quinta-feira, 9 de maio de 2013

NA SALA DO FERNANDO ANDRETTE - AGOSTO/2008


Cinco anos atrás participei de uma avaliação de equipamentos na Sala do Fernando Andrette, em São Roque. Obviamente fiquei maravilhado com o espaço e com o setup.

Relendo o depoimento contatei, espantado, que os termos utilizados eram os mesmos de sempre. Só mudam as comparações e metáforas, que dependem da vivência de cada audiófilo.

Acho que já gastamos nossos estoques de expressões de deslumbramento e louvação. Entretanto, numa nova audição, hoje, e com equipamentos completamente diferentes, talvez as frases fossem bastante semelhantes. E, nenhuma das apreciações seria falsa ou mentirosa.

O depoimento está publicado na revista Audio & Video n. 137, de agosto de 2008, e, para facilitar, reproduzido abaixo.

Testes na Sala de Áudio Fernando Andrette – 01/07/2008

Uma sala de áudio construída com as melhores técnicas, competência e bom gosto. Paredes e tetos de belíssima madeira clara, “isn't it good Norwegian wood?” Com calculados e bem posicionados escaninhos de geometria variada para controlar e induzir as respostas sonoras. Grandes painéis de tecido cinza claro, acolhedores e repousantes, espalhavam-se por um ambiente amplo e bem proporcionado, obedecendo as mais recentes recomendações acústicas. No fundo um silêncio premeditado, doce, dócil e complacente.

Racks turbinados com um trio de equipamentos Naim: CD Player CD 555, Pré Amplificador NAC 552 e Power NAP500. Componentes e conjunto desenhados com robustez e leveza, sobriedade e elegância. Projetados para extrair das gravações todas suas potencialidades e intenções subjacentes. Processando e entregando como resultado o mais orgânico, fiel e equilibrado som possível, devidamente valorizado por um par de caixas Dynaudio Temptation, com cabos originais Naim.

Foi isso que encontrei numa esplêndida manhã, com o Sol rompendo as derradeiras brumas de uma colina nos altos de São Roque. O ar estava puro e fresco, a hospitalidade do Fernando fraterna e calorosa. O paraíso talvez ficasse por perto.

Obviamente aquele era um espaço e um momento privilegiados, a conjunção da sala e dos equipamentos resultava extraordinária, quase mágica. Encontrar similares da mesma categoria não é um desafio pequeno, em qualquer latitude. Portanto, compelido pelo desconhecimento de sistemas comparativos equivalentes e por conveniências pessoais, conclui que os únicos paradigmas possíveis eram as audições ao vivo, uma vez que sou um espectador contumaz de apresentações de música, especialmente clássicas.

Iniciadas as audições, as cerca de vinte cinco faixas, escolhidas criteriosamente, ilustravam brilhante e didaticamente a metodologia de avaliação da CAVI. Cada detalhe, cada tópico fartamente evidenciado, discutido e demonstrado. Entretanto, diante do meu maravilhamento com a sala e os equipamentos, os parâmetros de avaliação abandonaram a coerência da conceituação e enveredaram para as zonas do deslumbramento e do assombro.

Logo nas primeiras faixas dos CDs Genuinamente Brasileiro, volumes 1 e 2, o sistema patenteou seus elevadíssimos atributos. Provou ser inteiramente possível salientar um instrumento específico, enfatizando seu foco, recorte e ambiência, preservando, contudo, a percepção integral da rica tessitura do conjunto.

A amostra selecionada tinha um viés jazzístico, ou ‘bluseiro’, conforme a acepção de Billie Holiday. O que foi um ganho adicional, porque, no geral, as gravações desse tipo de música se ajustam melhor a sistemas sofisticados. São décadas de aprimoramentos e contínuos refinamentos da engenharia de som para proporcionar momentos memoráveis, generosamente evidenciados pela junção da sala e dos equipamentos Naim. A dicção da Diane Schuur, os ínfimos tiques melódicos de Harry Belafonte, as inusitadas experimentações instrumentais da Jaco Pastorius Big Band e The Clayton Hamilton Jazz Orchestra, algumas, entre centenas de preciosidades.

