terça-feira, 14 de março de 2017

Homenagem ao Rui Fernando


RUI FERNANDO entrevistado por Holbein Menezes
Márcia e Rui, no restaurante quando RUI me concedeu a entrevista abaixo.

Entrevista com o Engenheiro RUI FERNANDO, São Paulo(SP).

Pergunta um:
- Você é graduado em Técnica Eletrônica ou é formado por correspondência, ou ainda, apenas prático em eletrônica? Por favor, dê suas credenciais, os leitores agradecerão.

- Fiz o curso técnico em eletrônica em escola equivalente aos três anos do nível médio, mais um ano de estágio, mas também sou Engenheiro Eletrônico e Economista. Acho que os cursos técnicos, tanto de nível médio (técnico), quanto superior (tecnólogo), são ótimas opções para o jovem ingressar no mercado de trabalho e depois ir complementando os seus estudos com o rendimento de seu próprio salário, sem onerar tanto a família.




Pergunta dois:
- Em sua opinião, alta-fidelidade é um mero termo para designar aparelhos eletrônicos para a reprodução do som, ou uma expressão de qualidade dos aparelhos eletrônicos para a reprodução do som musical? Especificamente, que qualidades seriam essas?

- A gente se habitua a raciocinar de acordo com as dimensões daquilo que aprende, ou seja, eu conheci o termo alta-fidelidade (Hi-FI) quando nos meus quinze ou dezesseis anos comecei a ler as revistas inglesas de áudio, isso lá pelos idos dos anos setenta.Portanto, quando se menciona o termo alta fidelidade, ou Hi-FI, na minha cabeça logo surgem aqueles equipamentos espetaculares que povoaram os meus mais ávidos desejos pueris.Depois disso, se eu continuar a seguir num pensamento lógico,vou me lembrar que os ditos equipamentos de alta fidelidade tinham que possuir alguns parâmetros para atingir a qualificação de Hi-Fi.Atualmente, esses parâmetros já foram de há muito superados, como por exemplo atingir uma faixa de reprodução superior aos 15kHz.Qualquer aparelhagem vendida hoje em supermercados, pela qualificação antiga, pode ser considerada como Hi-Fi tendo em vista que as exigências de outrora foram de longe superadas pelo desenvolvimento tecnológico e que também se tornaram inesgotáveis as mentiras cara de pau do marketing atual.

Pergunta três:

- Você prefere consertar aparelhos do tipo chamado “high-end”, ou modificá-los, tornando-os específicos e próprios para dadas salas? Ou prefere projetá-los e construí-los você mesmo, na conformidade do que você entende o que seja alta-fidelidade?

- Nem é uma questão de preferência, é uma questão de vício mesmo, pois para mim a montagem de valvulados é uma verdadeira cachaça.
Mas devido à tecnologia de produção moderna e à política do setor de vendas que consiste em acabar gradativamente com a Assistência Técnica – os produtos “made in Chine” tornaram-se descartáveis – , os consertos e as melhorias (up-grades) em equipamentos que o cliente não quer perder, ou que deseja resgatar, está a ser cada vez mais demandada. Em função da escassez de mão de obra técnica realmente qualificada, a procura pelos serviços de consertos e melhorias (up-grades), assim como o de projetos específicos está cada vez maior e com um público disposto a pagar pelos preços que valem as modificações. Mas, contrariamente, cada vez menos pelos preços dos “novos” aparelhos descartáveis vendidos pelo mercado de áudio.


Pergunta quatro:

- Você que, pela profissão, convive com musicistas, audiófilos e audiotas, qual o tipo que melhor atende aos seus interesses financeiros? Você seria franco e verdadeiro o bastante para declinar que tipo de cliente prefere: o musicista (que só gosta da música); o audiófilo (que aprecia tanto à música quanto aos equipamentos); ou o anosognosíaco ou audiota (que estima acima de tudo os equipamentos “high-end”?

