quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

OBELISCO DO PIQUES - MEMÓRIA, HISTÓRIA

Entre os milhares de monumentos espalhados por S. Paulo, o ‘Obelisco do Piques’, ou ‘Pirâmide do Piques’, é especial, porque foi a “primeira obra inútil” construída na cidade. O que diferenciava a ‘Pirâmide’, de tudo que veio antes, era a absoluta gratuidade. “Era apenas um monumento. Sua função não dizia respeito a nenhum aspecto prático da vida”, ao contrário de um chafariz, de uma ponte ou, até, de um pelourinho. A conclusão que Roberto Pompeu de Toledo (A Capital da Solidão) tira dessa extravagância é, ao mesmo tempo, óbvia e brilhante: “Quer dizer que os moradores tiveram a ideia de enfeitar a cidade – e quando se quer enfeitar alguma coisa é porque se gosta dela.”

Numa leitura transversal, pode-se dizer que 1814 – o ano da inauguração da ‘Pirâmide do Piques’ – é um divisor na psicologia paulista. A população da Província de S. Paulo estava mudando de mentalidade; ao invés de desbravar sertões e caçar índios; agora queria se assentar e procurar outro jeito de ganhar a vida. O Ciclo do Café acabava de ser lançado. O paulista sempre teve viés cosmopolita, antes queria a ajuda do índio, depois dos escravos, agora era a vez dos imigrantes.


O ‘Obelisco do Piques’ foi projetado pelo Coronel e Engenheiro Daniel Pedro Müller – quer terá vida agitada na futura política paulista – e construído pelo português Vicente Gomes Pereira (Vicentinho). É dúbio o evento que motivou a homenagem oficial: pode celebrar o fim da presidência interina do Bispo D. Marcus; ou pode agradecer o fim de uma longa estiagem. Em todo caso, foi uma novidade erguer um monumento para relembrar algum acontecimento; procedimento tão esquisito que o Largo e a Ladeira anexa passaram a se chamar ‘da Memória’. Na alvoraçada e volúvel História Paulista – que adora mudar e reinventar – foi um milagre o nome e o monumento resistirem por dois séculos.

O Largo da Memória, que teve muitos nomes, sempre foi um lugar especial na geografia de Piratininga, mesmo antes da fundação de S. Paulo. Primeiro funcionou como um privilegiado ponto de descanso da Trilha Peabiru, entre o litoral e o interior. Depois virou “uma espécie de boca da cidade voltada para o sertão”, mercado de escravos e animais, local onde as pessoas pararam antes de entrar ou sair da cidade.


A História gosta de dar laços e empilhar significados, escolheu bem a localização do nosso primeiro monumento. O Largo da Memória comporta múltiplos significados, o ‘Obelisco’, quem sabe, poderia ser uma esotérica estela demarcatória do Caminho de Peabiru, ou poderia esconder uma homenagem cifrada ao Movimento Bandeirante, o principal empreendimento do povo paulista.

O Largo da Memória, este intrigante desvão topográfico – sujeito a terraplanagens, acidentes telúricos e metroviários – de alguma forma vai ficar eternizado na interessante novela de Geraldo José Vieira – A Ladeira da Memória. O livro vai ajudar a preservar o mistério e a mágica do nome e do lugar.

Porque, é bom lembrar, apesar da transcendente beleza da rosa, na memória cognitiva humana, o que prevalece é o nome.

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