Meu reino, contudo, está no mundo da Música Clássica, que, apesar de bem comportado, tem suas peculiaridades. Nas execuções ao vivo, qualquer que seja a sala, inevitavelmente, o som é um pouco sujo. Junto com a música ouvimos a respiração da platéia, a constante acomodação das pessoas, a fricção das roupas contra as poltronas, um murmúrio contido e perene. Ruídos de fundo que, como o barulho das ondas, filtramos e acabamos por ignorar. Num espaço exemplar e com bons equipamentos, sobretudo em faixas gravadas em estúdio, a sujeira é eliminada, o som fica limpo e diáfano. Nossa audição é expandida, ganha nitidez, mergulha mais fundo. Consegue um detalhamento mais granulado, tendendo ao fractal. Passamos a explorar o silêncio nobre, esse onipresente e fugidio elemento catalisador da música.

Com a luxuosa ambiência garantida pela sala e pelos equipamentos, as peças clássicas me encantaram. Em Debussy, pelo Claudio Arrau, a persistência prolongada do som do piano era fascinante, as vibrações das cordas eram tácteis, epidérmicas. Na Toccata & Fuge, de Bach, com Tom Koopman, um majestoso órgão, tubo por tubo, das pequenas cornetas em baixo às grandes tubas no alto, se levantou entre as caixas. Fomos transportados para uma velha catedral europeia. No fim, Stravinsky, L´Histoire du Soldat e aquele espaço soberbo ofereceram a melhor das regências de Boulez. Cada naipe, cada instrumento, cada nota, cada intenção, magnificamente reproduzidas, dentro de uma massa sonora consistente, todavia fluida.

Posso assegurar que foi uma manhã de revelações, esta audição representou um ponto de mutação das minhas avaliações de salas e equipamentos. Um salto quântico, abriram-se novas dimensões. A escala foi largamente entendida, os valores mais altos foram deslocados muito para cima. Depois dessa experiência estou convicto que, em condições corretas, com salas e equipamentos excelentes, é possível alcançar a música pura dos mundos platônicos, onde existe uma adequação sublime ente os sons ouvidos e as reminiscências da música perfeita que cada um de nós traz dentro de si.

5 comentários:

  1. Participei em 2 oportunidades de avaliações na sala do Fernando Andrette. O som nas duas ocasiões não era lá estas coisas. O que mais aborrece nestes encontros com ele, é que ele se porta como o dono absoluto da verdade, e quer porque quer, fazer os ouvintes acreditarem que apenas as suas observações são sempre as que valem. Tendencioso demais.

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    1. Dor de cotovelo incomoda.
      O Sr. Andrette entende do assunto e possui equipamentos excepcionais; o que têm de mal nisso?
      Att.
      Alberto Cucio

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  2. Alberto Cucio, você ainda tem muito o que aprender sobre alta fidelidade. O Fernando Andrette sempre colocou, e cada vez mais coloca, seus interesses comerciais acima da qualidade de áudio.

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  3. Li certa vez, alguns artigos do Fernando Andrette em sua própria revista AVM (onde mais poderia ele publicar?). Como engenheiro eletrônico (projetista de equipamentos e sistemas de controle) e músico amador (toco piano e flauta transversal) minhas sensações iam da ânsia de vômito à vontade de gargalhar tamanha a quantidade de baboseiras proferidas. Pródigo em adjetivos e metáforas, suas impressões não se sustentam em fatos técnico/científicos. Conclusão: uma baboseira que só serve para manter o culto dos pobres infelizes engolidos pela seita do “Áudio High End”. A igreja Áudio Video Magazine só serve aos interesses de seu Pastor, Fernando Andrette.

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  4. Obrigado pelo comentário Angelo Fares Menhen.

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