terça-feira, 9 de dezembro de 2014

MUITO ANTES DO EDIFÍCIO COPAN


A foto panorâmica foi tirada da torre da Igreja da Consolação, no início dos anos 50, quando o triângulo formado pelas Avenidas Ipiranga, Consolação e São Luís se tornou objeto de desejo de todas as construtoras.

Já estavam prontos os grandes edifícios do lado impar da São Luís, a Biblioteca Mário de Andrade e o Novo Hotel Jaraguá (antigo Estadão). Contudo, o desejado graal do triângulo permanecia praticamente vazio. Ainda estava intacta a saudosa e deliciosa Vila Normandia, obra do arquiteto Júlio de Abreu Junior nos terrenos do Conde Sílvio Álvares Penteado.

Os planos e projetos para ocupação dos terrenos estavam no fogo ardente das negociações imobiliárias. O Itália, o Copan e os edifícios residenciais do lado par da São Luís logo brotariam para verticalizar e transfigurar o triângulo.

Curioso, entretanto, é que uma pequena e interessante construção, com exíguos térreo e seis andares, já se emperiquitava, premonitória, no vasto terreno desocupado. Não se declarava nem edifício nem prédio, apenas ‘CRUZEIRO’, no número 355 da Rua Araújo.

O predinho existe e resiste até os dias de hoje, engolido e despercebido entre as imensas construções que o cercaram. Se não fosse a antiga fotografia panorâmica nunca teria prestado atenção nesta testemunha do passado, que viu tudo acontecer.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CONSOLAÇÃO - CAPELA DO SANTÍSSIMO - 6 QUADROS DE BENEDITO CALIXTO


Dentro da Igreja Nossa Senhora da Consolação – na Praça Roosevelt – do lado direito do altar, fica a Capela do Santíssimo Sacramento. A porta, sempre aberta, está debaixo do quadro 'Santa Ceia' de Oscar Pereira da Silva.

É pequena, 50 metros2 , tamanho de uma sala média, com o vitral voltado para um bosque. No fim da tarde, a capela, apesar de miúda, quando recebe o sol noroeste de revés, vira uma ‘catedral de silêncios eleitos’. Os vidros rutilam e as cores dos quadros acordam e se acendem esfuziantes; as horas se enroscam encantadas e passam devagar pelo relógio.

Duas coisas espantam e fascinam na capelinha. Primeiro, acolhe os suplicantes mais calados e angustiados, os muito necessitados. Os fiéis fervorosos, que entram correndo para se refugiar lá, no coração da Igreja. Segundo, está luxuosamente enfeitada por todos os seis magníficos painéis de Benedito Calixto que a igreja possui. O cara é um dos quatro grandes pintores paulistas pré-modernistas. De todos, o que melhor explorou as motivações sacras.

As seis telas são de 1918, do apogeu artístico de Benedito Calixto, quando ainda não era o padroeiro da feirinha de sábado na praça com seu nome. Tanto que, em 1919, Monteiro Lobato  fã do Benedito, que não gostava das mistificações de Anita Malfatti  afirmou que era o mestre paulista que mais vendia. Devia ser verdade, porque várias cidades do interior paulista, importantes no ciclo do café, como Santos, Brotas, Bocaina, São Carlos e diversas outras, se orgulham de ter obras e afrescos pintados por ele nos suas igrejas e fazendas. Algumas delas criaram museus dedicados ao artista.  

Benedito Calixto, como todo pintor que alcançou sucesso, reproduzia fartamente os temas mais bem aceitos, quase sem alterações. Em consequência, um par de quadros da Consolação, ‘A Caminho de Emaús’ e ‘A Ceia de Emaús’, têm diversas versões espalhadas pelo estado, Os outros quatro retratam santos mais exclusivos: São Tarcísio, São Tomás, Santa Clara e Santo Antonio de Pádua.

Muitos sites falam de um São Boaventura, contudo, parece que estão equivocados, o santo não está na capela, nem consta nas documentações acadêmicas das obras do autor.

A Igreja da Consolação  e especialmente a Capela do Santíssimo  é um excelente lugar para PAULISTAR, fácil de visitar e propício para meditar. Ótimo para recosturar a alma no corpo, têm belas obras de arte e fica perto da Estação República do Metro.

Depois, na volta, dá para passar no Café Floresta no Copan, um dos três melhores de S. Paulo.

