terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sorriso de Beatriz - Aleph - Borboletas


A Cultura Pop tem uma curiosa relação com temas, autores e obras, prefere gravitar em torno do assunto do que abordar diretamente o objeto de interesse. Lembra aquelas belíssimas borboletas de Lorentz da Teoria do Caos, resultantes das plotagem das reiteradas tentativas de orbitar atratores estranhos. Sugerindo que talvez a beleza esteja na busca, não na decifração do mistério.

A Divina Comédia é um dos principais atratores estranhos da Cultura Pop. Filmes, romances, sagas, teses e músicas orbitam este colossal monumento do inicio do Renascimento.

Na verdade a obra prima de Dante, ela mesma, já prenunciava uma produção Pop, porque promoveu a mais ampla reavaliação, popularização e ressignificação de todos os grandes sistemas, poemas e epopeias que a precederam. Vasta e ousada súmula, escrita em italiano vulgar, que popularizou, reavaliou e classificou todos os episódios e personagens da historia e ficção antiga, distribuindo-os pelos seus tríplices mundos – Inferno, Purgatório e Paraíso. Assim ler Dante é embarcar numa viagem guiada pelos poetas – Dante e Virgílio – para muito além do Renascimento.

A enumeração das influências da Divina Comédia na cultura recente poderia começar pelo O Senhor dos Anéis, por exemplo. A caminhada dos hobbits para destruir o anel remete também à peregrinação de Dante e Virgílio pelo Inferno e Purgatório. Continuar com Hannibal, the cannibal – romance, filme e série – que revisitam horrores e assombros dantescos. Prosseguir com o Inferno, agora de Dan Brown, que passeia pelo velho poema  sugerindo correlações entre a superpopulação e as paisagens infernais. As visitações e homenagens do e ao poeta e sua criação são infindáveis, um universo em perpétua expansão.

Lendo o Leitor da Divina Comédia

Durante o segundo semestre de 2017, induzido pela excelente biografia Borges: Uma vida de Edwin Williamson, que explora longamente a figura do argentino como leitor de Dante, resolvi empreender uma demorada e detalhada releitura da Divina Comedia, com uma novidade, substituir os guias Virgílio e Beatriz pelo Google, muito mais esperto. Foi uma peregrinação reveladora, interessante, variada e inesperada.

Borges, um dos epígonos da pós modernidade e também um atrator estranho da Cultura Pop, se acreditava um leitor privilegiado, quase um confidente do florentino. No Último Sorriso de Beatriz (Nueve Ensayos Dantescos [1982]) deixou uma interpretação icônica do poema. Argumenta que a despedida do poeta e sua musa é a mais doce e dolorida cena de adeus de toda a Literatura.

Fissurado na presumida proximidade entre Borges e Dante, Edwin Williamson, o biografo inglês, desenvolveu uma tese arriscada – e talvez excessiva – que pretende decifrar o sentido da vida do memorioso cego de Buenos Aires.
  • (a) Como Borges acreditava possuir uma interpretação reveladora da obra de Dante. Apostando que o poema havia sido escrito para possibilitar ao florentino realizar um sonho impossível. Especificamente, dizia que os 100 Cantos da obra eram somente um pretexto para fantasiar seus encontros e conversas imaginários com Beatriz, coisa ressonhada que jamais aconteceu durante a vida do poeta.
  • (b) Por similitude e emulação – para o biógrafo inglês – o mestre portenho passou a acreditar que, se também encontrasse sua Beatriz, conseguiria inspiração para escrever uma obra prima que sobreviveria ao Tempo. Por isso buscava em toda mulher de quem se aproximava a revivescência da musa antiga celeste.
Curiosamente, no conto mais conhecido de Borges, Aleph – dedicado a Estela Canto, uma das candidatas a musa, o nome da personagem feminina central é Beatriz, que aceita a corte do autor, porém não lhe concede o amor.

7 Salvados do Inferno

Durante minha leitura da Divina Comédia alguns personagens me pareceram descolados no Inferno de Dante, então resolvi escrever poemas sobre sete deles para registrar esta estranheza. Na ocasião lembrei de um curioso procedimento criativo que o pessoal do Cinema (sobretudo depois do Dogma 95) curte: dogmas. Daí, para brincar, decidi criar um dogma como paradigma para o trabalho planejado. Assim nasceu o Dogma Dante com algumas regras básicas:

1 - Os poemas seriam compostos em tercetos de Dante. Deveriam ter cinco estrofes, o verso intermediário do quinto terceto retoma a rima dos versos exteriores do primeiro. Quinze versos na seguinte estrutura: aba bcb cdc ded eae. Ou seja, cinco tercetos formariam o ‘soneto de Dante ou danteneto'.

2 - Um pouco inspiração e homenagem ao excepcional A Máquina do Mundo de Drummond, os versos seriam longos, wagnerianos e dissonantes, com 13,14 ou 15 sílabas. 

3 - Cada poema teria uma referência transversal, ou intervenção de um comentador externo.

4 – E (a regra de ouro de qualquer bom dogma) todas as exceções necessárias seriam permitidas.

Os poemas estão aqui >>> '7 Salvados do Inferno' – Clique


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