quarta-feira, 24 de abril de 2013

1913 - ‘FURO’, A PRIMEIRA REUNIÃO AUDIÓFILA

Certamente é um ’furo’ na escassa História da Audiofilia. Porém fica uma dúvida: ’furo’ de novidade ou ’furo’ de falha e engano?

Até prova em contrário, a primeira reunião audiófila formalmente registrada aconteceu em Davos, Suíça, em 1913, no Sanatório Internacional Berghof, e um Prêmio Nobel de Literatura, de mãe era brasileira, escreveu o review do equipamento testado.

Exatamente na mesma Davos que, anualmente, recebe os chefes de estado do mundo inteiro para o Fórum Econômico Mundial. Pena que o Sanatório Internacional Berghof nunca existiu, foi uma ficção imaginada por Thomas Mann, Nobel de 1929, baseada numa instituição que recebia os enfermos, ricos e falantes de alemão, atacados por tuberculose ou problemas respiratórios antes da Primeira Guerra. Este grupo seleto de internos foi a plateia da audição audiófila para avaliação do fonógrafo (ou vitrola), marca Polyhymnia. Um orgulho da indústria alemã de áudio do começo do século passado.

Tudo isso está no livro A Montanha Mágica (Der Zauberberg), publicado em 1924 – um dos 100 maiores livros do Século XX, segundo o Le Monde. Aparece num curioso e curto episódio chamado ‘Abundância de Harmonia’, no sétimo capítulo do romance.

São 25 páginas que contêm um modelo premonitório dos reviews que os praticantes da sutil arte da Audiófilia se acostumaram a ler nas publicações e sites especializados. No texto modelar tem a avaliação do equipamento; a lista das vantagens do novo produto sobre os concorrentes; a descrição do inusitado som produzido pelo aparelho; a demonstração de que é superior a tudo que ouvinte já experimentou antes; e, como não poderia deixar de ser, a relação dos discos utilizados nos testes e os efeitos produzidos por cada um deles. Todavia não traz uma tabela de notas e não usa a conhecida nomenclatura e metodologia do Fernando Andrette.

É interessante recuperar alguns trechos selecionados para evidenciar o sabor inaugural, e ao mesmo tempo reconhecível, dos comentários.

Obviamente a vitrola era hiend, porque hiend é relativo e datado, portanto, já naqueles tempos pretéritos, de preço proibitivamente alto:
"A compra, cuja ideia era fruto dos incessantes cuidados da gerência [...] e exigira despesas que não queremos computar, mas devemos qualificar de generosas por parte da direção desse estabelecimento, que merece a nossa irrestrita recomendação."
O novo equipamento não podia ser comparado com seus concorrentes, era superior, de natureza diferente, um salto no futuro. Trazia tecnologias novas e ostentava qualidades sonoras jamais alcançadas. Até o cabo merecia destaque especial (negrito). Um prodígio, que não necessitava da manivela de dar corda.
"Não falamos de um daqueles míseros caixotes a manivela que em tempos remotos enchiam os ouvidos pouco exigentes do público de restaurantes com seus berros fanhosos, esses caixotes coroados pelo prato giratório e pelo braço da agulha, e que pareciam apêndices de um monstruoso funil de trombeta. A arca preta, de madeira mate, um pouco mais comprida do que larga, que ali, em cima de uma estantezinha, exibia as suas linhas simples e nobres, e que um fio revestido de seda ligava a uma tomada elétrica embutida na parede, absolutamente não se parecia com aquelas máquinas toscas, antediluvianas. Abria-se a tampa graciosamente chanfrada, guarnecida no seu interior de um suporte metálico dobradiço que, ao levantar-se do fundo do aparelho, fixava-a automaticamente numa posição oblíqua, protetora; e numa concavidade pouco profunda via-se o prato giratório, forrado de pano verde, cingido de um aro niquelado, com o pino central igualmente de níquel, que se enfiaria no furo dos discos de ebonite. Notava-se, além disso, bem na frente, ao lado direito, um dispositivo cifrado à maneira de relógio, e que servia para regular a velocidade. À esquerda, havia uma alavanca, mediante a qual se podia por em marcha ou travar o mecanismo, e mais para trás, ao mesmo lado, o braço oco, niquelado, sinuoso e claviforme, que se movia em articulações macias e tinha na sua extremidade o diafragma redondo, achatado, com o torninho destinado a segurar a agulha."
Enfaticamente um paradigma científico, com performance comparável apenas aos itens fora de série, como os violinos de Cremona:
"– É o modelo mais recente. [...] A última conquista da técnica. [...] de primeiríssima qualidade! Ultrafino! Não há coisa melhor nesse gênero. [...] – Isto não é aparelho, não é máquina – continuou, enquanto tirava uma agulha de uma caixinha colorida, de lata, que se achava na mesa, e a fixava no diafragma, – isso aí é um instrumento, é um Stradivarius, um Guarneri, com ressonâncias e vibrações do mais extremo refinamento! A marca é Polyhymnia, segundo nos informa esta inscrição no interior da tampa. Fabricada na Alemanha. Nesse ramo ninguém nos ganha, sabem? O sentimentalismo musical em forma moderna, mecanizada! A alma alemã up to date!"
Todos esses atributos insondáveis conferiam ao som uma áurea esplendida, celestial, inesquecível. Porém, é notório, este primeiro review já deixa consignado que música reproduzida é distinta dos espetáculos ao vivo (negrito): 
"Todos escutavam, sorrindo, boquiabertos. Não podiam dar crédito a seus ouvidos, tão puros e tão naturais saíam os trinados dos sopros de madeira. Um violino, sozinho, preludiava fantasiando. Ouviam-se o toque do arco, o tremolo da mão esquerda, a suave transição de uma posição a outra. O violino encontrou a melodia que procurara, uma valsa, Ai de mim, perdi a amada. Graciosamente, a orquestra acompanhava a ária insinuante, e era delicioso quando esta, honrosamente acolhida pelo conjunto dos músicos, se repetia sob o estrondo dos tutti. Não era, naturalmente, a mesma coisa como se uma verdadeira orquestra tocasse no salão. O som não sofria a menor desfiguração, mas o seu volume estava diminuído pela perspectiva; se nos é permitido empregar diante desse fenômeno acústico uma comparação tirada do terreno da óptica: era como se olhássemos um quadro por um binóculo às avessas, de modo que aparecesse distante e reduzido, sem detrimento da nitidez do desenho e da luminosidade das cores."
O segundo disco trazia um barítono numa ária da ópera O Barbeiro de Sevilha. O surpreendente na avaliação desse item é que o resultado nos parece familiar, ‘moderno’ e coerente. Ou seja, se a música reproduzida soa pior e menor nas massas sinfônicas, o fonógrafo, nas vozes e pequenos conjuntos empata ou ganha (negrito), talvez com mais encanto e prazer.
"Uma voz humana brotou da arca, voz máscula, ao mesmo tempo macia e poderosa, acompanhada por uma orquestra. Era um barítono italiano de grande fama. Desta vez já não se podia falar de distância e de véus abafadores. A magnífica voz ressoava na plenitude natural do seu volume e vigor. Quem passasse para uma das salas vizinhas, cujas portas estavam abertas, e não visse o aparelho, poderia pensar que o cantor em carne e osso estivesse presente, e cantasse com as músicas na mão."
Com boa vontade pode-se até captar um prenúncio do famigerado ‘palco sonoro’ (negrito):
"As pessoas mais competentes talvez fossem capazes de observar e de apreciar a arte do fraseado e da técnica respiratória. Mestre na apresentação irresistível, virtuose do gosto latino que exige o “da capo”, cantor sustentou por muito tempo a penúltima nota, antes da tônica final. Parecia aproximar-se da ribalta e erguer uma das mãos, a ponto de o público bater palmas ainda antes do fim da ária. Era esplêndido."
O autor do livro não menciona intérpretes, mas as quatro gravações ‘audiófilas’ escolhidas por Hans Cartorp – o herói do romance e ‘dono’ da sala – para explorar os limites da vitrola foram as seguintes: a) os dois atos finais de Aida, Verdi; b) Prélude à l'après-midi d'un faune, Debussy; c) o segundo ato de Carmen, Bizet; e (d) A Tilia, um lied de Schubert. Ainda hoje, facilmente, daria para avaliar um setup com esse grupo de peças.


