terça-feira, 21 de maio de 2013

MADONA DE NORWEGIAN WOOD


Sou cientista, não escritor, revisei este texto muitas vezes, mas ainda está repleto de estranhezas. Porque foi escrito para uma leitora única e especial que entenderá os excessos, atos falhos e meias palavras que aparecem nesta confissão. Posso garantir que é uma tentativa honesta e verdadeira de relatar minhas buscas pela mulher perfeita.

Meu nome é Edjo José Kuzkir. Com 37 anos acabei o pós-doutoramento em Metalurgia, com uma tese sobre têmperas de aço. Só então considerei encerradas a adolescência e vida de estudante. A aprovação com louvor da tese foi meu rito de passagem. Era hora de iniciar o grande projeto da vida adulta: encontrar a esposa ressonhada.

Nós poloneses temos nosso temperamento nacional: os russos são tristes, os alemães racionais e os polacos precavidos. Sempre nos preparamos em demasia para qualquer coisa. E o casamento é a coisa mais séria da vida. Tive casos esparsos e relações efêmeras, sem nunca me precipitar, porque sonhava com uma parceira perfeita esperando por mim. Uma mulher mágica que durante anos fui idealizando dentro da mente. Ainda persisto nesta quimera, sem ela serei incompleto e infeliz.

Pelo que lembro esta idiopatia começou quando assisti a ópera Flauta Mágica. Me eletrificou o amor de Pamino e Tamina, O príncipe se apaixona pela princesa quando vê um camafeu com o rosto dela pintado. E ela, ao saber que é amada, começa a amá-lo imediatamente. Me encantou essa simpleza e reciprocidade. Desde garoto tinha a intuição de que o amor é obra do destino, um inexplicável emaranhamento quântico que liga duas pessoas de forma misteriosa e inquebrantável. Portanto devia existir uma mulher especial aguardando por mim. Passei anos olhando fotografias e rostos tentando descobrir a parceira prometida, entretanto, o primeiro vislumbre que tive da senhora das minhas fantasias aconteceu numa música dos Beatles.

Quando ouvi Norwegian Wood fiquei baratinado. A musa de McCartney era outra, mas os versos descreviam a amada que habitava meus delírios. A moça não tinha cadeiras, mas a gente sentava no tapete e ficava confortável. Ela mandava no tempo, podia esticar e encolher as horas à vontade. Falava do que nos faltava, do que precisávamos e do que nos completava; transformava os momentos compartilhados em hiatos de felicidade eterna. Todavia, Paul, já no título, alertava: “this bird has flown”

Era preciso ficar esperto neste jogo dúbio, a gente nunca sabe se conquista ou é conquistado: “I once had a girl, / or should I say, she once had me”. Assim, quando acontecer o encontro, mesmo se a amada não reconhecer de imediato que somos o parceiro ideal, é necessário insistir, perseverar. Porque, se perdermos a chance, o caos se instalará na alma e será preciso cometer a loucura de queimar a casa de madeira norueguesa.

Ouvi essa música milhares de vezes, conhecia perfeitamente os gostos e o jeito da garota. Adivinhava seus desejos e entendia suas reações, contudo, por mais que tentasse, não conseguia visualizar seu rosto. Às vezes nas ruas, nos shoppings, nas aulas e palestras, achava ter encontrado a outra metade que me complementaria, porém um sorriso, um gesto, um movimento indevido, mostravam que estava enganado. Nunca desisti dos meus sonhos, até que um dia, dez anos atrás, consegui enfim ver sua face. Foi um momento epifânico. E, melhor ainda, do jeito que a conheci, podia ficar olhando seu rosto o tempo que quisesse.

