terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CDs na Banheira


Nos últimos 30 anos a evolução das espécies no mundo fonográfico e audiófilo foi turbulenta e implacável. Pulamos do império do Vinil para a prevalência dos arquivos digitais. E mesmo estas opções modernosas já estão na terceira ou quarta geração de códigos (WAV, MP3, DSD...). Durante este salto tecnológico o CD foi engolido, nasceu, cresceu e definhou. Pior, quase levou junto as gravadoras. Atualmente o resiliente vinil – um espécime mítico – ainda sobrevive e recrudesce em alguns desvãos sofisticados.

O mais espantoso desta marcha acelerada é como os amantes das mídias musicais (qualquer um que tenha mais de 500 unidades de uma espécie) reagiram a estas metamorefoses.


No meu caso comecei com LPs, tive mais de mil deles. No tempo próprio – como a maioria – migrei para os CDs, mais práticos. Quando troquei uma casa térrea por um apartamento, para me livrar dos imensos bolachões pretos, contratei uma caçamba. Nunca tive o prazer de vê-la lotada, a vizinhança salvou todos os Vinis antes de chegarem ao destino derradeiro.

Hoje ainda mantenho os meus CDs nas estantes, porém todos eles e mais algumas centenas que já adquiri no formato digital (5000±) estão digitalizados e armazenados num Mídia Server. É conveniente poder encontrar qualquer música desejada em menos de dois minutos.

O Mestre Holbeins Menezes, decano da Audiofilia brasileira – nos seus persistentes e avaros 94 anos – que vivenciou cada uma dessas mudanças, me garante ter superado todas elas. Vive decantando a infinita variedade do Youtube, a discoteca cósmica, que oferece tudo que precisa e muito mais do que procura.

Mas o motivo de toda esta longa introdução é para me aplastar com a solução maluca do meu amigo Pedro Luis Vergueiro, persistente consumidor de CDs. Depois de encher as prateleiras disponíveis, encontrou um lugar inesperado para acomodá-los: a banheira de seu apartamento.

Preciso ouvir estes CDs imersos na banheira. Quem sabe a sonoridade tenha evoluído e ficado mais macia e líquida.





Penépole bela é perigoso amar um herói
que partiu para a guerra e adora batalhas
quem viveu esta espera sabe quanto dói

tecer, contar horas e destecer mortalhas
amor e temor na áspera fibra entretecida
solidão bordada na urdidura das malhas

relógio da memória tem marcha invertida
ordem dos dias embaralhada e confusa
ontem sempre é recorrente dia da partida

tudo vale a pena Penélope, você é a musa
amante e mãe, último refúgio do guerreiro
não tema o mar, aquoso olho de medusa

porque na luta onde o herói se lança inteiro
sua face é coragem secreta que reconstrói

a vontade de voltar para seu amor primeiro

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