sábado, 24 de fevereiro de 2018

Blade Runner 2049 - A Morte e a Morte de Joi


Blade Runner 2049 não recebeu indicação para o Oscar, mas foi o melhor filme do ano. Talvez competindo com Dunkirk, sobretudo por causa do sofisticado andamento jazzístico – de três tempos descompassados  premeditado por Nolan.

Nenhum outro lançamento foi tão visionário, contundente e atual. Nenhum competidor apresentou tantas indagações e questionamentos sobre nosso incerto futuro, compartilhado e dependente de gadgets. Com os aplicativos extrapolando dos aparelhos e invadindo as ruas e o cotidiano. Nenhum discutiu melhor as alternativas, limites e potencialidades da humanidade.

Visualmente ousado, inovou sobre a arquitetura cyberpunk, decadente, escura, pessimista e disruptiva do BR-19, inspirada nos Filmes Noir. Mostrou o futuro como uma rota de fuga enganosa, corroída e sobrecarregada de erros, lixos e excessos do passado.

Horrível. Arrastado. Genial. Repetitivo. Longo demais. Melhor que o anterior. Todas avaliações são possíveis. Contudo, como não se maravilhar e estarrecer com os subúrbios de Los Angeles, geométricos, fractais e vazios? Replicantes avariados e homens decaídos empilhados em favelas hi-techs? Não se espantar com Las Vegas pós-apocalíptica e deserta, com abelhas guardando escombros da memorabilia americana? Um mundo surtado, alucinado e disfuncional. Além da previsível surpresa de transformar a sensual Rachael na madona de uma nova raça?

Sempre é bom relembrar que BR-49 é uma continuação. Sequências enfrentam problemas, os mesmos das montagens de óperas. Precisam inovar e explorar as possibilidades do tema e do enredo, sem trair demais a música e o livreto. A analogia seria melhor se tivessem reutilizado a trilha original de Vangelis, numa releitura quem sabe.

BR-49 levou cinco estrelas, contou uma história parônima de BR-19. Um caso de amor avassalado por uma investigação com interesses divergentes, conflitos, violências e perigos – como é clichê nos Filmes Noir – reprisando uma paixão entre duas entidades ontologicamente diferentes. As tramas têm similaridades, contudo as tessituras são distintas. Villeneuve é mais espesso e intrincado do que Scott. Em 2019 o emprenho de Deckard é contido pela meta padrão dos detetives: cumprir a missão e ter sossego. Em 2049 o impulso de ‘K’ é a jornada do herói, desvendar sua origem e mudar o mundo.

Entretanto, como BR-2049 é uma sequência, porta o vírus do Filme Noir: gira em torno da femme fatale. Assim, Joi, a omnipresente e cambiante Joi, a aplicativo-heroína da saga, hiper emanada pelas ruas, outdoors luminosos, avatares gigantes e lares tristes, é a personagem mais inspirada do filme, vale a pena acompanha-la em close-up.

As aproximações com Her são inadequadas e desavisadas, o filme de Jonze trata do amor impossível com uma entidade inescrutável, não de uma parceira ou relação capaz de redimir (ou consumir) o homem.

                                          *****     *****     *****
A comparação entre Rachael e Joi comporta muitas estranhezas. A replicante de ‘olhos verdes’ ( Clique ) era única, idealizada como humana perfeita, a dúvida que persistia era se tinha alma ou não. A holograma, ao contrário, não tem corpo, é um aplicativo ultra multiplicado, produzido em série e distribuído para a Terra e outros nove mundos – aparentemente – com o mesmo rosto, funções e características. As questões propostas para a femme fatale tremeluzente são, ao menos, duas. Seria possível amar uma especial entre tantas iguais? A Joi-holograma pode  se rebelar e evoluir? 

Na primeira aparição de Joi é como a ‘Siri’, intrometida, inoportuna, brincando de casinha, dando informações desnecessárias e fazendo sugestões atrapalhadas. Capaz de variar roupas e penteados sem alterar o rosto. Então ganha de presente do ‘K’ replicante o ‘emanador’. Upgrade contido num controle que permite a ela escapar do apartamento, se materializar e acompanhar o namorado em qualquer lugar. Então experimenta a chuva – a recorrente metáfora da saga Blade Runner – e as coisas começam a mudar.