Durante a longa vida de estudante e pesquisador, quanto as coisas fugiam do controle, saia para caminhar pela cidade. Um dia descobri o esconderijo ideal pata meditar, confortável e fora do tempo: os salões do MASP. Aos poucos virou uma necessidade orgânica, uma vez por mês fugia para o museu, passava a tarde refletindo e sincronizando minh'alma com o ritmo do mundo. Porque com a rotina diária ficamos descompassados dos nossos sonhos. Numa dessas visitas sentei defronte o óleo de Piero di Cosimo, a Virgem com o Menino, São João Batista Criança e um Anjo. Um quadro redondo, grande, de mais de 500 anos, quando olhei o rosto da virgem reconheci imediatamente a companheira prometida. Uma moça loira, linda e delicada; de rosto oval, sábio e sereno. Infinitamente paciente. Merecedora de toda paixão que trazia acumulada dentro da alma.

As feições das Madonas variam vastamente, dependem das modelos selecionadas pelos pintores. Não sei se a escolha de Piero di Cosimo foi guiada pelo destino ou pelo acaso, mas registrou, através de uma  eventual antepassada, os traços de minha amada. Agora eu sabia precisamente quem devia procurar.

A medida que me familiarizava com o quadro e estudava sua história fui detectando sinais e prenúncios óbvios. A composição é meio defasada, antecipa o modernismo rude e lembra as paisagens devastadas e oníricas de Dalí. Exibe um pássaro caçando uma lagarta, tema insano numa alegoria da Madona. No entanto, a figura mais intrigante é o anjo que acompanha Maria. Furtivo, despropositado e desajeitado, colhendo flores numa perpétua adoração da Virgem. Tem cabelos longos, loiros e escorridos, olhos um pouco esbugalhados, e a Santa o ignora docemente. Profeticamente se parece comigo, de corpo e alma.

Meus pais são católicos praticantes, com a indicação do Papa João Paulo II todos os polacos, inclusive eu, se sentiram um pouco o povo eleito. Assim, encontrar o rosto da amada numa imagem de Nossa Senhora quinhentista foi um choque, uma revelação e uma premonição. Confirmou minha intuição, os casais, como explicou Platão, são seres divididos que se procuram pela vida, e pelo tempo afora.


A busca metódica da Madona de Norwegian Wood começou logo depois que vi a pintura. Passei a frequentar as redes sociais (principalmente as que exibiam fotos), festas, baladas, casamentos e aniversários. Aceitava qualquer convite e procurava eventos de todos os tipos. Encontrei algumas moças que se pareciam com, ou lembravam, a Madona, porém quando me aproximava para conversar ficava decepcionado. Uma vez, num jantar de engenheiros, o acaso me colocou ao lado de uma criatura excepcional, conversamos a noite inteira, falamos e rimos de tudo, inclusive de nós mesmos, só nos separamos de manhã. A mulher mais envolvente e carinhosa que conheci. Belíssima, estrela de novela das oito. Maldisse Piero di Cosimo, porque Tânia era morena-jambo e tinha cabelos castanho-escuros.

Uma noite, descendo a Rua Bela Cintra, parei no farol da Fernando de Albuquerque. Na esquina três moças procuravam clientes. Estava perto da calçada, pude olhar direito, fiquei estarrecido, uma delas era idêntica à Madona do MASP. Dei três voltar para confirmar, e, para pensar melhor, fiz os retornos cada vez mais longe. Nunca, em nenhuma das variantes imaginadas, considerei a hipótese da minha prometida ser uma prostituta. Na segunda passagem já tinham me notado, comentavam rindo entre si. Estava transpassado, porém me lembrei do aviso de Paul McCartney: é recomendável insistir, perseverar; porque senão seria preciso queimar toda a bela madeira norueguesa. Revolvi conversar com a Madona.

Entrou no carro – roupa escassa e brilhante, excessivamente perfumada – e me conduziu para um hotelzinho na Bela Vista. Típico, sem letreiro, apenas com o contorno desenhado a neon. No caminho, dengosa, esticou o braço para acariciar minha virilha, me senti no filme errado, afastei a mão. Entramos no quarto e ela começou a se despir sensualmente, pedi para parar.

“Então o que quer fazer?”

“Conversar.”

