito de agradecer à SUELY PIEDADE SANTOS – ‘a menina do Pátio do Colégio Nº 1’ – pela inspiração e luxuosa ajuda que possibilitaram esta crônica.




5 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  2. Transcrito do Facebook.
    Suely Piedade Santos É MUITA EMOÇÃO A COMPARTILHAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Deus te pague por esse poema em forma de blog. A família penhorada agradece!!!!!!!!!!!! 😍 😍 😍 😍 😍 😍 😍 😍

    ResponderExcluir
  3. A irmã mais nova da menina do Páteo do Colégio nr1 também amou ler tudo isso. Obrigada Douglas.

    ResponderExcluir
  4. ||| Suely Piedade Santos, desculpe, por falha exclui seu comentário, mas por sorte tinha uma cópia dele. Assim estou recuperando-o junto com minha resposta |||
    ”Com o coração disparado de emoção leio e releio sem acreditar em tanta sensibilidade de sua parte. Obrigada por mostrar a um mundareu de gente, um pouco do que vivi nesse endereço tão especial. Sei que meu tio Dr. Milton de Azevedo Campos também será tomado pela emoção.”
    ******
    Quero demais agradecer muito – com todos os excessos da frase – o convite e permissão para revisitar suas lembranças neste endereço tão significativo. Faz muito tempo ‘curto’ o Edifício Rolim, e a casa onde morou entretém com ele uma conversa musical quase centenária, feito flauta e violoncelo. Fico feliz em saber que sua família inteira gostou do texto, parabéns a todos por cultivarem estas lembranças, que, concordo, devem ser registradas.
    A receptividade da crônica nos grupos no Blog Paulistando e no facebook tem sido muito boa.
    Pelo que entendi a casa é tombada, assim, mesmo com nossas erráticas políticas, será preservada.
    Obrigado ‘menina do Pátio do Colégio Nº 1’.

    ResponderExcluir
  5. Olá Selma,
    Então o título certo deveria ser ‘as meninas do Pátio do Colégio Nº 1’, ficaria melhor, com mais referências aos romances pós-românticos do começo do século passado.
    Sou leitor de Jung, acredito em sincronicidades, assim senti sua ausência nas fotos que vi da infância da Suely. Faltava uma irmã – e mais nova – naquele ‘paraíso. perdido’. Senão com quem brincas?
    Prazer em conhecê-la Selma.

    ResponderExcluir