sexta-feira, 25 de abril de 2014

RAUL SEIXAS – Dois Epitáfios Amarelos


Alguns dias antes do adeus definitivo de Raul Seixas, dois amigos (que não se conheciam) estiveram no apartamento dele. Quando me contaram suas visitas – insistente e espontaneamente – mencionaram a cor amarela. Fiquei intrigado e espantado, porém não muito surpreso, porque sempre achei que o Maluco Beleza tinha aura amarelo-dourada, como o sábio do LP Há Dez Mil Anos Atrás.

Amarelo é a cor da lucidez. As pessoas mais inquietas, as que enxergam a trama da Realidade, acabam vendo o mundo com um desvio para o amarelo. Por exemplo Van Gogh, que, cada vez mais, abusava do amarelo na sua paleta de cores, durante algum tempo até se mudou para Arles para fundar uma colonia de artistas e desvendar a 'amarelidade do amarelo'.

Drummond também, n'A Máquina do Mundoque explica o sentido último das coisas  votado como o melhor poema do século XX  conta que caminhava por “uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde”, "aves pairavam no céu de chumbo com suas formas pretas". Esta imagem, parecida com Van Gogh, só faz sentido com luz saturada de amarelo, a cor dos curvos caminhos mineiros e das revelações transcendentais.



  um  
  
Marco Antonio de Sousa – empresário e fotógrafo – atuava na indústria fonográfica, na Warner/Chappell, que administrava os direitos autorais das músicas do disco A Panela do Diabo. O último LP do Raul (em parceria com Marcelo Nova), lançado dois dias antes de sua morte. Para formalizar os procedimentos de lançamento precisava colher as assinaturas do Raul nos contratos de edição, por isso foi até o flat do artista, na Rua Frei Caneca, perto da Avenida Paulista. Levava um calhamaço de quase 30 páginas que deveriam ser rubricadas e assinadas.

Foi atendido por uma governanta (Dalva, que, mais tarde, encontrou o corpo do roqueiro) e conduzido até um homem magro sentado numa mesa, estranhamente, amarelo resplandecente. A cor era intensa, parecia irradiar dos dedos do fumante inveterado, impregnados de amarelo-nicotina, e se alastrar pelo corpo inteiro. Ate os dentes, o branco dos olhos e própria sombra estavam saturados por tons amarelos-dourados. Um dourado ouro-velho, patinado.

Lentamente, exausto, Raul, como se estivesse esperando abrir as portas amarelas do paraíso, rubricou e assinou os documentos. No entanto, se recusou a tocar no cheque, desviou o rosto do pedaço de papel estendido e disse: “Dinheiro não! Entregue essa coisa para Dalva.” Agradeceu o mensageiro e se dirigiu para um sofá de vinil amarelo no meio da sala, se inclinou com dificuldades e deitou encolhido, exaurido e sem forças.

  dois  

Vera Helena Amatti – jornalista, professora e escritora – era uma jovem repórter de trânsito da Rádio Excelsior. No dia 21 de Agosto de 1989 estava baseada no topo do Edifício Cásper Líbero (Gazeta), seu turno começava ás 14 horas. Logo que assumiu o posto uma amiga telefonou e passou uma dica: “Ouvi um boato que Raul Seixas morreu. Como está perto do flat dele não quer conferir?” Vera, com a impetuosidade da juventude, largou tudo e correu, a pé, para Rua Frei Caneca, distante nove quarteirões. Na entrada do prédio havia algumas pessoas paradas, alheadas e desarvoradas. Quase sem ar, mas audaciosa como os bons repórteres, perguntou, sem se identificar: “Onde está Raul Seixas?” Alguém, desatento, respondeu: “Lá em cima.”

A porta do apartamento estava aberta, Vera entrou. Estendido num sofá de vinil amarelo, no meio da sala, repousava um homem, também, exageradamente, amarelo. Uma áurea, pálida e mortiça, amarelo perolada, resplandecia do corpo. Era Raul Seixas, definitiva e indubitavelmente morto.

Canto Para Minha Morte - "O coração que se recusa a bater no próximo minuto"? "A vida mal vivida"?  

Impulsiva e excitada, Vera desceu correndo e entrou num bar ao lado do cursinho Etapa. Comprou um monte de fichas telefônicas – ainda não existia celular – e ligou para a sede da Rádio Excelsior. Entrou no ar imediatamente para comunicar o falecimento do Rei do Rock brasileiro. Repetiu a notícia incontáveis vezes, para o Brasil e para o mundo. Foi temerária, antecipou uma informação que somente seria oficializada no dia seguinte.


--  --  --  

Duas telas disputam o privilégio de ser o último quadro pintado por Van Gogh: Os campos (The fields) e Campo de Trigo com Corvos (Wheat field with crows). Não importa o resultado, porque ambos evidenciam que os momentos finais de Van Gogh estavam tomados pelo amarelo. Nada de extraordinário, nas proximidades da morte  geniais  o pintor holandês e o roqueiro baiano percebiam o mundo pelo espectro amarelo. Enxergavam e mostravam coisas invisíveis para os mortais de outra coloração. Ouro de Tolo.

Em vários quadros do pintor predomina o amarelo, e a mesma cor aparece em muitas capas célebres do cantor. No fim da vida ambos intensificaram este superpoder.  Raul Seixas exibia no próprio corpo uma aura amarela; Van Gogh morreu tentando captar a fina membrana amarela que envolve o mundo.

De alguma forma Campo de Trigo com Corvos é a ilustração perfeita para o poema A Máquina do Mundo, de Drummond.

Entrementes é bom repetir  amarelo é a cor das melhores mentes.