Pela reação percebi que não era uma proposta incomum. Recostou na cama, de calcinha e soutien pretos. Peguei a única cadeira disponível e sentei com o encosto contra o peito, para apreciar melhor a cena. Era fantástica, lasciva, herética e linda. Parecia que estava vendo a sacrossanta Madona de Piero di Cosimo recriada numa transição entre a La Maja Desnuda e a La Maja Vestida de Goya. Contei para a garota a história inteira, excitado com a visão e culpado porque estava gostando.

“Mas, enfim, o que você quer comigo?”

“Namorar, casar...”

Ela riu, como uma menina boazinha riria para um ET perdido numa conexão intergalática.

“Não quero casar! Fugi de Curitiba para evitar o tédio da vida de casada.”

Trilhava uma rota maluca, preparado para tudo, menos para receber um não da minha noiva presuntiva. Ela percebeu a desilusão desenhada no meu rosto.

“Você é doido de pau! Precisa se tratar.”

De repente sorriu resplandecente, seu rosto se iluminou, gloriosa como uma santa num altar. A aventura louca daquela noite, a soma da vida inteira, valeu por aquele sorriso.

“Vou te dar o endereço de uma terapeuta, devia procurá-la. Não outra. Acho que somente esta vai poder tratar você com sucesso.”

Tirou da bolsa um cartãozinho e escreveu alguma coisa. Peguei o cartão, de um lado, manuscrito, 'Dra. Flora  Psicoterapeuta' e um telefone; do outro lado, impresso em dourado, 'Circe' e um celular.

Obedeci a Madona, marquei consulta para uma quinta-feira, cinco da tarde. Era na Avenida Indianópolis, cheguei pontualmente, quando você abriu a porta fiquei perplexo, estupefato, aplastado. Primeiro pensei que fosse uma brincadeira, uma fantasia erótica, Circe vestida de médica; mas você parecia mais nova, seu rosto era mais suave. Depois, vendo o consultório correto e profissional, imaginei uma prima. Porém, conhecia bem demais aquele rosto, nem parentes têm traços tão semelhantes. Por fim conclui que eram irmãs gêmeas.

Como deve se lembrar, no começo fiquei catatônico, não conseguia dizer nada. Muito tempo depois balbuciei alguma coisa, passei a falar engrolado, atropelado demais, sem concatenar as ideias. Frases truncadas, repetidas, cheias de exclamações e interjeições. Sem começar a conversa acabou.

Você foi magnífica, meiga, perfeita e absolutamente profissional. Disse que não iria cobrar a consulta e marcou uma nova sessão para a próxima quinta-feira. Pediu, orientou, sugeriu que eu escrevesse a história da minha vida, desde as primeiras lembranças. Explicou que ajudaria a ordenar as ideias e romper o bloqueio da fala. Achei correto ter insistido para não procura-la antes da próxima sessão.

Repensando o encontro, desconfio que já sabia quase tudo sobre mim, porque ja havia contado as desventuras completas da busca insensata para Circe – com ela não fiquei travado – que deve ter repetido tudo para você, inclusive com comentários. Espero que tenham sido simpáticos.

8 comentários:

  1. Obrigado pela visita e pelo comentário Maria Luíza Faria

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  2. Um conto maravilhosamente tentador.
    Prende o leitor, perfeito!
    Aplausos!

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  3. Obrigado pelo comentário Suely Sette, é um conto de trama densa.

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  4. Obrigado Vera, gostei do superlativo, é quase um colagem das coisas que gosto.

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  5. All the lonely people/Where do they all come from?/All the lonely people/Where do they all belong?... Minha estranha e fugaz Circe- ou seria Berenice, por seus longos cabelos - era exclusivamente da Praça Roosevelt. // Adoro contos que atraem histórias dos anos em que meu cabelo ia pelos ombros!

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  6. Fernando Marchini Dias, as memórias algumas vezes são fardos, mas outras são velas que nos ajudam a navegar pelo passado.

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