segunda-feira, 1 de novembro de 2021

O PIANO EM CHAMAS DE NELSON FREIRE

 

Sou um fã intenso e discreto de Nelson Freire, tenho muitas lembranças dele de registros gravados e consertos ao vivo. Uma apresentação, contudo, é muito especial, permanece presente na minha memória, porque está enganchada num novelo de coincidências. Gostaria de relembrar e compartilhar esta performance neste primeiro de novembro de 2021, dia da elevação da mestre pianista.

No início de 2008 a Sociedade de Cultura Artística recebeu um novo piano, uma máquina de fazer música soberba, magnifica: um Steinway Concert modelo D, fabricado em Hamburgo. Foi tocado pela primeira vez num concerto pelo jovem pianista Pablo Rossi no dia 29 de abril de 2008. Estava lá para conferir. Obviamente fiquei extasiado, foi uma experiência transcendental ouvir a sutileza e amplitude daquela obra de arte da técnica moveleira e engenharia acústica.

Queria mais, corri para comprar entradas para a apresentação de Nelson Freire que desafiaria aquela magistral obra prima dos instrumentos. Tive sorte, consegui um excelente lugar, bem na frente, no dia 08 de maio de 2008.

O programa era bem-concebido, amplo e diversificado – Mozart, Beethoven, Chopin, Debussi. Porém, minha memória insiste que achei pouco e insuficiente, tanto que cheguei em casa e foi ouvir mais Nelson Freire no meu sistema de som.

Nove dias depois, num sábado, dia 17 de agosto de 2008, fui acordado de madrugada pelo estridente barulho das sirenes dos bombeiros. Corri até a janela e pude ver o prédio do Teatro da Sociedade de Cultura Artística em chamas, tudo foi estruído, inclusive os dois pianos que a entidade possuía.

Apesar do desastre o piano 'menino' cumpriu um destino nobre, o marfim de suas teclas ainda retinha a lembrança da pressão dos dedos de Nelson Freire. Estava realizado, sabia que tinham tirado dele tudo que podia dar.


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