Na participação seguinte, quando ‘K’ descobre os filhos de Rachael, parece que Joi já sabe muito sobre ele. Porque, através do ‘emanador’, pode ouvi-lo e observa-lo o tempo todo, mesmo pausada. Durante a cena de fusão se comporta como uma companheira cúmplice, interessada e ciumenta. ‘Não prefere a sua chefe?’ Comenta que é apenas um aplicativo, simples e binario, feita de ‘1 e 0’s, porém ‘K’, por causa das memorias envolvendo um cavalinho de madeira, pode ser especial, filho unigênito da replicante grávida, nascido de um ventre, um milagre.

Segundo as premissas da Inteligência Artificial, uma entidade é ‘senciente’ quando demonstra consciência, intenções e sentimentos. Todo o discurso de Joi reforçando as arriscadas esperanças do namorado sugere (talvez por se sentir amada) que ela tenha ‘senciência’. Resta a questão: natural e espontânea ou atribuída e programada?

Em outra sequência, no fim do segundo segmento do filme, Joi, lindíssima, com um vestido oriental (homenagem a Meggie Cheung do filme ‘Amor à Flor a Pele’ de Kar-way Wong) recebe Mariette, a prostituta replicante, contratada para ajudar, através do truque da ‘incorporação’, ela e ‘K’ experimentarem a sensação de sexo real.

As falas de Mariette são buracos de minhoca no roteiro, relevam coisas e ligações. Num trecho anterior, quando ouve a som do ‘emanador’ (Pedro e o Lobo de Prokofiev) comenta: ‘Você não gosta de mulheres reais’. Talvez ai – Joi pausada, porém alerta – tenha tido a ideia do ‘ménage à trois’. Depois do encontro com Joi/‘K’, ao partir, Mariette provoca Joi. ‘Eu já estive dentro de você. Não há tanto aí como você pensa’.

No bloco final, na busca por Deckard, Joi, para evitar que suas memorias prejudiquem o parceiro, pede ao namorado para apaga-la da rede/nuvem e baixa-la no ‘emanador’. Mesmo sabendo que, se o ‘controle’ for destruído, ela morrerá. ‘Sim. Como uma garota de verdade’. É um ‘spoiler’, porque Joi é morta pisoteada por Luv, a replicante vilã. Suas últimas palavras, correndo em direção a ‘K’, são intrigantes: ‘Eu te amo’. 

Abre parênteses. O melhor meio de esconder o fundo romântico – que muitos julgam inevitável em qualquer obra de arte – é com discursos racionais. Mesmo em laboratórios extraterrestres Wallace não descobriria porque Raquel engravidou e Joi ganhou consciência. Talvez só o amor explique. Fecha parênteses.

Como ela própria disse, Joi é um conjunto de comandos, uma longa sequência de zeros e uns. Passível de ser baixada da rede/nuvem para um equipamento. Feito uma foto comprometedora, que depois de transitar pela Web, é impossível ter certeza absoluta que já foi apagada. Sempre pode sobrar uma cópia dela em algum lugar inesperado.

Uma boa aposta seria Mariette, que na transa em três colocou um sinalizador no do bolso de ‘K’, o que permite resgatá-lo depois do encontro com Luv. Joi, ou uma versão antiga de Joi, pode subsistir dentro do cérebro replicante de Mariette, que já teve a ‘femne fatale’ dentro dela e sabe que a aplicativo ‘não é tanto quanto pensa que é’.

O filme – exceto pela cintilante reaparição de Rachael – poderia acabar aqui, poque a outra morte de Joi acontecerá na continuação, em dois mil e alguma coisa.


Outros textos sobre Blade Runner 

O Caçador de Androides, o Quarto Chinês e o Teste de Turing



Nenhum comentário:

Postar um comentário