sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Rachael tinha olhos verdes?


Aposto que todos os fãs de cinema com data de ativação antiga, sempre que  olham para a deslumbrante Rachael lembram com saudades da imensa galeria de mulheres fatais dos filmes noir.

Quando Eldon Tyrell manipulou os genes e Ridlley Scott editou as cenas para criarem juntos a melhor das femmes fatales cyberpunks, dispunham de farto material de referência. Porque neste fértil e subterrâneo movimento as damas misteriosas imperavam, eram ícones imprescindíveis a serem amadas, celebradas, decifradas e conquistadas. É impossível imaginar um bom filme noir sem uma figura feminina dominante, como vítima, suspeita, manipuladora, criminosa ou donzela em perigo. E nos casos de maior sucesso ocupavam vários desses papeis ao mesmo tempo. 

Rachael | Sean Young não fica mal entre suas pares: Laura | Gene Tierney (Laura 1944); Phyllis Dietrichson | Barbara Stanwick (Double Indemnitity - Pacto de Sangue / 1944); Gilda | Rita Hayworth (Gilda / 1946); ‘Dusty’ Chandler | Lizabeth Scott (Dead Reckoning - Confissão / 1947) Margot Wendice | Grace Kelly (Dial M for Murder - Disque M para Matar / 1954); Florence Carala | Jeanne Moreau (Ascenseur pour l'échafaud - Ascensor para o cadafalso / 1958); Evelyn Mulwray | Faye Dunaway (Chinatown / 1974). Quase com certeza Blade Runner foi o auge da carreira de Sean Young, e será como Rachael que entrará para a história do cinema.

 

Curiosamente, nos dez primeiros anos de Blade Runner, enquanto circulavam apenas as versões com a histriônica e perdulária narração (de 1982 para cinema USA e Internacional), Rachael era somente uma esquisita mulher fatal perdida num confuso filme de ficção científica. Porém, depois do lançamento da edição do diretor, em 1992, a produção inteira se tornou cult, épica, um paradigma cultural. Em várias universidades virou pauta para estudos acadêmicos, centenas de teses devassaram as peculiaridades (* Também cometi a minha - veja link), antecedentes, influências e desdobramentos do filme. Nesta nova ordem, Rachael, se transformou na mais sofisticada das fammes fatales. Até porque, nas memórias afetivas de Eldon Tyrell - Ridley Scott, prováveis fãs dos Beatles e Rolling Stones, devia ser a confluência de todas elas.

 

No Blade Runner de 2049, Rachael, a nova Eva replicante, foi reduzida a um achado arqueológico. Rapidamente subsumida pela obsolescente Joi irmã cintilante e coruscante da Her, de Spike Jonze a namorada virtual, perfeita, evanescente, que nunca envelhece, pode ser melhorada, atualizada e se transformar em qualquer mulher desejada. Tudo e nada.

 

No momento, nas redes, já estão discutindo se Joi ama ‘K’ com amor verdadeiro ou apenas emula o sentimento.


Não sei. Isso é questão para o Blade Runner 2079 de musas fluidas e elétricas, até lá estou com Deckard, e sonho com uma Rachael de olhos verdes.

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