- Eu felizmente estou numa posição que não preciso ficar a fazer muita média. Não que esteja rico, e acredito que fazendo com paixão o que gosto de fazer, nunca vou ficar rico, pois esse ramo não dá para tanto, mas também não me deixo cair na situação de refém, em que o camarada acaba por achar, convictamente, que depende dos anunciantes ou dos clientes. Há que ter personalidade e opinião próprias, sem nunca ser mal educado, inconveniente, ou nem sequer tentar impor sua opinião sobre a dos outros. Meu cliente e amigo predileto é aquele que tem bom ouvido para música e gosta relativamente de equipamentos, ou seja, tem muito mais discos do que amplificadores. Através desses amigos/clientes consigo elaborar, inclusive, novos projetos de áudio.O amplificador Termiônica T.Rex nasceu de um projeto que contou com a inestimável colaboração do ouvido do amigo Isaac Sandes Dias, que foi exatamente o cliente que o encomendou. Vários projetos que acabaram por ocupar espaço definido na minha linha de montagens foram encomendados por Mestre Holbein, que muito colaborou escutando e analisando.

Também gosto muito dos jovens, e por vezes faço até concessões para mim antieconômicas, mas nunca deixo de me admirar e tento ajudar quando aparece um jovem que gosta de "vintages", ou que esteja economizando para formar um sistema de som com a finalidade de ouvir música de qualidade.

Pergunta cinco:

- Quais os compositores de música erudita de sua preferência? Ou os de jazz? Ou os pop? Qual o porquê de sua preferência?

- Sem medo de narizes tortos e preconceitos, a minha preferência continua sendo o rock progressivo. Foi o estilo musical que me contagiou na adolescência e juventude.Hoje sou muito mais tolerante a outros gêneros, chego até a gostar, mas ainda não consegui evoluir (se se pode chamar de “evoluir”) do meu gosto principal.Tenho uma ampla coleção de discos, que se concentra principalmente no progressivo, mas ouço praticamente tudo. Só não dá pra ouvir breganejo, musica de parquinho e musica de zona.

Pergunta seis:

- Você professa a crença de que cabos de força, cabos de áudio ou cabos de falantes fazem da reprodução do som musical a alta-fidelidade do evento original? Sim, não e por quê?
- A teoria que mais me diverte é aquela atribuída a Peter Walker, o eterno gurú da QUAD: "A principal característica de um cabo é que ele saia de um lugar e chegue ao outro”.

Depois do fino humor inglês, e da diversão, que tanto prezo, está claro que eu nunca me meteria a besta de afirmar que determinada coisa faz toda a diferença na reprodução do som musical. Acho sim, que cabos são muito importantes, essenciais mesmo, para a condução do sinal de áudio e da energia elétrica. Mais essencial, entretanto, é o maestro, que conduz a orquestra.


Vê-se por aí uma supervalorização dos cabos, mas observo que os meus amigos e clientes sérios sempre têm um pé atrás no que diz respeito ao assunto. Nota-se, por experiência, que determinados cabos soam diferentes de outros, por isso, cada um de nós deve achar o melhor cabo para o nosso sistema de som, aquele que mais nos agrade, sem dar muita importância a esse negócio de preço exorbitante que, em geral, significa mais enganação do que qualidade.Também não acho que devamos esculachar... Já que a gente gasta tanto para montar os nossos sistemas de som no maior capricho, não vamos relaxar logo nos cabos usando fio “flamenguinho” para caixas, e rabicho de gato para eletricidade.


Pergunta sete:
Na sua experiência, qual o elo essencial da corrente do sistema de alta-fidelidade? E por quê?

- O elo perdido e nunca encontrado.

Ainda não se descobriu um parâmetro que defina de forma cartesiana a perfeita reprodução do som musical. Pior do que isso, mesmo de maneira subjetiva é impossível descrever o som musical que agrade a todos os gostos. E som musical é gosto, desenvolve-se e modifica-se.


Pergunta oito:

A mídia “blu-ray” veio para substituir o DVD assim como o CD substituiu o LP, e o LP os discos de cera? Quais os argumentos de natureza essencialmente técnica?