AS SEIS PINTURAS

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

SAUDADES DOS LIVROS LIDOS


As vezes, correndo os olhos pelas estantes das livrarias – ou dos amigos, passamos por territórios literários conhecidos, que exploramos sozinhos em longas leituras: Machado de Assis, Fernando Pessoa, Drummond, Dostoiévski, Hesse, Proust, Borges... Mais países do que a ONU. Estas perambulações do olhar são fascinantes e perigosas, porque atiçam e avivam um tipo muito peculiar de emoção: as 'saudades dos livros lidos'.

Infelizmente, os livros, a gente só lê mesmo uma vez. Depois revisita, relembra, recupera ou mata saudades. Ler de verdade – com excitação, pressa e fôlego preso – só a primeira vez.

É impossível descrever as tempestades de sentimentos que as primeiras leituras dos bons livros desencadeiam nas almas dos leitores sensíveis. Uma experiência singular que cada pessoa vivencia apenas uma vez. Feito as grandes paixões, são vincos e dobras que marcam nossas almas para sempre. Como as rugas, jamais nos livramos delas, e se multiplicam com a idade.

Não existe escapatória, podemos reler infinitas vezes; revisitar os trechos preferidos; estudar as melhores passagens e capítulos; decorar pedaços inteiros; escrever teses de mestrado... Porém, nunca recuperamos o impacto do primeiro contato.

Como não se deslumbrar e se entregar às dubiedades de Capitu, de Dom Casmurro? Não se maravilhar com as peregrinações de Harry Haller, o ‘outsider’ d’O Lobo da Estepe? Não se arrepiar com a descida aos infernos interiores de Raskólnikov, no Crime e Castigo? Reviver as incertezas de Riobaldo, nos Grandes Sertões: Veredas? Sentir uma incômoda solidariedade com Gollum no Senhor de Aneis?

O mundo dos livros têm infinitas veredas, cada leitor cria seu próprio itinerário. Contudo o primeiro contato com um livro é sempre mágico: inesquecível e, infelizmente, irrecuperável.

*****     *****     *****

Então, algum dia, por casualidade, alguém nos fala; ou lemos num artigo; ou esbarramos numa livraria com um novo e desconhecido autor (Elias Canetti, Kawabata Yasunari, Osman Lins?). Parece que descobrimos uma galáxia não catalogada. Somos presenteados com uma nova, longa e excitante exploração. Dependendo da velocidade de leitura são meses ou anos de prazeres inesperados. Ai, de repente, o amigo novo fica velho, cartografado no nosso mapa de delícias, e vira 'saudades dos livros lidos'.

Por isso – mesmo sendo uma mania insana  – é recomendável guardar algum autor, comprovadamente bom, sem nunca lê-lo. Preservar, resguardada na estante, esta chance do deleite inigualável da primeira leitura.

Deve-se abster, inclusive, de folhear os livros do autor reservado para não cair na tentação de começar a ler. Porque não da para saber se algum dia não seremos abduzidos para uma ilha deserta, com direito apenas a uma escolha?

É como pagar um seguro ou fazer um investimento no futuro.

Devemos apenas olhar as fotografias de Clarice Lispector (minha reserva especial), podemos até ler sua biografia e suas citações. Entretanto, nunca devemos fraquejar e se atrever a abrir algum dos seus livros. Porque, inexoravelmente, todas essas promessas de prazeres guardados depressa se transformarão em 'saudades dos livros lidos'.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

UMA CERTA IMORTALIDADE


Sobrevivo dentro de uma alucinação virtual compartilhada, concebida e controlada pela f(SUM), que reproduz fielmente o universo de Machado de Assis, dos seus romances, contos e crônicas. Nesta existência estendida continuo médico, tenho sempre 36 anos, 1,80 de altura, sou solteiro e moro no Catete. Os ciberespaciários prometem que este estado vai perdurar indefinidamente – por toda a eternidade.

Existem dezenas de instalações semelhantes, ambientadas em grandes romances, grupos de novelas ou séries TV e franquias de filmes, habitadas por personagens fictícias e ‘avatares conscientes’. Nome utilizado pela f(SUM) para as replicações digitais de pessoas depois da morte. Toda a população é composta por entidades algorítmicas que podem interagir em velocidades eletrônicas, livres das limitações dos corpos físicos. Porém, as comunidades virtuais – ou ‘egovivências’ – seguem o Tempo Humano e obedecem aos ciclos biológicos básicos: dias de 24 horas; rotinas de sono e vigília; fome periódica induzida; frio, calor; estações do ano e outras vicissitudes. Dentro desta 'gaiola' de referencias os avatares têm livre arbítrio e são contemplados com todas as confusas paixões que se escondem nos corações humanos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

As 32 Colunas da Sala São Paulo


É divertida a obsessão de Dan (Código da Vince) Brown por referências cruzadas e correlações (numéricas e simbológicas) entre História, Arquitetura e Artes em geral. Passa a impressão de que vivemos em gaiolas de informações secretas reservadas para iniciados; e que nós, os mortais (os trouxas de Harry Potter), não somos capazes de enxergar as grades que nos prendem.

