sábado, 5 de outubro de 2019

PARA ENTENDER H.P.LOVECRAFT



H.P. Lovecraft está entre os principais atratores estranhos da Cultura Pop. Em torno dele – e por causa de seu peso – gravitam milhares de obras, franquias e movimentos, em quase todas as modalidades artísticas: Literatura, Jogos Cinema, HQ... Entretanto a verdadeira importância do autor e a vasta abrangência de sua obra não são completamente conhecidos. 

Por causa disso gostei muito do livro Relances vertiginosos do desconhecido: a desolação da Ciência em H.P.Lovecraft. É inovador, destemido e inesperado em dois aspectos decisivos.

Ponto um. O turvo mestre é apresentado considerando o panorama, as referências e as circunstâncias históricas em que viveu e trabalhou, porém nos é mostrado inserido na grande Literatura do início do século XX. Ressaltando que, apesar da maioria de seus escritos terem sido publicados apenas nas revistas pulp fiction que veiculavam a Literatura mais popular de sua época, os questionamentos científicos em seus contos avançam muito mais longe.

Ponto dois. A abordagem de análise do projeto literário do Horror Cósmico, proposto por HPL, se utiliza da mais avançada Filosofia disponível para tratar dos paradigmas, abrangência e limites das Ciências.

No livro, oriundo de uma tese de mestrado, o exame da trajetória de HPL é absolutamente bem documentado. Todos os enunciados e deduções que a autora propõe são amparados por cuidadosas citações de fontes seguras e bem conceituadas.



Assim ficamos sabendo que o Cavalheiro de Providence, mesmo vivendo numa pequena cidade da Nova Inglaterra, opera com questionamentos literários convergentes com as interrogações do magistral poeta T.S.Eliot (Nobel de 48), que, com A Terra Desolada (1922) e Os Homens Ocos (1925), revolucionou a Poesia moderna inglesa. Ambos artistas sentiram o mesmo mal-estar resultante do fim de um ciclo civilizatório. Desconforto que vai resultar na vasta quebra de padrões e ousadias das Artes Plásticas europeias.

Quando a autora discute os objetivos remotos do Horror Cósmico utiliza como guias Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, listados entre as principais balizas da Filosofia da Ciência do século passado.

Não é pouco, nem banal dar conta dessa empreitada. E ainda levamos de brinde duas detalhadas análises de um par de contos do cara: Um sussurro nas trevas e Nas montanhas da loucura.

Curiosamente as duas histórias terminam recomendando cuidado com os limites e responsabilidades da Ciência, curiosamente é o mesmo alerta com que Wittgenstein – apontado como um dos quatro grandes filósofos do século passado – encerra seu livro mais importante: Tractatus logico-philosophicus, de 1922. “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.

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