quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A Sincrética Arte de Rodar Pião


Durante anos – minha memória não sabe bem quantos – fui um ativo praticante da Sincrética Arte de Rodar Pião. Sincrética porque acolhe muitas seitas e inúmeras modalidades, talvez para cada bairro ou rua da cidade exista uma variação.

Na vila em que morava o auge acontecia nos fins de setembro, quando os ventos amainavam e levavam com eles a mania de empinar pipas. De repente, parecendo uma compulsão ancestral, alguém aparecia com um pião. Bastava isso para a febre contagiosa se alastrar. Naqueles tempos, de tolerância de gêneros, a arte da pionaria era coisa mais de menino.


Todos nós tínhamos uma caixa de sapato cheia de piões e fieiras guardada e perdida em algum canto da casa, era hora de exumação e revivescência. O número de piões que cada garoto possuía variava, dependia do ímpeto de adesão à arte. Minha memória sugere, mas não garante, que eu possuía cerca de dez, e várias fieiras (aquele cordão grosso necessário para rodar o pião).




No auge da temporada é um brinquedo irresistível, obrigatório. Talvez porque tenha uma forma estranha, uma escultura de madeira, bonita, cheia de veios misteriosos, com desenho dinâmico, cortada por sulcos que prometem as delícias da velocidade. A ponta de aço faz dele uma arma poderosa, capaz de tirar lascas e causar rachaduras eternas nas batalhas de piões.

Os brinquedos, apesar de parecerem iguais, têm infinitas diferenças, dependem do fabricante, do ano, do bairro... Todo pião, mesmo igual, é peculiar e único. Cada adepto escolhia sua versão preferida e a pintava e decorada com incisões, desenhos e marcas pessoais do proprietário. Os piões de estimação eram troféus valiosos quando capturados nas guerras piônicas.




A prática da Sincrética Arte de Rodar Pião cultivava duas vertentes principais: exibição e guerra.

A exibição valorizava a habilidade de rodar o pião. Velocidade, pontaria, duração, zunido e estilo. Fazer incisões no corpo do pião para que zunisse ou pinta-lo para produzir efeitos cinéticos eram refinamentos herméticos que somente os melhores dominavam plenamente.

Guerra. Diferentes jogos, disputas e enfrentamentos que contrapunham os praticantes. Orgulho e realização dos mais velhos, desejo e inveja dos mais novos.

No meu bairro a cela era o desafio mais popular. Dentro de um círculo desenhado no chão ficavam os piões. Cada participante casava o seu para entrar no jogo. Depois, em sequência, os piões eram lançados tentando acertar as peças casadas com a maior contundência possível. Mirávamos dois objetivos: provocar danos e tirar lascas dos piões alvos e conseguir retira-los do círculo. Quando isso acorria a presa pertencia ao jogador.
O pião lançado – acertando ou não o alvo – deviria rodar e sair das linhas da cela sozinho, senão um novo pião deveria ser casado. Assim aconteciam as perdas dos piões favoritos. Doía, eu lembro.

Um dia qualquer, da mesma forma abrupta que havia começado a temporada acabava. As caixas repletas de heróis e vítimas das guerras piônicas voltavam a hibernar no mesmo esconderijo de onde saíram. Até o próximo ano porque sempre havia novas e inusitadas delícias da adolescência exigindo nossa completa atenção.



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2 comentários:

  1. Ah! como isso me enche de saudade a mente e o coração. Você Douglas, foi no fundo do baú e trouxe a descrição de uma das melhores brincadeira da minha época. Onde eu morava ninguém tinha o hábito de empinar papagaio. O que mais brincávamos era a bola de gude. Gostava tanto de jogar bola de gude que quando me dei conta possuia uma lata de querosene JACARÉ cheia até às bordas de tanto que eu era exímio, mas quando me dei conta, neste justo tempo, distribuí todas elas com os meus amigos pois estava entrando na adolescência sem saber. Hoje é que sei o porquê realizei aquele gesto sem nenhuma dor no coração pelo fato. Tornei-me outro e,aos poucos meus velhos companheiros me acompanhavam noutras aventuras e gosto. Que tempo maravilhoso!

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  2. Transcrito do Facebook
    CARLOS GONÇALVES - Esta crônica rememorando a infância de Douglas Bock, colocou-me no mesmo estado de espírito que o levou a escrevê-la. Trouxe-me de volta meus verdes anos junto aos amigos numa brincadeira que se fizera perpétua em meu espírito os jogos de pinhão. Também marcou-me a lembrança trazida de uma infância feliz que eu estimava nunca acabar, mas foi essa história que me lembrou o campeão que fora, na infância, nos jogos de bola de gude que eu representei. A felicidade se fez completa com a minha entrada na adolescência numa despedida sem trauma da minha infância e de grande alegria comemorada na distribuição dos meus troféus com todos os amigos. Muito obrigado Douglas, você me deu um belíssimo presente.

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