- Será? O que eu vejo é uma necessidade premente da indústria em lançar coisas novas para substituir as antigas. Em termos de imagem até pode ser, embora já se preconize a tecnologia 4K e 16K. Os passos seguem cada vez mais firmes em direção à armazenagem das informações na nuvem. No entanto, na minha área eu sei muito bem que o que há de melhor e mais avançado tecnicamente são os “velhos” LPs, e amplificadores valvulados.


Pergunta nove:
 - Por que um reles fone de ouvido (”head phone”) produz mais fidelidade e é mais musical do que o mais sofisticado sistema de falantes? É por causa da ação negativa da Acústica das salas?

- Não acho. Para mim, os fones de ouvido são extremamente cansativos. Em matéria de som tudo que causa impacto num primeiro momento acaba por se tornar maçante no continuado uso. Os fones de ouvido são típicos representantes desse efeito, uma vez que num primeiro momento podem causar uma tremenda boa impressão, com o som direto dentro dos nossos ouvidos, mas logo vão começar a incomodar as orelhas...

Pergunta dez:
- Qual o elemento negativo que mais influencia na reprodução do som musical: a qualidade da rede elétrica pública? O correto tratamento acústico da sala de audição? As vibrações estrangeiras na instalação do sistema de som , vibrações que, segundo um cientista estadunidense, Dr. Pollman, entram no sistema eletrônico por meio dos capacitores eletrolíticos da fonte de força?

- Dos três aqui expostos eu diria que nenhum. A qualidade da rede elétrica pública está quase que completamente fora do nosso alcance.

Nós nem temos possibilidades de verificar e muito menos de contestar a soberania de nossas concessionárias amparadas de forma incondicional pelas Agências Reguladoras. Seja o que Deus quiser.

O tratamento acústico das salas se mostra, na maioria das vezes, ineficaz ou inexequível. O melhor a fazer é contar com o bom senso, um tapete, uma cortina e algumas almofadas. Investir em altos tratamentos acústicos pode causar sérios déficits orçamentários ou comprometer casamentos.

As vibrações que adentram o sistema de som devem ser controladas dentro de certa razoabilidade. Não conheço os estudos do Dr. Pollman, vou procurar me informar melhor, mas a informação de que as vibrações entram “todas” pelos capacitores da fonte, me parece radical demais.


Pergunta onze:
- Se você ganhasse a sena, sozinho, que sistema de reprodução do som musical (citar as marcas) você compraria para você?

- Não é uma questão de dinheiro, nem de status e muito menos de poder. O meu maior prazer é projetar e montar a minha própria eletrônica. Por isso, eu continuaria usando os aparelhos Termiônica.

Pergunta doze:
- De modo idêntico, que sistema (citar marcas) você daria ao seu pior inimigo?

- Para os meus inimigos, continuaria reservando o mesmo de hoje: o silêncio.


Pergunta treze:
- Que pergunta eu não fiz, mas que você teria gostado de respondê-la?

- Acho que está implícito na nossa conversa o fato de que não é preciso gastar os tubos para se montar um sistema sonoro decente. Claro que não dá para montar um sistema minimamente honesto sem gastar quase nada, mas a lógica de que a qualidade está diretamente relacionada ao preço é completamente equivocada. Como mencionei em algum ponto aí atrás, os preços caros e abusivos estão via de regra mais relacionados à enganação do que à qualidade sonora.

Devemos levar em conta que as opiniões aparentemente lógicas e coerentes, nem sempre estão corretas, justamente por se basearem em achismo ou oportunismo e não se sustentarem no conhecimento técnico. Quem gosta muito de áudio deve procurar aprofundar o conhecimento técnico para saber garimpar as verdadeiras jóias e se afastar do ouro dos tolos.

No mais, confie sempre nos próprios ouvidos e escute bastante música, pois o hábito de escutar é que faz o monge conhecedor do som musical.


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