No entanto, é curioso observar que contando as elegantes colunas coríntias dentro do Auditório da Sala São Paulo totalizam 32. Ano da Revolução Constitucionalista, 9 de julho de 1932. Talvez a data de maior significado para as tradições cívicas paulistas e paulistanas.

O engenheiro-arquiteto Christiano Stockler das Neves era um paulista tradicional e apaixonado, formando em 1911, pela Universidade de Pensilvânia, construiu o primeiro aranha-céu da cidade, o Edifício Sampaio Moreira, sede da centenária Casa Godinho. Apresentou projetos para as Estações do Norte (Brás) e D. Pedro (Rio); organizou o Faculdade de Arquitetura do Mackenzie; e foi prefeito de S. Paulo por cinco meses. Um currículo de competência e dedicação à cidade.

Contudo, e desafortunadamente, existe um descompasso intrigante nestas 32 colunas do Auditório da Sala São Paulo  anteriormente um jardim interno de teto aberto.  O projeto é 1925, os trabalhos começaram em 26 – antes da revolução. Nos anos de 28/29, por causa das turbulências econômicas, o projeto foi postergado e simplificado, o que levou Christiano Stockler das Neves a abandonar o empreendimento, e inclusive processar a Sorocabana exigindo preservação da planta contratada. Perdeu.

Na retomada foram priorizadas e construídas antes as plataformas de embarque. O edifício completo e acabado , todavia modificado, e com o nome de Estação Júlio Prestes – um paulista eleito presidente, mas impedido de assumir – foi inaugurado apenas em 15 de outubro de 1938

Quem sabe Dan Brown não seja só um maníaco. Quando lembramos das grandes construções e monumentos de S. Paulo antigo, como o  Edifício 'Ouro para o Bem de São Paulo', construído com as sobras do dinheiro da campanha ‘Doe Ouro para o Bem de São Paulo’; ou do Obelisco aos Heróis de 32, no Parque Ibirapuera; cheios de referências numéricas de efemérides e dados cívicos paulistas, fica e aumenta a dúvida:

As 32 colunas são somente coincidência?

DIMARCO, Ana Regina e ZEIN, Ruth Verde  Sala São Paulo de Concertos - Revitalização da Estação Júlia Prestes: O Projeto Arquitetônico / Arquiteto Nelson Dupré - São Paulo / 2001 - Editora Alter Market   

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

AudioFolia e Arte



Salvador Dalí preferia vinil e corneta.

AudioFolia em Cartagena/Colômbia 

Não cabe no humano
– tão dissecado e iludido
por Freud Jung Lacan –
a vasta Prova Ontológica.
Somos frágeis e pequenos,
não podemos abrigar
o delírio de Santo Anselmo.

Não cabe ao humano
a tarefa incomensurável
de provar que Deus existe.
Somos feitos de pó,
ímpeto e engano,
em nossas certezas,
a dúvida sempre subsiste.

Pela Sua omnipotência,
em Deus cabe e a Deus cabe

a misericórdia da manifestação.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Parque Savoia - Por Trás dos Portões

O Parque Savoia, na Rua na Vitorino Carmilo, 458, Barra Funda (a mesma onde nasceu Amâncio Mazzaropi), sempre me encantou pela arquitetura romântica e elegante. Sobretudo, me fascinavam seus jardins internos, secretos e interditados, Quem foi criança sabe que invadir jardins proibidos é uma compulsão irresistível.

Escrevi algumas vezes sobre esta intrigante construção no Blog Paulistando (http://www.paulistando.com.br/2013/03/parque-savoia-lugares-de-outra-sao-paulo.html). Especulava sobre seus mistérios e inventava moradores fictícios, poderia ser o esconderijo paulista para um remake do Sherlock Holmes. Nas minhas caminhadas, as vezes desviava para passar por lá, só para apreciar a fachada, atiçando minha vontade de cruzar as grades de ferro e adentrar nos jardins e alamedas da ‘vila’ italiana.

