quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

OS MISTERIOSOS CIGARROS MACEDONIA

Há muito, muito tempo atrás, bem antes de existir computadores e Internet, colecionava carteiras de cigarros. 'Carteiras', não 'maços'. Porque era assim que os tios mais velhos chamavam.

Para guardar a coleção consegui uma caixa de madeira sob medida. Mantinha as centenas de carteiras em rigorosa ordem alfabética. Ajudava a aprender a classificar, depois da primeira letra da marca, a segunda, também em ordem alfabética.
Cairo, Continental... e assim por diante.

Cada carteira nova era cuidadosamente aberta, com muita atenção nas partes coladas para não estragar. Um desastre quando o papel rasgava, tragédia maior ainda se a marca fosse difícil. Depois de aberto, o maço era alisado, ás vezes passado à ferro, para ficar bonito. Por último vinham as dobraduras para deixar as carteiras do tamanho de uma nota de dinheiro.

Manuseando aquelas centenas de ‘cédulas’ era milionário. Gastava horas seguidas repassando as carteiras, olhando os desenhos das embalagens e sonhando. Não dá para garantir que os videogames e joguinhos eletrônicos sejam melhores passatempos.


Mas o que encantava, sobretudo, era o exotismo dos nomes das marcas: Araks, Belmont, Cairo, Consul, Douglas, Elmo, Finesse, Hollywood, Kent, Luxor, Minister, Piccadilly, Pullman, Urca...

Este conjunto de lugares, países, regiões geográficas, posições sociais, item sofisticados ou referências heráldicas se tornou um mapa de tesouros imaginários, que precisava ser decifrado, nem que levasse a vida inteira.

Macedonia era a marca mais intrigante. O nome parecia uma bala feita de chocolate e hortelã com amendoim. Os cigarros eram baratos, o desenho do maço simples e despojado, e, pior, mudava com frequência. Depois tinha aquela cor ambígua, entre coral, alaranjado e vermelho, que simulava estar sonegando informações, querendo criar confusão. Então puseram uma medalha no layout, confundiram mais ainda. Não explicava nada, só lembrava uma premiação de melhor aluno da classe.

Quando perguntava o que era Macedonia, as respostas eram sempre diferentes, cada irmão ou tio dizia uma coisa. Não adiantou procurar na Barsa, o artigo era longo, cheio de referências truncadas e confusas. Só entendi que tinha a ver com o reino de Alexandre, o Grande; aluno de Aristóteles. 

Desde então Alexandre e Macedonia passaram a ser sinônimos e aquela região inteira ainda continua confusa e misteriosa.


Quem sabe, na próxima viagem...

8 comentários:

  1. Boas recordações você me trouxe, ó Bock! Também colecionei carteiras de cigarros mas por outras vias nada nobres. Representava para nós, crianças da época dinheiro ao qual atribuímos valores, entre nós e nos serviam para jogar baralho apostando os ditos dinheiros. Até que um dia meu pai descobriu numa roda de "relancinho" apostando e tomei um tapa bem certeiro. R foi um tapa em boa hora. Perdi o gosto por jogo de baralho ou outro qualquer até hoje eu fujo de aposta. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  2. Quando escrevi Carlos, foi por duas coisas: a primeira, saudades; a segunda por medo (e certeza) de que que tudo isso cairá no esquecimento.

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    1. É, meu amigo. O pior de tudo é o esquecimento. Eu tenho um amigo de infância que vez enquando me referenda o tempo em que íamos às varrições do Cine Teatro São Luiz, em nossa cidade, procurar carteiras de cigarros e empreender o processo que você destacou. Vez ou outra achávamos Luck Strick e Camel. Ahhhhh! Isso significava ser milionário. De qualquer forma não era uma divagação feito a sua, porém preenchia-nos de fantasias com o rei Mamon. Éramos milionários, apenas e tão somente isso. Nada mais enchia-nos o coração do que nos acharmos e os outros amigos nos considerarem MILIONÁRIOS. Nada me preenche o espírito que me invadia o coração naquela época do que ser isso. Ela se esgotava nisso sem mais nenhuma complexidade, e era tudo para nos fazer felizes. Só mesmo a puerilidade.

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  3. Acho que esta lembrança das carteiras de cigarros foi feliz, meu amigo Carlos Gonçalves, porque recebi dezenas de comentários e mensagens falando com saudades das passadas coleções. Alguns me informaram até hoje guardam os estes tesouros antigos com carinho. Fiquei com inveja.

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  4. Ah, os Fulgor do meu avô, aquela caixa em papel-cartão com um sol gigantesco em amarelo sobre azul... Era barato também, forte como os fumos goianos de corda que ele também fumava (e que ficava desfiando até que ele aprovasse). O luxo supremo para nós era conseguir uma caixinha de plástico com os Philip Morris

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  5. Fernando,

    Falar dessas coleções foi como uma ‘madeleine’ de Proust, tomo mundo voltou ao passado, e de uma forma carinhosa.

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  6. Os cigarros da marca Macedônia eram produzidos em uma fábrica no bairro do Belenzinho, zona Leste de São Paulo até a década de 1950. Morava perto da fábrica, que depois se transformou em um colégio, onde estudei.

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  7. Muito obrigado pela visita ao Blog e pelas informações sobre os cigarros Macedônia.

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