As citações destacadas são uma brincadeira, uma provocação lúdica e cordial aos reviews (imprescindíveis para o hobby); entretanto meramente arranha o texto original, que é uma obra de arte. As 25 páginas do episódio ‘Abundância de Harmonia’ mostram que desde o aparecimento dos aparelhos de som - mais de um século atrás - a mágica da música reproduzida não mudou muito, provoca os mesmos sentimentos no ouvinte. Comprova que o fascínio e o mistério da Audiofilia continuam indecifráveis e inexplicáveis.

A leitura confirma que, defronte a um setup, ficamos indefinidamente balançando numa dúvida perene e pendular: o som é diferente da apresentação original, melhor e pior ao mesmo tempo. E muda sempre, junto com o sistema. Ora se aproxima do real, ora se distancia dele. E, às vezes, quando se distancia, fica muito mais gostoso.

Na decifração dessa perpétua incerteza quântica reside a Audiofilia. O ouvinte e os aparelhos são os agentes que interferem na música alterando os resultados, porem nunca chegando exatamente aonde desejam.

O texto completo do romance A Montanha Mágica, em pdf, pode ser encontrado neste endereço (>>> LER 'A MONTANHA MÁGICA' EM PDF)

O episódio 'Abundância de Harmonia’, objeto desse artigo, começa na página 419.


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6 comentários:

  1. Em 1913 as audições de músicas reproduzidas eletronicamente não tinham nada de alta-fidelidade, tanto pela mídia gravada quanto pela qualidade da reprodução. O som era idêntico ao dos rádios de ondas médias e ondas curtas. Tocar, tocavam, mas sem fidelidade alguma. A farra estava nos encontros, não na audição.

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  2. Muito obrigado pelo comentário.

    Não sei se o Thomas Mann concordaria com você.

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  3. Uma audição num equipamento "Hi End" nos idos de 1910 deve ter causado o mesmo assombro quando da primeira exibição pública do cinematógrafo dos irmãos Lumiere no Gran Cafe em Paris, poucas décadas antes. Como o mestre doulas sempre diz, nosso hobby é relativo e temporal.
    Mais um belo texto que tive o prazer de ler.

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  4. Concordo, a experiência dos ouvintes de 1910 deve ter sido indescritível. Ou melhor, só pôde ser descrita por um Nobel de Literatura. Fiquei siderado quando, depois de cooptado pelo Audiofilia, reli este texto.

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  5. Em 1910 o som reproduzido em aparelhos domésticos não tinha absolutamente nada de alta fidelidade. Simplesmente tocavam, como toca um radinho de pilha. A emoção de ouvir era por causa da nova opção de poder ouvir alguma coisa em casa.

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  6. Muito obrigado pela atenção e comentário.

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