No começo deste ano (2014), descobri que o proprietário, Sr. Salvatore Iungano, participava do grupo Facebook ‘Memorias Paulistanas’, trocamos algumas mensagens e revelei meu desejo. Fui convidado a visitar o parque por dentro. Aceitei agradecido, em junho atravessei os portões do paraíso escondido.


Antes de começar a falar das maravilhas do Parque Savoia gostaria de parabenizar o Sr. Salvatore Iungano que – ‘apesar’ das erráticas leis de tombamento e preservação – mantem este monumento arquitetônico praticamente sozinho, com muito esforço e dedicação pessoal. É um pedaço de passado embalsamado e protegido com carinho.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Na Fila Com Marlene Dietrich

Fui ao CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil ver a Retrospectiva da MARLENE – a diva alemã do cinema antigo. Planejava passar uma tarde curtindo a atriz indecifrável, desaparecida das TVs, mesmo nos canais a cabo regiamente pagos.

Entrei na fila e comecei a ler o programa da mostra. Na capa a foto da homenageada, obviamente em preto e branco – as cores dos estados da alma – com o inseparável cigarro, que, infinitas vezes, nas velhas películas envolvia seu rosto em volutas de deslumbramentos e mistérios.

Umas 20 pessoas esperavam na minha frente, então me entretive com o livreto do evento. Acho que, enquanto estava lendo, fui transportado por um desses desvãos extratemporais onde o assombro habita, porque quando ergui os olhos das páginas a fila inteira havia se metamorfoseado.

Contei cinco ‘Woody Allen’s, todos tímidos e desajeitados, tentando entender os desacertos do mundo. Entre eles, um herege que ousou trocar os famosos óculos de aros pretos por uma finíssima armação de metal dourado. Devia ser expulso do evento.

Os ‘Alfred Hitchcock’s eram três, com suas reconhecíveis caras de enfado absoluto e barrigas proeminentes. Pareciam saber que algo terrível se anunciava e estavam ali para conferir, quem sabe encenar e dirigir a tragédia iminente.

Me espantou o número de ‘Martin Scorsese’s – sete, com seus óculos escondendo as sobrancelhas de Groucho Marx. Na verdade acho que alguns eram o ácido comediante ressuscitado.

Estavam lá o Ingmar Bergman de bermuda; o Pier Paolo Pasolini de camisa do Corinthians; o Stanley Kubrick e o Roman Polanski chupando sorvetes, e, entre os dois, uma Lolita lambendo um pirulito. Mais uma imensidão de emanações de célebres atores e diretores, muitos não consegui reconhecer.

Uma constelação de estrelas: meia dúzia de 'Marlene's; várias ‘Greta Garbo’s de olhos grandes e silenciosos; algumas 'Louise Brook's melindrosas de provocantes cabelos curtos, além de muitas ‘Marilym Monroe’s e ‘Rita Hayworth’s de vestidos colantes de todas as cores, todas já sem luvas.

Intrigado, e um pouco preocupado, voltei para o livro tentando  através da leitura  escapar daquele estado de consciência alterada. De repente me ocorreu uma questão urgente:

- E eu? Pelos olhos dos outros, quem era?

Olhei de novo para a fila e flagrei dois Fernandos Meirelles sorridentes olhando insistentemente para mim. Como estava de chapéu, pretensiosamente, torci para ter me transformado no John Huston ou no Clintão.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Prefácio - Sobre a Transcencência do Silêncio

Intrigante e desafiador o título do livro, uma anunciação clara do maior inimigo dos poetas estes cavaleiros andantes do espírito humano. Porque, Sobre a Transcendência do Silêncio, remete a mais emblemática conclusão da Filosofia do século XX, quase repete a afirmação final do Tractatus Logico-Philosophicus, de Ludwig Wittgenstein: “O que não se pode falar, deve-se calar.” Entretanto está recomendação é inaceitável para a Poesia verdadeira, porque o poeta pode, e deve, falar de tudo.

A imagem subjacente que acompanha a leitura dos poemas de Nathan Souza (NS) é de um cordão mágico, vibrátil, vital e sem-fim, que se desenrola, impetuosamente, tentando enlaçar e amarrar o sentido das coisas. Como um caudaloso rio de planície; como uma trajetória de navegação de um viajante audacioso; como o fio de Ariadne que avança com destemor para dentro do labirinto.

Rio, mapa de navegação e fio de Ariadne são três metáforas intercambiáveis, porém complementares; em cada uma delas é igualmente importante, tanto a tessitura da rota-cordão, quando a geografia por onde ele se desenrola.

