domingo, 28 de agosto de 2016

OS LIVROS QUE NOS PROCURAM


Houve um tempo que no Beco do Pinto, um lugar magicado, antigo e discreto – aquele do lado da Casa da Marquesa de Santos – se realizava uma Feira de Livros Usados e Novos. Era às quintas feiras, pequena, de poucas bancas e quase ignorada. De vez em quando almoçava no Piero (o antigo, no N. 98) e entrava para ver as ofertas. 

Parecia genial acontecer uma feira de livros exatamente naquela ruela seiscentista. Um dia encontrei uma oferta extraordinária numa das barracas:

O LIVRO DOS CANTARES – SHE KENG
Tradução Portuguesa – Joaquim A. Guerra, S.J.
Jesuítas Portugueses – Macau / 1979


Um livro massudo, 7,5 centímetros de altura, 1254 folhas.  Simples, elegante, sóbrio, porém muito bem planejado editorialmente. Páginas espelhadas: no lado esquerdo duas colunas, uma em chinês cursivo, alfabeto latino, outra em ideogramas; do lado direito a tradução cuidada e contida. Índices e indicações fartas, completas e pródigas. O único exagero – quase um pecado perdoado de luxúria – era a sobrecapa: belíssima, de delicada gravura silvestre chinesa.


Foi amor de colecionador à primeira vista, precisava possuí-lo. Mas era caro! Naquele momento, na carteira, não tinha dinheiro suficiente para compra-lo. O vendedor – com jeito de noviço – não aceitava cheques nem cartões. Estava atrasado, desmontando a banca porque ia viajar no meio da tarde para um mosteiro no interior (Itu, minha memória sugere). Fiquei desolado, como quem perdeu um tesouro. Folhei o livro o quanto pude, até que meus amigos de almoço pedirem para me apressar, lembraram a reunião agendada na Paulista.

Nos dias seguintes, por várias vezes, procurei a obra nas livrarias e na escassa Internet daqueles tempos, nada encontrei. O episódio começou se acomodar na memória como um daqueles inúmeros becos sem saída que preenchem as sagas pessoais de todo mundo.

Mas aí aconteceu meu próximo aniversário, e ganhei um bolo dos colegas de trabalho, e de presente o livro desejado. Uma amiga querida – agora me recordo claramente – que acompanhava a tentativa de compra frustrada, sutil e sorrateiramente desertou do grupo, retirou dinheiro, voltou rápida e comprou meu objeto de desejo.

Atualmente, nesta turbulenta era de excessos, banalização e escamoteação dos livros, é negociado por valores entre R$ 30 e 300 nas livrarias virtuais. Contudo os exemplares anunciados não têm o mesmo percurso emocional do meu. Este, cada vez que abro, me conduz à poética aventura da compra.

Minha conclusão final é de que são anjos os infinitos desacertos do dia a dia. Não sei se habitam no céu, mas certamente se manifestam nos atos de alguns amigos.


8 comentários:

  1. Não tem como dar um curtir aqui, mas curti bastante.
    Muito bonito

    ResponderExcluir
  2. Lucya Rocco, obrigado pela sua visita, seu comentário vale 1000 curtidas.

    ResponderExcluir
  3. Emocionante. Mesmo não tem idéia nenhuma sobre do que o livro trata, fiquei com vontade de ter um. Quem sabe um dia um me encontra.

    ResponderExcluir
  4. Ola Rafael Bardal, obrigado pelo visita. Certamente 'Livro dos Cantares' está te procurando.

    ResponderExcluir
  5. Que lindos poemas chineses: haikais interessantes!!!

    ResponderExcluir
  6. Bela crônica, como sempre!
    Livros são anjos encadernados...

    ResponderExcluir
  7. W Colocero, Obrigado pela visita. Gostei da expressão ''Livros são anjos encadernados'.

    ResponderExcluir