segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Na Fila Com Marlene Dietrich

Fui ao CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil ver a Retrospectiva da MARLENE – a diva alemã do cinema antigo. Planejava passar uma tarde curtindo a atriz indecifrável, desaparecida das TVs, mesmo nos canais a cabo regiamente pagos.

Entrei na fila e comecei a ler o programa da mostra. Na capa a foto da homenageada, obviamente em preto e branco – as cores dos estados da alma – com o inseparável cigarro, que, infinitas vezes, nas velhas películas envolvia seu rosto em volutas de deslumbramentos e mistérios.

Umas 20 pessoas esperavam na minha frente, então me entretive com o livreto do evento. Acho que, enquanto estava lendo, fui transportado por um desses desvãos extratemporais onde o assombro habita, porque quando ergui os olhos das páginas a fila inteira havia se metamorfoseado.

Contei cinco ‘Woody Allen’s, todos tímidos e desajeitados, tentando entender os desacertos do mundo. Entre eles, um herege que ousou trocar os famosos óculos de aros pretos por uma finíssima armação de metal dourado. Devia ser expulso do evento.

Os ‘Alfred Hitchcock’s eram três, com suas reconhecíveis caras de enfado absoluto e barrigas proeminentes. Pareciam saber que algo terrível se anunciava e estavam ali para conferir, quem sabe encenar e dirigir a tragédia iminente.

Me espantou o número de ‘Martin Scorsese’s – sete, com seus óculos escondendo as sobrancelhas de Groucho Marx. Na verdade acho que alguns eram o ácido comediante ressuscitado.

Estavam lá o Ingmar Bergman de bermuda; o Pier Paolo Pasolini de camisa do Corinthians; o Stanley Kubrick e o Roman Polanski chupando sorvetes, e, entre os dois, uma Lolita lambendo um pirulito. Mais uma imensidão de emanações de célebres atores e diretores, muitos não consegui reconhecer.

Uma constelação de estrelas: meia dúzia de 'Marlene's; várias ‘Greta Garbo’s de olhos grandes e silenciosos; algumas 'Louise Brook's melindrosas de provocantes cabelos curtos, além de muitas ‘Marilym Monroe’s e ‘Rita Hayworth’s de vestidos colantes de todas as cores, todas já sem luvas.

Intrigado, e um pouco preocupado, voltei para o livro tentando  através da leitura  escapar daquele estado de consciência alterada. De repente me ocorreu uma questão urgente:

- E eu? Pelos olhos dos outros, quem era?

Olhei de novo para a fila e flagrei dois Fernandos Meirelles sorridentes olhando insistentemente para mim. Como estava de chapéu, pretensiosamente, torci para ter me transformado no John Huston ou no Clintão.

4 comentários:

  1. Eu, retraído, observava
    E sonhava que
    Unsere beide Schatten
    Sah'n wie einer aus
    Daß wir so lieb uns hatten
    Das sah man gleich daraus
    Und alle Leute soll'n es seh'n
    Wenn wir bei der Laterne steh'n
    |: Wie einst Lili Marleen...

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  2. Fernando Marchini Dias, penso que, hoje, as pessoas não conseguem mais avaliar o poder de encantamento de Marlene Dietrich.

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  3. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  4. Obrigado pelo comentário e pela visita, Vinho na Net.

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