Como um rio sinuoso a Poesia de NS inventa curvas elegantes e inesperadas para visitar, conhecer e dar notícia de cada habitante escondido na floresta. Como a torrente, que carrega o sal da terra, seus versos absolvem todos os pecados, compartilham todas as maravilhas e realizam em todos os milagres.

Sua Poesia também é um barco a vela que navega, impelido pelo vento da curiosidade, pela cartografia das ‘pequenas ilhas afetivas de fantasia’, que C. G. Jung mapeou no inconsciente coletivo da humanidade, onde residem as fadas, os príncipes encantados, os monstros, e onde moram as soluções de todos os mistérios do coração e da alma.

Sobretudo, a Poesia de NS é como um fio de Ariadne que o poeta vai fiando à medida que avança. Cada nó se transforma num poema, num sinal. Um cordão de tessitura cambiante, às vezes de algodão de fibra longa, para garantir coesão da inspiração e da lógica; às vezes de fios de ouro por causa do brilho e da riqueza das figuras de linguagem; às vezes de seda colorida e fantasiosa, repleto de referências imediatas e imemoriais.

Segundo Ezra Pound, no livro ABC da Literatura, “...literatura [Poesia] é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível...” E existem três formas de sobrecarregar a linguagem de significado: a fanopéia – poesia de imagens; a melopéia – poesia de sons; e a logopéia – poesia de ideias.

A fibra escolhida para o cordão de Nathan parece ser a logopéia, a mesma trama rija selecionada por Drummond, Jorge de Lima, João Cabral e Ricardo Reis (o heterônimo exilado de Pessoa).

Não são as rimas ricas, nem as sonoridades sibilantes; nem as imagens profusas que assaltam NS, o que lhe assedia são ideias e ‘sentimentos pensados’. O Poeta não é arrastado pela irresistível atração da exaltação da vida; nem compelido pelas reminiscências e lembranças; o que o impulsiona é a exploração dos sentimentos, camuflados no prosaico, no dia a dia, e mimetizados no óbvio.

A busca dos significados da existência, a tentativa de decifração dos mistérios da vida, pulula na Poesia de NS, existem incontáveis exemplos.

No poema Espera, ele procura compreender a faculdade do entendimento, aquela que cuida das ideias e dos sentimentos racionalizados:

“(o todo inconsciente
que a tudo
exige compreensão
já que o entendimento
nunca foi um dom
exclusivo
da razão).”

Em Resquício aparece novamente a procura do ferramental para racionalização do discurso:

“da língua de amolar
minha palavra
ancestral.”

São acertadas estas práticas de interrogação permanente sobre a gênese e os fundamentos do significado das palavras e sentimentos, porque ficar em silêncio não é uma solução conveniente para o praticante de Poesia - a mais vã e sutil das artes - que têm como matéria e desafio a palavra, a elaboração de um discurso significativo.

Por isso é imprescindível meditar Sobre a Transcendência do Silêncio e prestar atenção no que NS tem a dizer acerca deste assunto.

Nathan Souza, Sobre a Transcendência do Silêncio, Belém-PA, Editora LiteraCidade, 2014(www.literacidade.com.br)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sebos, Bibliotecas e E-Books...

Entrei num sebo em Veneza, perto da Igreja de Santa Maria Formosa – uma região de antiquários. A loja era estranha e intrigante, meio navegante, meio delirante, como os contos de Borges. Uma sequência de 20 – ou infinitas – salas e cubículos mal iluminados, com janelas e portas altas e baixas, pequenas e grandes que se abriam para um canal estreito e ensombrado, apesar do sol brilhante.

Os livros – vários milhares – estavam dispostos em pilhas úmidas que brotavam diretamente do chão, de ladrilhos multi centenários ou calçamentos rudes e ásperos. Formavam paredes, simulavam labirintos, provocavam assombros. Uma pequena parte, sobretudo os Livros de Arte, estavam viajando, expostos em velhas gondolas, barcos, banheiras, carinhos de jardinagem e outras esquisitices espalhadas pelos corredores ou dependuradas nas paredes, como estantes improvisadas.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Estações Júlio Prestes e Luz, Futuro Travado


O belo prédio da EMESP - Escola de Música do Estado de São Paulo - Tom Jobim (Largo Gen. Osório, 147), defronte a Sala São Paulo da OSESP.

Um centro de excelência na formação de músicos eruditos. Uma espécie de raiz e tronco que garantem a floração das grandes orquestras e conjuntos instrumentais e vocais brasileiros.

Às vezes, caminhando pelo eixo da Pinacoteca, Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz, Museu Estação Pinacoteca, Sala São Paulo e o prédio acima, imagino como ficaria esta região com as linhas de trem subterrâneas, como acontece nas grandes capitais do mundo.

Mudaria completamente o foco e o futuro desta área desgradada, deslocaria o eixo imobiliário de S. Paulo. Seria um novo Ibirapuera, do lado norte da cidade. Um espaço diferente, contudo, porque repleto de edifícios e casas antigas e passiveis de restauração e preservação.

Não faltam ideias, existem bons projetos de recuperação; não falta dinheiro ou financiamentos. Nossa carência é de estadistas cultos e patriotas, capazes de pensar além dos partidos. Infelizmente, hoje, parcos e raros. Vivemos uma era de políticos imediatistas, mensaleiros e gananciosos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

CENAS DO CINEMA PAULISTA


Esta muralha de prédios da Praça Roosevelt – nos anos 50/60 – era o limite da S.Paulo que virara megalópole. Separava o agitado e boêmio Centro Novo dos distantes e tranquilos bairros residenciais: Higienópolis, Cerqueira Cesar e Jardins. A Paulista ficava longe, ainda era apenas uma avenida refinada, cheia de casarões.

Dois filmes emblemáticos do Cinema Paulista – que registram este momento de mudança efervescente, de acelerada industrialização  terminam exatamente aqui: São Paulo S/A (de Luís Sérgio Person) e Noite Vazia (de Walter Hugo Khouri).

No primeiro – São Paulo S/A  Walmor Chagas, um existencialista desencaixado, rouba um carro na praça-estacionamento e dirige sem parar fugindo da S. Paulo que ficava grande demais, procurando o sentido da vida. No segundo  Noite Vazia   Mário Benvenutti e Gabriele Tinti, playboys entediados, depois de uma noite de transas, confrontações e revelações, no começo da manhã, deixam duas garotas de programa (Norma Bengell e Odete Lara) nesta praça deserta, surreal e semi abandonada. Depois voltam para suas vidas de burgueses, pacatas e bem comportadas.

Ontem e hoje, por causa da imensidão da praça, no fim das tardes, um Sol tépido, ofuscante e inclemente invade os apartamentos da muralha. Sempre foi, e continua sendo, um endereço procurado por artistas e intelectuais, por gente interessante e interessada.

Num desses edifício  o mais baixo, a esquerda   funciona a Escola de Teatro da Prefeitura, e os térreos dos outros prédios acolhem os palcos experimentais e questionadores de cena paulista: Sátiros, Parlapatões e outros.  

Todo mundo que morou ou estudou em S.Paulo frequentou a região, os bares, os teatros e, seguramente,  o velho e saudoso Cine Bijou, para assistir filmes cabeça.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Outonos em S. Paulo

Sentado na Praça Roosevelt e olhando para as luminárias espaciais, depois a torre meio gótica da Igreja da Consolação; junto com o futurista e efêmero Hotel Hilton – hoje gabinetes de desembargadores – e, entre ambos, o edifício que acolheu o antigo Bar Redondo, é impossível controlar o atropelo das lembranças.
Sobretudo porque em S.Paulo as estações do ano são como crianças travessas, não seguem regras e não cumprem calendários. Primaveras saltam de dentro de invernos e outonos se escondem nos verões. Ás vezes todas quatro brincam de roda no mesmo dia.
Por isso a sutil elegância das meninas paulistas confunde os migrantes e atordoa os turistas caetanos. É coisa mais pessoal, bandeirante. Engana a Moda, não depende das roupas, reside mais perto da pele. As paulistinhas sorriem imprevisíveis, como as estações. São invernais, outonais ou primaveris, sem obedecer a nenhum critério. Certeza? Apenas que o riso-verão, que esquenta e excita, está reservado para os namorados.
As transições das estações em S. Paulo são inesperadas, mágicas e misturadas. Ordem e sequência não são respeitadas. O tempo de recolhimento é cheio de quietude ou ousadias, o romantismo é tomado de entusiasmos e o planejamento abriga conclusões provisórias. Em dúvida, meio tontas, as cores ficam mais carinhosas e cambiantes. Coquetes, as possibilidades brotam coloridas como margaridas do campo e todo mundo sonha com coisas impossíveis ou inacreditáveis.
Nas caminhadas tanto podemos ver novas florações iridescentes, como afundar os pés em folhas caídas (talvez dos vasos das janelas), ambas nas mesma rua. 
Porque em S.Paulo, sempre existe mais de uma opção; sem contar com as impensáveis.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O Lado Ensolarado da Rua dos Ingleses


O lado ensolarado da Rua dos Ingleses – o longo quarteirão entre o Teatro Ruth Escobar e a Rua dos Franceses.

Muito bonito, mais de uma dezena de sobrados restaurados, preservados e coloridos se exibem nos dias de sol.  Entre eles o Museu Memória do Bixiga e a Miguel Giannini Óculos – o famoso esteta ótico das celebridades e autoridades (política e ficção) – e, nos tempos eleitoreiros, os comitês partidários aproveitam e também invadem a ladeira com comitês (ficção e política de novo).

Vale a pena caminhar e olhar para os dois lados da rua. Com um pouco de imaginação pode-se voltar uns 70 anos atrás. Exceto pela estridência do colorido, porque os paulistanos antigos eram muito mais discretos e sóbrios.

Na ótica do Miguel Giannini – impecavelmente preservada, inclusive as portas e janelas originais, de madeira de lei – existe um museu de óculos antigos com surpresas inesperadas. O Miguelzinho é o cara, além de preservar o prédio, faz um magnífico trabalho social para jovens carentes. Alguns deles  de paletó e gravara  frequentam estreias no Municipal para aprender a valorizar a arte.

Se, depois do passeio, acometer uma impulso irreprimível para adquirir antiguidade, nos domingos, basta descer a bela e pouco cuidada escadaria para Rua Treze de Maio e visitar a Mercado de Pulgas da Praça Dom Orione.

Infelizmente isto não é ficção: a horrenda fiação suspensa nas fotos serve como tarja preta e protesto contra a incompetência de nossos políticos municipais, estaduais, federais e muitos mais.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O BIXIGA E AS DOBRAS DO TEMPO

No Bixiga – que esnoba o pomposo nome de Bela Vista – acontecem coisas espantosas, inexplicáveis e inacreditáveis. Parece que nele o passado insiste, resiste e se retorce para não morrer e ser enterrado. Suas ruas antigas guardam com zelo e carinho as sementes de todas as 'paulistanices'. Adoniram; a miscigenação permanente dos migrantes, emigrantes e nativos; os antiquários; a casa que acolheu as loucuras e insanidades de Dona Yayá. Além dos teatros antigos e resilientes.

O bairro, que dois séculos atrás – 1819, abrigou Saint-Hilaire, o mais simpático e otimista dos estrangeiros que visitaram S. Paulo, deve ficar dentro de uma sutil dobra do Tempo. Um bolsão irreal costurado com agulhas mágicas e linhas esquisitas. Com limites indefinidos e geografia incerta.

É possível, por exemplo, fazer uma viagem no tempo na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, número 1308.



Parece que a onda de revivescência dos sobradinhos é cíclica, alguns meses atrás registrei a revitalização de um quarteirão inteiro da Rua Maria José, esquina com a Brigadeiro Luís Antônio. O post teve mais de 300 mil visualizações, ninguém acreditava, diziam que era montagem.



Talvez, num trecho da Rua dos Ingleses exista um portal do passado, com seus ares – não cores – novecentistas. Às vezes, nos dias de sol, aparece uma ladeira inteira para se paulistar. Perto do Teatro Ruth Escobar, atrás das cantinas da Rua Treze de Maio e no alto da escadaria da Praça Dom Orione, que, nos domingos, esconde o busto de Adoniram e recebe um mercado das pulgas onde são comercializadas as escamas dos tempos idos.


Apesar das fronteiras móveis, o Bixiga ocupa um lugar privilegiado na geografia paulistana: no sentido norte-sul fica entre a Avenida Paulista e o Centro Velho; no sentido leste-oeste divide a Liberdade e Aclimação de Higienópolis e Cerqueira Cesar. Considerando o mapa e as facilidades de acesso, não existe melhor ponto para se morar, é perto de tudo, mas diferente de todos os outros lugares.


Andando pelo Bixiga essa sanha de restauração parece um pouco com um despertar do Realismo Fantástico, depois de cem anos de sonho deslembrados.

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TBC - Teatro Brasileiro de Comédia em Reforma

terça-feira, 8 de julho de 2014

As Muitas Camadas do Anhangabaú

Em cima de tudo – como uma vela de bolo – recortado no céu azul, o poste de iluminação de S. Paulo, eleito um dos mais belos do mundo, um orgulho dos paulistanos.

Depois as instigantes grades de proteção do Viaduto Santa Efigênia, maravilha da refinada, porém finada, arte da serralheria. Entre os itens mais clicados da cidade. Tema de ensaios fotográficos de grandes artistas.

No meio o rendilhado de aço do viaduto, admirado pela grandiosidade dos três longos arcos e pela lógica e leveza do desenho. Fabricado na Bélgica, entre 1910 e 1913, desembarcado no porto de Santos e transportado pela São Paulo Railway.

Embaixo as sapatas, ou pilares, do viaduto, construídos por uma empresa alemã, para garantir a sustentação, o equilíbrio e o nivelamento da vasta estrutura de aço. Cem anos de garantia, vencida em 2013.

Mais embaixo ainda o Rio Anhangabaú – rio do mau espírito / Teodoro Sampaio’ ou ‘água da face do diabo / Eduardo de Almeida Navarro’ – que, como os carros, amedrontava e ameaça a saúde da população. Por isso, ambos – carros e córrego – jazem enterrados sob o imenso palco de comemorações cívicas e manifestações políticas.

Será que S.Paulo conseguiu vencer o dianho?









segunda-feira, 30 de junho de 2014

Pereira Barreto - Um Monumento no Armário


Não é fácil, mas, quem for capaz de reprimir a raiva e ignorar o estrupício do  Minhocão – essa feia cicatriz que deforma e estraga o rosto da cidade – poderá admirar este belíssimo conjunto de estátuas dedicado ao médico, cientista e empreendedor Luiz Pereira Barreto. As musas que o acompanham aludem à Medicina e à Agricultura, campos de atuação do homenageado. Ao lado do monumento tem um playground, onde brincam as crianças, antes chamadas de 'esperança do Brasil'. Quem dera?
         
Num dia de sol é suportável e até agradável a visita.

A obra de 1929 – que não combina com o Minhocão – foi concebida e esculpida por Galileo Emendabili, e está localizada na Praça Marechal Deodoro, no bairro de Santa Cecilia, não distante da Santa Casa de S. Paulo.

Jorge Amado, na panfletária e transversa trilogia ‘Os Subterrâneos da Liberdade’, fala da Praça Marechal Deodoro, de 1937, como um lugar bonito, elegante e romântico, onde casais se encontravam para namorar.

S. Paulo – com seu desmando imobiliário – não costuma preservar o ‘clima, o espírito e a personalidade’ dos lugares. Entretanto, nesta praça assassinada, talvez porque o transtorno do Minhocão afugentou novos lançamentos, o conjunto de prédios ao redor continua periclitante e miraculosamente mantido.

Se a prefeitura fizer alguma coisa, como por exemplo, enfiar o 'Minhocão' dentro de um tubo colorido e antirruído, como algumas cidades do oriente fazem com vias elevadas, a bela praça talvez tenha chance de ressuscitar.

Um detalhe intrigante e surpreendente, o conjunto estatuário não estava pichado!  

terça-feira, 17 de junho de 2014

DILEMAS DE DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA


A Obstinada Resistência das Casas

Resistentes e frágeis – como os papéis de seda que envolvem velhas lembranças – algumas casas antigas sobrevivem apesar dos bombardeios e explosões imobiliárias. Atacadas por pichações, enroladas por fios elétricos e telefônicos ou cercadas por agulhões de concreto. Parecem rosas de Hiroshima indestrutíveis, ou pérolas salvadas no meio de conchas trituradas.




Algumas demolições são trágicas e irreversíveis, perder certas casas é como extinguir uma espécie rara. São universos de lembranças, emoções, esperanças e modos de vida que viram entulho. A História da cidade vai diretamente para as caçambas.

Será que num planeta com 7 bilhões de habitantes – e crescendo, que defende valores transversos e pouco racionais, é possível frear, organizar e direcionar o progresso? Podemos controlar a expansão das construções desgovernadas que avançam feito um rinoceronte cego derrubando tudo? Com incentivo ou inação pública.



O que resta são dois cenários de Ficção Científica. 

Primeiro, ou as casas antigas e os prédios históricos se transformam em itens ultra valorizados, objetos de desejo – como acontece em várias cidades do mundo – tonando-se curtidíssimo e refinado morar neles.

Segundo, ou teremos as vias Matrix e Blade Runner: declaramos nossa falência e as máquinas (ou ganâncias) obtusas tomam conta de tudo, destruindo integral e obstinadamente toda a memorabília humana.
A resposta, até agora, indica que a destruição é inevitável. A única regra vigente é ocupar áreas verdes e maximizar o uso do espaço urbano, porque a população aumenta e se concentra sem parar.








CASAS JÁ DEMOLIDAS